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Com coronavírus, telemedicina é impulsionada no Brasil e evita que pacientes saiam de casa
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Desde que o Ministério da Saúde implementou o serviço de atendimento via telemedicina no Brasil, em 2 de abril, mais de duas milhões de pessoas já recorreram ao serviço. Os pacientes, que podem buscar orientação gratuitamente ligando para o número 136 ou utilizando o aplicativo Coronavírus - SUS, passam por uma primeira triagem automática, feita através de um algoritmo. Dependendo dos sintomas, ele é encaminhado ao atendimento humano.

O objetivo principal deste serviço é evitar que as pessoas saiam de casa e se exponham ao coronavírus sem necessidade - e a telemedicina se provou um grande aliado para isso. Se 78% dos pacientes que utilizam o serviço tinham intenção de buscar atendimento presencial, só 23,8% de fato são orientados a buscá-lo, reduzindo o fluxo de pessoas nas ruas.

A empresa responsável pela tecnologia e pelo atendimento do Ministério da Saúde é a catarinense TopMed, no mercado há 12 anos. O serviço desenvolvido para o governo é apenas uma parte dos produtos da companhia, que oferece a outras empresas tecnologias voltadas à medicina e diferentes modalidades da telemedicina, como a teleorientação e a teleconsulta. No início da pandemia, a TopMed verificou um aumento de 760% no atendimento remoto a pacientes beneficiários do serviço.

“Todo mundo foi dormir sem saber muito sobre a telemedicina e acordou querendo saber tudo. É uma quebra de paradigma: eu nunca tive tanta facilidade de ampliar minha equipe de telemedicina quanto nos últimos quinze dias”, relata a diretora de saúde da TopMed, a médica Renata Zobaran.

O que é a telemedicina?

No dia 16 de abril, o governo federal autorizou o uso da telemedicina durante a pandemia do novo coronavírus através da Lei 13.898, considerando-a como “o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde”.

Segundo a advogada e especialista em telemedicina Caroline Cavet, a regulamentação atual da prática tem lacunas que dificultam a sua implementação a longo prazo, como a especificação das suas diferentes modalidades. Segundo ela, a teleconsulta - consulta por meio de algum meio de comunicação na qual o médico consiga saber o status do paciente - ainda sofre muita resistência do setor pelo distanciamento entre médico e paciente gerado pelo uso da tecnologia. No entanto, isso não é novidade.

“O estetoscópio, quando inventado, sofreu rejeição porque afastava o contato do médico do paciente. É nesta seara que a gente vive hoje: ao adotar a telemedicina, você tem um distanciamento, e isso gera repercussões éticas que eventualmente não são bem-quistas dentro da prática da medicina”, detalha.

Para Fabio Tiepolo, CEO da startup de telemedicina Docway, o momento é fundamental para definir o futuro das modalidades no Brasil. “A gente precisa fazer o trabalho com a teleconsulta muito bem feito agora porque é isso que vai balizar o futuro da modalidade após o Covid-19”, defende.

“Precisamos falar sobre a segurança da plataforma: não só sobre a segurança tecnológica, seguindo a LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], mas também sobre a adequação do script que o médico usa e a forma como ele utiliza o vídeo –  não é só entregar a plataforma pro médico, mas dar esse treinamento”, complementa.

Na Docway, que oferece teleorientações há dois anos, a meta para 2020 era realizar 40 mil teleatendimentos. O número foi batido sem dificuldades durante a pandemia, e as contratações decolaram: a equipe médica cresceu oito vezes para dar conta da demanda.

Com a regulamentação da telemedicina, a empresa, que antes disponibilizava a teleorientação, implementou também a teleconsulta de diversas especialidades. O serviço é contratado por meio das operadoras de plano de saúde, que por sua vez disponibilizam a tecnologia para os médicos.

Teleconsulta e teleorientação

No cenário do novo coronavírus, serviços de teleconsulta e a teleorientação - modalidade anterior à consulta, que presta um auxílio a distância com base em um quadro de sintomas, mas sem realizar diagnóstico - têm se multiplicado para dar conta de atender aos pacientes. A busca vai de dúvidas sobre a Covid-19 até a demanda de receitas de medicamentos.

É o caso da operadora de saúde Paraná Clínicas. Ao fechar suas unidades físicas para o atendimento de beneficiários de modo a colaborar com o isolamento social, a empresa lançou dois novos tipos de atendimentos.

O primeiro, lançado em 23 de março, é a teleorientação, cujo objetivo é sanar dúvidas gerais. Em 15 dias de funcionamento, foram registradas 22,4 mil ligações para o serviço - das quais 42,8% foram relativas à renovação de receitas. O segundo serviço, iniciado há três semanas, é a teleconsulta em 18 especialidades da medicina. O atendimento é feito através do telefone, mas a empresa está buscando implementar também as videochamadas.

“Desde que incluímos as especialidades, a procura tem sido grande - principalmente por doentes crônicos que retomam seus atendimentos. Existe todo um contexto da saúde que continua existindo, e não temos como fechar os olhos para ele e ter desfechos negativos no futuro. A telemedicina é que nos permite [continuar os atendimentos e] reduzir a busca presencial pelas nossas unidades”, afirma a médica Caroline Caldeira, coordenadora dos programas de medicina preventiva da Paraná Clínicas.

Novas tecnologias

Outra empresa que também aderiu à telemedicina nos serviços prestados é o aplicativo Connecty Pay. Com 250 mil usuários, a plataforma gerencia pagamentos e retorna ao usuário parte do dinheiro gasto, que pode ser reinvestido dentro de uma rede credenciada de parceiros.

A partir de abril, o app também oferece uma plataforma para que médicos possam efetuar consultas. Além da tecnologia para a videochamada, o serviço oferece agendamento e fatura da consulta, e emissão de receitas eletrônicas e atestados.

O aplicativo é gratuito tanto para o médico como para o usuário, que paga apenas o valor da consulta - disponível atualmente apenas pelo cartão de crédito. A empresa está viabilizando o pagamento via convênios médicos e cartão de débito. A expectativa é que a plataforma chegue a cinco mil médicos cadastrados.

Também disponível para a utilização de médicos está a ClinicWeb, nova plataforma lançada no dia 15 de abril pela empresa de prontuários eletrônicos e de gestão de planos de saúde Vitta. Com clientes como o Hospital Israelita Albert Einstein e o médico Drauzio Varella, a plataforma vai disponibilizar o teleatendimento para toda a base de 15 mil médicos cadastrados durante 12 meses. Para novos clientes, os serviços de telemedicina serão disponibilizados gratuitamente durante toda a pandemia.

Segundo João Gabriel Alkmim, CEO da Vitta, no primeiro dia após o lançamento da ClinicWeb já havia mais de 2,5 mil médicos na fila de espera para utilizar a tecnologia. “[Em circusntâncias de] pré-coronavírus, os médicos da nossa base realizam em torno de 400 mil consultas por mês. A gente acredita que uma parte relevante possa ser transferida para a teleconsulta. É muito animador ver todo o setor se digitalizando”, aponta.

Crescimento em tempos de crise

O crescimento da busca pela telemedicina também impulsionou empresas que já estão no setor há mais tempo. É o caso da Doutor Orienta, que oferece teleorientação por telefone 24 horas por dia. Desde o início da pandemia, a empresa triplicou o número de linhas telefônicas disponíveis para atendimento e aumentou o quadro permanente de funcionários - são 12 médicos e 16 enfermeiros. Das 80 ligações que a empresa recebe diariamente, cerca de 80% são resolvidas por telefone, sem necessidade de se dirigir à emergência.

Segundo Wilker Ribeiro Filho, CEO do Doutor Orienta, um dos diferenciais da empresa é não depender do download de um aplicativo para o atendimento. As videochamadas acontecem através de um link, que abre o sistema no próprio navegador do celular. Além disso, a chamada de telefone para atendimento é gratuita, para que possa ser realizada em situações emergenciais.

“Quando o paciente liga, seus dados são validados e, na sequência, ele conversa com um médico para receber orientação. Nós priorizamos a utilização do telefone por segurança. Na estrada, por exemplo: além de ser perigoso, às vezes não tem sinal de internet disponível”, afirma.

Para ser beneficiário do serviço, a mensalidade é de R$ 22,50 por pessoa. Há uma taxa de adesão de R$ 62. Segundo o CEO, o modelo de negócios foi pensado para ser acessível às classes C e D. Atualmente, a empresa tem 95 mil clientes, que incluem parcerias com prefeituras e planos de saúde, e pretende expandir para aplicativos de fretes.

Modalidades da telemedicina

  • Segundo a advogada especialista Caroline Cavet, as modalidades da telemedicina consideradas no Brasil fazem à Declaração de Tel Aviv, documento gerado na 51ª Assembléia Geral da Associação Médica Mundial em Tel Aviv em outubro de 1999 que estabeleceu diferentes modalidades para a telemedicina. São elas:
  • Teleassistência (teleorientação): auxílio prestado à distância, que dá as primeiras coordenadas em um atendimento para verificar se há necessidade de deslocamento do paciente
  • Televigilância: transmissão de dados do paciente, tais como pressão arterial e índice glicêmico, para um acompanhamento da situação
  • Teleconsulta: uma consulta realizada através de qualquer tipo de aplicativo, plataforma, ou  meio de comunicação, na qual o médico consiga saber o status do paciente e realizar um diagnóstico
  • Teleinterconsulta: interação entre dois médicos, com paciente presente. 
  • Teleintervenção: interações cirúrgicas ou diagnóstico feito por meio de tecnologias.
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