
Inteligência artificial desafia RH a ir além do hype
Daniel Andrei González Goler, da isEazy, analisa os impactos da nova tecnologia sobre processos, funções e decisões nas organizações
Por Paulo Bontorin
28/09/2026 às 00:00

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A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar uma realidade que já impacta processos, funções e decisões dentro das empresas. O desafio, agora, não é mais discutir se a IA fará parte do futuro do trabalho, mas entender como incorporá-la de maneira integrada e estratégica.
Uma pesquisa global realizada pela isEazy com mais de 300 profissionais de Recursos Humanos, em 32 países mostra que a distância entre experimentar a IA e integrá-la efetivamente aos processos corporativos ainda é significativa. O estudo ouviu profissionais de diferentes níveis, dos estratégicos aos técnicos, e revelou um dado que ajuda a dimensionar esse cenário: 90% dos entrevistados afirmam não dominar a tecnologia, embora a maioria já faça algum uso dela no trabalho.
Para Daniel Andrei González Goler, Key Account Manager da isEazy, o dado não deve ser interpretado como sinal de fracasso, mas como reflexo de um momento de transição. “É sempre bom separar o que é apenas um hype passageiro daquilo que realmente veio para transformar a nossa forma de trabalhar”, afirma. A comparação com o metaverso, que mobilizou investimentos e expectativas, serviu para reforçar a diferença entre uma tendência passageira e uma tecnologia que tende a provocar mudanças estruturais.
A pesquisa aponta que o principal obstáculo à adoção da IA não é tecnológico. O problema está na forma como as empresas estruturam processos, capacitam pessoas e transformam experimentações em práticas consistentes. Os dados mostram que 41% das organizações ainda não utilizam IA de maneira efetiva, enquanto 36% são classificadas como “experimentadoras travadas”, com usos pontuais e sem estratégia. Apenas 23% são consideradas integradoras, incorporando a tecnologia de forma mais estruturada às operações.
“O gargalo é organizacional, não tecnológico”, destaca Goler. “Não basta disponibilizar ferramentas ou oferecer treinamentos isolados. É preciso criar condições para que os profissionais experimentem, errem, aprendam e incorporem a IA à rotina”.
A crítica alcança também a forma como muitas empresas estão conduzindo a governança. Segundo os dados apresentados, 57% das organizações oferecem algum tipo de formação interna sobre IA, mas o conhecimento ainda permanece baixo. Em muitos casos, os treinamentos são genéricos, excessivamente teóricos ou restritos a determinados grupos. Ao mesmo tempo, 44% das empresas ainda não possuem políticas de IA. “Existe uma inversão de prioridades, quando organizações tentam estabelecer regras antes de ensinar as pessoas a utilizar a tecnologia. É como colocar sinais de trânsito em uma cidade onde ninguém sabe dirigir”, compara.
Acelerar atividades do dia a dia
Outro dado reforça a necessidade de mudança de perspectiva. Cerca de 75% dos profissionais já percebem a IA como uma ferramenta capaz de otimizar o tempo e acelerar atividades cotidianas. Uma pesquisa citada por Goler mostra ainda que 88% testariam uma ferramenta capaz de reduzir pela metade o tempo de trabalho. O alerta, porém, é que produtividade não pode ser confundida com transformação.
“Estamos muito focados em fazer mais rápido, mas não necessariamente em melhorar os processos ou trabalhar com mais qualidade. O próximo salto está em usar a tecnologia não apenas para produzir textos, apresentações ou imagens com maior velocidade, mas para repensar processos e criar possibilidades que ainda não fazem parte da operação das empresas”, afirma.

Hoje, a utilização da IA ainda está concentrada em ferramentas generalistas, como ChatGPT, Claude e Gemini, aplicadas principalmente à produção de conteúdo. O estudo mostra, entretanto, que os usos mais avançados são justamente os que apresentam maior expectativa de crescimento nos próximos 12 a 24 meses.
A recomendação de conteúdo, por exemplo, passa de 16% de adoção atual para uma expectativa de 34%. A adaptação de conteúdos aos diferentes perfis sobe de 14% para 36%. Também ganham força perspectivas como produção de vídeos e cursos completos, ambos com expectativa de 45% de utilização, além de atividades avançadas, automação de tarefas e atualização automática de conteúdo.
Combinação de diferentes inteligências
A leitura de Goler é que o futuro não será marcado por uma única ferramenta, mas pela combinação de diferentes inteligências. A IA generativa aparece como a tecnologia de maior impacto esperado nos próximos três anos, com 45%, mas é seguida de perto por learning analytics e modelos preditivos, plataformas multifuncionais com IA integrada, assistentes inteligentes e automação de processos.
Essa integração também deverá modificar as funções profissionais. Segundo o levantamento, 74% dos entrevistados acreditam que a IA provocará uma transformação importante ou completa nas atividades de treinamento nos próximos três anos. O movimento, porém, não significa necessariamente substituição de pessoas.
“A IA não vai tirar o seu emprego. Mas provavelmente você será substituído por alguém que sabe usar IA. A tecnologia depende da capacidade humana de fornecer contexto, conhecimento e direcionamento. A IA precisa das pessoas para funcionar. Somos nós que damos subsídios para que ela funcione”, avalia.
Nesse cenário, o RH assume uma posição estratégica. Mais do que apoiar a transformação, cabe à área liderar a capacitação, acompanhar a mudança de comportamento e ajudar a construir uma cultura capaz de absorver novas formas de trabalhar. “Qualquer transformação nas empresas passa obrigatoriamente pelas mãos do RH”, ressalta.

Este conteúdo é decorrente da palestra “Do hype à realidade: como a IA está transformando o RH”, ministrada por Daniel Andrei González Goler, Key Account Manager da isEazy, durante o Bom Dia RH, da ABRH-PR, realizado no mês de agosto de 2026.
Inscrições para o CONPARH no link.
Informações sobre a ABRH-PR no link.
