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Vale do Pinhão
| Foto: Cesar Brustolin/SMCS

O ecossistema de inovação brasileiro tem lá as suas particularidades responsáveis por torná-lo uma vitrine mundo afora. O número crescente de startups e o volume de capital investido em empresas iniciantes, mesmo em um contexto econômico atribulado, são alguns exemplos. Ao olhar para uma realidade empreendedora sob um filtro regional, um dos principais casos de sucesso seja talvez o de Curitiba, capital do Paraná.

É aqui que surgiu a primeira startup unicórnio (empresa cujo valor de mercado ultrapassa US$ 1 bilhão) fora de São Paulo: a fintech Ebanx, de pagamentos. A cidade também ostenta o unicórnio MadeiraMadeira, que alcançou o título em janeiro deste ano após receber um aporte de US$ 190 milhões da gestora Dynamo e do fundo japonês Softbank. Também é de Curitiba o mérito de carregar empresas com potencial bilionário semelhante, como é o caso das startups Contabilizei e Olist.

Parte disso tudo também se deve à criação do Vale do Pinhão, projeto que nasceu em 2017 para promover as cidades inteligentes na região, fomentando o desenvolvimento tecnológico e econômico. Pelas mãos da prefeitura, a cidade foi transformada em um polo de inovação que transcende o urbanismo, integrando inovação a diferentes áreas e setores.

Fato é que a capital já garantiu o seu lugar entre as metrópoles brasileiras mais promissoras para novas empresas de tecnologia. De fato, das mais de 1,4 mil startups do Paraná, um terço delas (422 empresas) estão em Curitiba. O que tem se visto, no entanto, é que a boa narrativa da cidade é apenas um pequeno reflexo de como o estado do Paraná tem despontado como um ambiente próspero para a inovação — algo que vai muito além da capital pop para os empreendedores.

O estado tem números invejáveis. Mesmo com a crise econômica e social que surgiu em decorrência do novo coronavírus, o Paraná teve 39% mais startups em 2020, segundo um mapeamento feito pelo Sebrae/PR.

Inovação além das startups

Com o amadurecimento do cenário, e ao se tornar berço de uma série de recém-formados unicórnios, a região tornou-se um alvo inovativo capaz de atrair a atenção de grandes agentes do ecossistema de empreendedorismo nacional.

Há, porém, uma tríplice hélice capaz de reger a inovação que ultrapassa as métricas de nascimento ou morte de startups. Ela se baseia, tradicionalmente, na interação bem-sucedida entre iniciativa privada, universidades e, é claro, poder público. A boa relação entre as três pontas favorece a criação de ecossistemas de inovação, aqueles formados por empresas, coworkings, aceleradoras, incubadoras, parques tecnológicos, entre outros agentes de desenvolvimento. Cada um deles é considerado, de forma isolada, um ambiente de inovação.

O resultado desse diálogo, no Paraná, tem sido positivo. O estado registrou um aumento de 300% na quantidade de ambientes de inovação em relação aos números vistos em 2018. Foram 100 registros ante 25 feitos três anos atrás. Na prática, esses ambientes de inovação fazem parte dos ecossistemas maiores, fomentando seus desenvolvimentos e conectando projetos isolados de diferentes instituições, gerando empregabilidade e troca de capital (também intelectual).

Segundo Wellinton Perdomo, coordenador estadual de inovação do Sebrae/PR e um dos responsáveis pelo mapeamento, muitos desses ecossistemas já têm independência inovadora, algo que segue como tendência daqui para frente. “Alguns deles já possuem logomarca, governança e uma identidade própria. Essa é uma maneira inteligente de se destacar e consolidar a prática no estado”, afirma.

Inovação além da capital

Inovação Paraná
Maringá é um dos polos de inovação do estado, com foco nas startups do segmento de saúde. | Assessoria de Comunicação/Prefeitura Municipal de Maringá

Perdomo explica que a missão recente do Sebrae tem sido instrumentalizar cidades do interior do estado para que alcancem potencial igual – ou superior – ao da capital. Para isso, a instituição criou o programa Habitats PR, de estímulo aos pequenos espaços de inovação dentro dos ecossistemas regionais. A ideia, segundo o especialista, é capacitar coworkings, universidades, empresas e incubadoras, por exemplo, a desenvolverem as habilidades e ferramentas necessárias para dar suporte aos ecossistemas regionais em expansão, por meio de workshops online realizados ao longo do último ano, e que serão repetidos agora em 2021.

“O que fazemos é auxiliar, criando um passo a passo para que os planos de cada espaço realmente favoreçam a criação de um ambiente de inovação”, diz. “O que vimos foi uma proliferação imensa de parques tecnológicos, por exemplo, no interior do estado – onde o programa tem foco principal”, conclui.

A esteira de ações em prol do desenvolvimento da inovação no interior se justifica também por dados já apresentados pelo Sebrae em um passado não tão distante. No início deste ano, um estudo mostrou que, apesar da concentração empresarial em Curitiba e região, as startups estão espalhadas por 87 dos 399 municípios do estado, mostrando um movimento de amadurecimento que vai além dos centros urbanos. É também no interior que se organizam dois dos principais ecossistemas de inovação do estado: Maringá e Londrina.

Segunda maior cidade do Paraná, Londrina é também um celeiro de agtechs, apelido dado às startups com foco no agronegócio, setor responsável por 30% do PIB do estado. São essas empresas as de maior número entre as startups paranaenses — são 141. Depois do agro, a grande estrela estadual é o segmento de saúde, liderado principalmente pela cidade de Maringá. É lá que se organiza o Hub Connect Healthtech, espaço de inovação criado em 2019 e que reúne diversos agentes do setor, como clínicas, laboratórios, hospitais, universidades, operadores de saúde e entidades de classe e conselhos.

Em Maringá, as healthtechs já são realidade comum, o que motiva grandes empresas do setor a se associarem a essas startups em busca de renovação nas operações. Esse é o caso da Unimed Maringá, que agora está desenvolvendo seu hub de inovação próprio. O objetivo é estar em consonância com a maturidade de todo o ecossistema municipal, do qual a empresa já fazia parte.

Para Teresa Gurgel, head de inovação e tecnologia médica da Unimed Maringá, a criação de uma frente de trabalho dedicada à inovação é uma consequência da chegada de novas empresas no setor de saúde, que pressiona companhias tradicionais – como a Unimed – a se atualizarem. Teresa, que é médica anestesiologista, também é responsável por liderar a recém-criada área de inovação da empresa. “A intenção é continuar sendo protagonista na saúde de Maringá, e precisaremos da inovação para isso”, conta.

A Unimed Maringá foi, inclusive, um dos ambientes de inovação participantes do programa Habitats/PR, organizado pelo Sebrae. O objetivo era um só: obter os contornos necessários para ganhar maturidade no tema, além de mapear os outros ambientes de inovação da cidade com os quais poderia se conectar. “Já tínhamos contato com a inovação há muito tempo, mas de maneira informal. Agora, nosso objetivo como hub é formalizar a maneira como entraremos de vez no ecossistema da região e criar um caminho oficial para as startups de saúde que querem fazer negócios conosco”, explica Teresa.

Tecnologia de ponta

A DevApi exemplifica na prática o sucesso de startups do interior no terceiro setor com o maior número de empresas do Paraná: o de tecnologia. Fundada em maio de 2020 por Luana Ribeiro e William Hoffmann, a startup de Maringá atua na integração de sistemas.

Inovação Curitiba: DevApi
Luana Ribeiro, da DevApi.| Divulgação

Com uma solução voltada ao B2B, a proposta da DevApi é criar aplicações e bancos de dados, além de automatizar processos comerciais e industriais. Foi a familiaridade com a área de tecnologia que motivou os dois empreendedores a abrirem uma empresa dedicada a unir diversos sistemas empresariais, desenvolvendo APIs (interfaces de programação de aplicações) personalizadas. “Vimos que as oportunidades neste mercado eram muitas. As fábricas de softwares não estavam dando conta da demanda, e quando davam, era por meio de produtos muito caros”, conta a CEO Luana Ribeiro.

Fundada já em meio a pandemia, a DevApi viu no novo contexto de transformação digital a sua melhor chance para prosperar. “Vendemos picareta na corrida do ouro”, brinca Luana.

O bom desempenho da empresa já a fez conquistar clientes como a loja de sapatos Mr. Cat, a Delivery Center e também a startup de energia solar Solar21.

Em menos de um ano de existência, a startup já concluiu o seu ciclo de crescimento ao ter 100% de sua operação adquirida pela gigante de tecnologia TIVIT. O valor da transação não foi divulgado, mas a startup continua com atuação independente e com ainda mais sede de crescimento. A expectativa é quadruplicar o número de clientes até o final do ano.

Parte desse crescimento será alcançado com o diálogo ativo com outros agentes do ecossistema de inovação do estado. Segundo a CEO, a empresa já se conectou, por intermédio da Endeavor, com os grandes unicórnios da região (como o Ebanx) e também com a Contabilizei e outros grandes players do Sul do país. “O processo é de troca de conhecimento e experiências, tudo para identificar dores em comum e maneiras de firmar parcerias”, conta.

O que esperar daqui pra frente

A explicação para a vanguarda do estado do Paraná quando se fala em inovação está também no comprometimento do poder público, afirma Perdomo, do Sebrae/PR. “Hoje, 38 municípios do Paraná já possuem leis próprias a favor da inovação, e o diálogo, interesse e estímulo de prefeituras em fortalecer os ecossistemas”, diz. Esse é, segundo o especialista, o caminho ideal para que a região continue tendo representatividade no ambiente de inovação nacional.

Outro elemento essencial para a continuidade do desenvolvimento dos ecossistemas regionais está nas universidades. “Esse é um dos elementos essenciais. Pode faltar tudo num ecossistema, menos a formação universitária”, diz Perdomo. Para ele, o sucesso de qualquer ecossistema depende da interação saudável entre os projetos e mão de obra qualificada que vem dos campus universitários e dos demais ambientes de inovação – incluindo as startups.

Ao passo em que todo esse avanço acontece, ainda é possível identificar uma dor em comum entre os empreendedores: o acesso a investimentos. Apenas 20% das startups do estado conseguem investimentos, e desses, grande parte são investimentos anjo, geralmente pouco representativos e destinados a uma fase inicial das empresas. “Esse é um dos principais gargalos para que empreendedores possam crescer e operar com sucesso”, diz. Essa é, sem dúvida, uma entrave que, se resolvida, manterá o Paraná na liderança (com folga) como uma vitrine mundial da inovação brasileira.

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