
Organizações começam a rever cultura do “sempre mais”
Pressão por resultados, metas de curto prazo e jornadas intensas expõem um modelo de gestão em xeque
31/07/2026 às 12:26

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A busca por resultados cada vez mais rápidos e expressivos consolidou, ao longo dos últimos anos, uma cultura corporativa que associa alta performance à entrega constante, muitas vezes acima dos limites saudáveis. Mas esse modelo começa a dar sinais claros de esgotamento. Em meio ao avanço de casos de burnout e à pressão por ambientes de trabalho mais equilibrados, cresce o questionamento: é possível sustentar desempenho elevado sem sacrificar pessoas?
Para Isabela Sena, especialista em gestão estratégica de pessoas e transformação organizacional e conselheira da ABRH-PR, o desafio começa na forma como a gestão traduz a estratégia em prática. Segundo ela, embora pareça simples alinhar estratégia, execução e desenvolvimento de pessoas, a prática revela falhas estruturais. “Existe uma dificuldade de transformar estratégia em objetivos claros e, principalmente, de manter a execução do plano diante da pressão por resultados imediatos”, explica.
Esse descompasso cria um efeito cascata dentro das organizações. Enquanto a estratégia permanece concentrada nos níveis mais altos, equipes operacionais se veem pressionadas por entregas de curto prazo, muitas vezes desconectadas do propósito maior da empresa. “A estratégia vira discurso, e a execução, uma corrida constante”, resume.
O impacto é direto no desempenho coletivo. Sem uma visão compartilhada e com foco restrito às demandas imediatas, equipes tendem a operar acima do limite. A ausência de investimento consistente no desenvolvimento dos profissionais agrava o cenário. O resultado são times despreparados, sobrecarregados e, paradoxalmente, menos produtivos.
Mais atenção aos riscos psicossociais
Esse modelo de alta exigência contínua ajuda a explicar o aumento dos casos de burnout, hoje reconhecido como fenômeno organizacional. A mudança de entendimento, de um problema individual para uma consequência de fatores estruturais, expõe fragilidades na forma como o trabalho é gerido.
“Colaboradores em burnout apresentam queda significativa de desempenho, aumento de erros e mais retrabalho”, afirma Isabela. Além disso, o problema raramente é isolado: a sobrecarga tende a se redistribuir entre colegas, criando um ambiente de estresse coletivo. No longo prazo, o impacto ultrapassa a produtividade e atinge a reputação das empresas como empregadoras.
A discussão ganha ainda mais relevância com a atualização da NR-1, que reforça a necessidade de atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Nesse contexto, saúde mental deixa de ser uma pauta restrita ao RH e passa a ocupar posição estratégica nas organizações.

Para a especialista, é urgente revisar práticas consolidadas, como metas inatingíveis e cargas de trabalho excessivas. “A forma como se gerencia pessoas e resultados precisa ser repensada. Não é mais possível sustentar um modelo baseado apenas em entregas de curto prazo”.
Equilíbrio entre desempenho e bem-estar
A liderança surge como peça-chave nessa transformação. Mais do que cobrar resultados, gestores precisam desenvolver a capacidade de equilibrar desempenho e bem-estar. Isso inclui promover autonomia, distribuir demandas de forma equilibrada e, sobretudo, criar ambientes de segurança psicológica.
“Não se pode confundir comprometimento com disponibilidade ilimitada”, alerta Isabela. Em ambientes saudáveis, profissionais têm espaço para se posicionar, errar, aprender e contribuir de forma genuína, fatores que, segundo especialistas, estão diretamente ligados à inovação e à performance consistente.

Nesse novo cenário, iniciativas de bem-estar corporativo deixam de ser diferenciais para se tornarem exigência básica. “Ações pontuais já não são suficientes. É necessário incorporar a saúde mental à cultura organizacional, com políticas estruturadas e acompanhamento contínuo”, pondera.
O movimento indica uma mudança de paradigma. Em vez de celebrar jornadas exaustivas e entregas incessantes, empresas começam a reconhecer que a verdadeira alta performance não está no excesso, mas na sustentabilidade. “Afinal, resultados duradouros dependem, cada vez mais, de pessoas que possam e consigam performar bem ao longo do tempo”, finaliza.
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