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Jovens inovadores: Gabriel Liguori - Tissue Labs
Gabriel Liguori, 31 anos, desenvolveu uma impressora 3D que fabrica tecido humano para auxiliar pesquisas científicas.| Foto: Divulgação

Tecidos humanos feitos por uma bioimpressora, sequenciamento genético com teste de farmácia, preparos que substituem ovos em receitas, monitoramento da lavoura via satélite e telemedicina. Tais tecnologias podem parecer futuristas, mas cinco jovens brasileiros não apenas as tornaram realidade como prometem revolucionar diversos setores do mercado.

Foi o que apontou a edição em espanhol da revista MIT Technology Review, do Instituto de Tecnologia de Massachussetts. A publicação premiou os 35 principais jovens inovadores da América Latina com menos de 35 anos. O objetivo da premiação anual, chamada “Latin American Innovators Under 35”, é vislumbrar os possíveis rumos da tecnologia.

Divulgadas em novembro de 2020, as tecnologias escolhidas promovem a sustentabilidade com embalagens biodegradáveis, monitoramento climático, fisioterapia remota e até aplicativo que combate notícias falsas. Entre as categorias de premiação estão pioneirismo, lutas humanitárias, visionários, empreendedores e inventores. As indicações reuniram nomes de toda a América Latina.

Dos 35 indicados, cinco são brasileiros, três estão relacionados à resolução de problemas de saúde, um à agricultura e outro à indústria alimentícia.

Conheça os cinco brasileiros mais inovadores segundo a Latin American Innovators Under 35.

Um coração de impressora 3D

Gabriel Liguori, TISSUELABS

“Em quinze anos queremos imprimir o primeiro coração que possa ser transplantado no mundo”. Foi sonhando alto que o médico Gabriel Liguori, de 31 anos, desenvolveu uma impressora 3D capaz de fabricar pequenos pedaços de tecido humano para auxiliar cientistas no desenvolvimento de suas pesquisas.

O caminho de Gabriel pela área da saúde começou cedo. Liguori nasceu com uma má formação cardíaca que o levou escolher a medicina como profissão. Durante a faculdade, cursada na Universidade de São Paulo (USP), focou na área cardiovascular para tratar crianças que também tinham problemas cardíacos.

No dia a dia do hospital, Gabriel percebeu alguns problemas de difícil solução. Segundo o médico, no mundo há mais de dois milhões de pessoas na fila do transplante de diversos órgãos, e pessoas aptas a realizarem doações após o falecimento somam três entre mil que morrem. Ou seja: para zerar a fila de transplantes no mundo, meio bilhão de pessoas precisariam morrer. Então por que não imprimir biotecidos que possam imitar as células humanas?

"Assim que terminei a faculdade, decidi que, em vez de residência, faria um doutorado para estudar medicina regenerativa e engenharia de tecidos. Essa área procura criar órgãos artificiais para que possam ser transplantados sem a necessidade de que alguém morra. Não faz sentido depender da morte para que outras pessoas vivam. Queremos desenvolver uma nova forma de realizar transplantes e ter isso sob demanda”, prevê Liguori, premiado na categoria visionários.

Como as pesquisas levam tempo até a impressão dos tecidos que podem ser transplantados, Gabriel fundou a TissueLabs em 2019 ao lado de Emerson Moretto, pesquisador e engenheiro de computação. A startup foi incubada pelo Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia a USP, Cietec.

A TissueLabs imprime pequenos tecidos como válvulas cardíacas e vasos sanguíneos vivos que são utilizados nas pesquisas de médicos e cientistas brasileiros e da Europa. Ao todo, 200 pesquisadores utilizam suas tecnologias para inovações biomédicas.

A startup também fabrica e vende biotinta em gel, utilizada na pigmentação dos tecidos artificiais. “Desenvolvemos pesquisas principalmente na área cardiovascular, damos suporte para pesquisadores que estão trabalhando em uma série de outras áreas”, descreve Gabriel.

O próximo passo até alcançar o grande objetivo de imprimir um coração transplantável é a internacionalização. A startup recebeu em 2020 o primeiro aporte privado, no valor de R$ 1,5 milhão, para desenvolver novos produtos e expandir suas atividades para o exterior.

Ovo à base de plantas

Amanda Pinto, N.OVO

Jovens inovadores MIT: Amanda Pinto
Amanda Pinto, 29 anos, desenvolveu um ingrediente que substitui o ovo por uma proteína de ervilha e soja. | Divulgação

Como equilibrar o volume de alimentos consumidos, os impactos ambientais da produção de insumos em larga escala e a sustentabilidade? Amanda Pinto dedicou boa parte de sua carreira de administração para tentar solucionar essa equação, o que lhe garantiu o prêmio na categoria de pioneirismo aos 29 anos.

Amanda era head de inovação da granja de ovos Grupo Mantiqueira, fundada por seu pai, até se graduar em marketing na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e ser incentivada a questionar processos tradicionais. É quando ela decide voltar ao Brasil com diversas ideias para novos produtos, criando, em 2019, a N.ovo: uma spin-off – empresa derivada com administração própria – da Mantiqueira, idealizada para produzir apenas alimentos à base de plantas.

A CEO desenvolveu um ingrediente que substitui o ovo por uma proteína de ervilha e soja. O ovo plant-based consiste em uma mistura em pó vegetal que pode ser incorporada a qualquer receita. Entre os produtos da N.ovo estão também uma maionese vegana sem glúten e um preparo que imita ovos mexidos.

Com a ideia, Amanda inovou e não só colocou um novo produto no mercado, mas também buscou impactar positivamente o meio ambiente. “Uma em cada nove pessoas no mundo passa fome. Se levarmos o grão diretamente para as pessoas, conseguimos alimentar muito mais do que se alimentarmos animais que depois alimentam pessoas”, defende.

A idealizadora aponta que o mercado tem aderido ao produto, e sonha que o N.ovo seja cada vez mais acessível. “Nosso intuito é ser a escolha óbvia com o produto mais gostoso. Temos muito foco em sabor e acessibilidade, aproveitando a distribuição da Mantiqueira, levando para o maior número de portas possível um produto bom e sustentável”, completa.

Para o futuro, o objetivo da N.ovo é ganhar mercado expandindo itens comercializados e número de funcionários. Hoje a spin-off conta com cinco profissionais. A empresa também pretende lançar em 2021 um software que aponta a melhor opção vegetal para substituir alimentos de origem animal.

Telemedicina além da videoconferência

Fred Rabelo, T.I SAÚDE

Jovens inovadores: Fred Rabelo
Fred Rabelo, de 30 anos, desenvolveu sistema que conecta médico e paciente. | Divulgação

Antes da pandemia e da autorização da telemedicina no Brasil, os fundadores da Ti.Saúde já sabiam que a tecnologia seria popular no futuro. O que os empreendedores não imaginavam é que este futuro estaria tão próximo.

Quando os casos de coronavírus aumentaram no país, Fred Rabelo, de 30 anos, fundador da Ti.Saúde, já tinha a plataforma pronta para o atendimento. O sistema idealizado por Fred conecta os dois atores no sistema de saúde, médico e paciente. Através do software que é integrado aos sistemas já existentes de hospitais e planos de saúde, é possível agendar, acompanhar pacientes a distância, realizar teleconsultas e assistir principalmente doentes crônicos, que integram grupos de risco da pandemia.

Com mãe costureira e pai autônomo, um dos objetivos de Fred é promover o acesso à saúde de qualidade. Doutor em engenharia de computação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), viu durante a graduação que a organização dos sistemas de saúde era muito precária, utilizando papéis para acompanhar pacientes. O CEO contou a ideia para os irmãos, Fábio e Flávio Rabelo, que embarcaram juntos na fundação da Ti.Saúde em 2016.

“Eu não tinha plano de saúde e sei como é precisar de acesso e não o ter. Nosso grande objetivo é promover o acesso à saúde de qualidade”, enfatiza Rabelo, premiado na categoria humanitária. “Vemos a telemedicina não só como a videoconferência, mas como o relacionamento digital, lembrando o paciente que a se vacinar ou retornar ao médico para acompanhamento”.

A ideia do sistema é que o relacionamento com o paciente não termine ao sair da consulta. Para facilitar a acessibilidade a todos os públicos, o relacionamento acontece via mensagens de WhatsApp, texto ou ligações.

Durante a pandemia, assim como diversas outras plataformas de telemedicina, a Ti. Saúde ampliou sua atuação. A startup saiu de 13 colaboradores para 37 até o final de 2020 e cresceu quatro vezes em faturamento. A plataforma é utilizada por 3,4 mil médicos no Brasil, além de profissionais em Moçambique e Angola. Para o futuro, a ideia da startup é realizar uma parceria com a prefeitura de Olinda, em Pernambuco, para realizar a gestão da imunização de pacientes com as vacinas que combatem o coronavírus.

O prêmio foi direcionado à Ti.Saúde também por sua atuação durante a pandemia. Estudantes e professores da Universidade Federal de Pernambuco já realizaram 10 mil atendimentos online e gratuitos para diagnóstico de Covid-19 através da plataforma. A meta de 2021 é expandir internacionalmente a tecnologia.

Monitoramento de plantações por app

Renato Borges, AGROINTELI

Renato Borges: Agrointeli
Renato Borges, 28 anos, criou sistema que ajuda agricultores a aumentar a produção e reduzir custos. | Divulgação

Monitorar lavouras, verificar pragas e controlar a necessidade de insumos. Essas são as principais soluções da Agrointeli, startup do Mato Grosso do Sul que realiza o monitoramento de plantações através de imagens aéreas, sensores e máquinas.

O sistema ajuda agricultores a aumentar a produção e reduzir os custos com o manejo no campo. Fundada por Renato Borges em 2017, o sistema conecta agricultores às lavouras de diversas culturas e democratiza a tecnologia no campo.

Filho e neto de agricultores, Renato, hoje com 28 anos, sempre presenciou o dia a dia no campo e desde cedo foi influenciado a solucionar alguns dos problemas do cultivo. Borges saiu da lavoura para se formar em engenharia de computação, voltando para o campo cinco anos mais tarde e ouvindo as mesmas reclamações sobre gastos, dificuldade de manipulação e planejamento inteligente de insumos.

O sistema, premiado na categoria visionários, coleta imagens de diferentes fontes e sensores espalhados pela propriedade, e oferece ao agricultor um painel com recomendações sobre plantio, colheita e monitoramento de chuvas. A tecnologia monitora mais de 300 mil hectares todos os dias.

“O produtor dorme e acorda pensando em como vai ser a produtividade ao final da safra. Através do sistema, conseguimos monitorar pragas, mudanças climáticas e a saúde da lavoura, levando tranquilidade ao produtor”, descreve Renato. O sistema permite acompanhar a safra através de um aplicativo sem precisar sair de casa. Assim, ele ajuda o agricultor a administrar a fazenda a partir da centralização e organização de dados coletados via satélite e sensores.

Durante a pandemia, o sistema já foi expandido para Paraguai, Chile e Bolívia, além de 18 estados brasileiros. Outro diferencial do sistema é que a plataforma pode ser operada e atualizada sem a necessidade de internet, já que, segundo o CEO, mais de 70% das propriedades no país não têm acesso à conexão, o que dificulta a entrada de novas tecnologias.

A Agrointeli mira a expansão internacional, mas também entende o potencial da agricultura na América Latina. “Nosso interesse é permanecer na América do Sul, que tem mais de 65 milhões de hectares de cultivo. A intenção é chegar a 500 mil hectares cobertos pela tecnologia até o fim do ano.” Borges completa ainda que pretende saltar de 15 para 35 funcionários até o final de 2021.

Sequenciamento genético de farmácia

Ricardo Di Lazzaro, GENERA

Ricardo Di Lazzaro - Genera
| Divulgação

Comprar um teste na farmácia, colher uma amostra, enviar para análise e receber um sequenciamento genético completo. Esse é o empreendimento de Ricardo di Lazzaro, de 34 anos, premiado na categoria empreendedores. Bioquímico, farmacêutico e geneticista, em 2010 Ricardo fundou a Genera. O laboratório de análise de DNA fornece uma série de indicadores sobre predisposições e ancestralidade, origem, linhagens maternas, além de um relatório ligado a medicamentos com maior eficácia para cada paciente.

A paixão pela genética levou Ricardo a desenvolver e oferecer testes mais acessíveis ao mercado. Segundo o fundador, testes que são vendidos entre R$ 500 e R$ 1 mil reais em laboratórios tradicionais custam a partir de R$ 200 na Genera, que comercializa o produto em farmácias e na internet. Segundo o CEO, o teste é o mais barato do mundo graças a uma análise feita através de algoritmos programados para realizar o mapeamento. A acessibilidade é uma das bandeiras levantadas pela Genera.

“Nosso propósito é levar a genética para as pessoas da maneira mais acessível possível. Hoje é o exame mais barato com informações genéticas, para tentar trazer informações científicas complexas para os consumidores com a vantagem da acessibilidade”, descreve.

Com 100 funcionários, os esforços da Genera estão concentrados na expansão para o Uruguai, Chile e Colômbia, aproveitando também a visibilidade da premiação. Lazzaro salienta ainda que o reconhecimento internacional é fruto do trabalho em equipe. “Meu nome está lá, mas sozinho não teria conseguido fazer absolutamente nada. Isso é fruto do trabalho de toda a equipe”, finaliza.

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