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Estudo aponta que setor da telemedicina, em ascensão na pandemia, é uma das promessas para healthtechs nos próximos anos.
Estudo aponta que setor da telemedicina, em ascensão na pandemia, é uma das promessas para healthtechs nos próximos anos.| Foto: Bigstock

O número de healthtechs brasileiras — empresas de tecnologia voltadas à saúde — duplicou nos últimos cinco anos. Foi o que mostrou a pesquisa Distrito Healthtech Report Brasil 2020, realizada pela empresa de inovação aberta Distrito e publicada na última semana. De acordo com o levantamento, metade das startups de saúde no país foram fundadas entre 2016 e 2020: atualmente, são 542 empresas mapeadas no estudo — número que era de 265 em 2015.

Além do crescimento no número, as healthtechs também impressionam pelo crescimento nos investimentos. Desde 2014, US$ 430 milhões foram investidos nas healthtechs, divididos em 189 rodadas mapeadas pelo Distrito. E, mesmo com a crise, a expectativa é que 2020 supere os aportes do ano passado, dada a relevância que tais startups ganharam pelo seu esforço em combater a pandemia do novo coronavírus.

A razão desse crescimento, segundo Gustavo Araújo, cofundador do Distrito, está ligada ao ciclo de evolução de startups e à própria natureza da área da saúde, considerada um setor mais complexo e tradicional. “Quando você mexe com saúde, a validação que você precisa para lançar um novo produto ou serviço é diferente da validação de um produto financeiro ou de mobilidade, quando não há vidas em risco. É um setor que, por ter essa barreira, acabou apresentando um gap maior com relação a outros setores e represando uma grande oportunidade”, pontua Araújo.

“A saúde começou essa jornada há dois anos, enquanto o mercado financeiro já está nela há seis. Agora é o momento em que esses projetos estão chegando ao mercado”.

O início desse ciclo foi marcado pela digitalização de processos que costumavam ser analógicos, como gestão de planos de saúde e armazenamento de dados. Por essa razão, a subcategoria mais expressiva dentre as healthtechs no Brasil são da área de gestão e prontuário eletrônico ao paciente (PEP): são 136 startups, o que representa 25,1% do total.

Para Araújo, o momento é de virada para uma segunda fase de evolução, em que se criam produtos e serviços a partir do processamento da base de dados criada na primeira fase. Assim, o sistema de saúde como um todo se torna mais integrado e possibilita a predição de problemas, reduzindo custos — que é um dos principais problemas na área, como visitas aos hospitais e exames desnecessários.

“Com tecnologia, você tem sistema de triagem remoto com chatbots ou interações de histórico de dados do paciente, inteligência artificial, apoio da rede varejista de farmácias, evitando que o paciente vá ao hospital sem necessidade”, exemplifica.

Tendências do setor

Com base nessa evolução, a pesquisa aponta seis tendências principais entre healthtechs: uso da nuvem, ciência de dados e análise preditiva, robótica, realidade aumentada e realidade virtual, drones e a transformação de pacientes em consumidores, melhorando a experiência do cliente (ou seja, aplicativos de saúde e bem-estar e dispositivos vestíveis – wearables – que permitem o indivíduo fazer uma autogestão de seus dados).

Várias dessas tendências integram os sistemas de uma das subcategorias de maior evidência durante a crise do coronavírus: a telemedicina. Se antes da pandemia as teleconsultas eram proibidas por lei, a sua liberação durante o período de crise abriu um precedente que não deve voltar ao que era antes.

“O número de startups de soluções de telemedicina e relacionadas a ela explodiu neste ano. [A liberação das teleconsultas] foi um grande marco regulatório que veio por uma pressão de mercado enorme, já que muitos médicos eletivos tiveram que parar de trabalhar durante esse período, vendo na telemedicina uma oportunidade”, relata Araújo.

Desigualdade de gênero marca gestão de empresas

A pesquisa também explicita que a saúde não é exceção quando o assunto é desigualdade de gênero. Assim como nas demais áreas do mercado da tecnologia, a proporção de mulheres entre os sócios das healthtechs é baixíssima: elas representam apenas 20,3% do total. Araújo aponta que esse dado é até mais positivo que a média, que costuma ser de 85% masculina, e credita a diferença à maior presença feminina no setor.

Uma das exceções à regra é Manoela Mitchell, CEO da startup Pipo Saúde. Fundada em 2019, a empresa criou uma plataforma que facilita a compra e a gestão de planos de saúde, odontológicos e seguro de vida para os setores de recursos humanos de empresas. A healthtech também tem uma equipe de saúde destinada a tirar dúvidas e realizar um pré-atendimento de seus clientes.

Manoela Mitchell, CEO da startup de gestão Pipo Saúde.
Manoela Mitchell, CEO da startup de gestão Pipo Saúde.| Marcella Ferrucci

Durante a pandemia, a startup viu seu número de clientes triplicar, chegando a 40. Em junho, recebeu um aporte de R$ 20 milhões liderado pelos fundos Monashees e Kaszek Ventures, que está sendo investido em reforçar as equipes de tecnologia, saúde e vendas. Atualmente com 40 colaboradores, a expectativa é chegar aos 50 no fim do trimestre.

Para a CEO, a busca pela diminuição da desigualdade deve ser ativa — esperar que o problema se resolva sem atitudes concretas para isso vai alimentar um ciclo de contratação do padrão, que são homens brancos e heterossexuais.

“A diversidade é um trabalho de médio e longo prazo. No topo do funil falta representatividade, que é muito poderosa. Quais são as grandes mulheres CEOs em quem posso me inspirar? Quanto mais inspiração, mais o meio da pirâmide se movimenta para cima”, ela aponta. “As mulheres estão no mercado de trabalho há menos tempo que os homens e o setor de saúde ainda é muito tradicional, com CEOs de mais de 50 anos — quando mulheres estavam ingressando de forma mais ativa. Esse legado vai ser corrigido ao longo dos próximos anos”.

Para acelerar essa virada, a startup tem ações para a mitigação da desigualdade de gênero e racial. Por um lado, há vagas exclusivas para populações sub-representadas. Por outro, a empresa mantém parceria com associações que ajudam a divulgar as oportunidades entre esses grupos. As vagas estão disponíveis no site da empresa.

Outra ação recém-lançada pela Pipo Saúde é o benefício de presença parental: uma licença maternidade/paternidade que tem a mesma duração de quatro meses remunerados e dois com jornada flexível para homens e mulheres. A ideia é quebrar o tabu da maternidade que ainda existe no meio corporativo. “No meio da carreira da mulher existe a barreira da maternidade, um ônus que recai muito mais sobre ela do que sobre o homem. Cabe às empresas pensar em como mudar isso. Com o benefício [concedido pela Pipo], você iguala o jogo”, relata Mitchell.

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