
Pesquisa da ABRH-PR aponta distância entre formação acadêmica e demandas do mercado
Profissionais de Recursos Humanos, universidades e empresas em Curitiba conheceram resultados de pesquisa sobre ensino superior as novas exigências profissionais
Por Paulo Bontorin
27/07/2026 às 00:01

Ouça este conteúdo
Uma pesquisa realizada pela Diretoria de Educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Paraná (ABRH-PR) aponta que empresas paranaenses têm encontrado dificuldades para contratar profissionais com competências comportamentais alinhadas às demandas atuais do mercado. O estudo indica que habilidades como comunicação assertiva, resiliência, inteligência emocional, proatividade e pontualidade estão entre as principais carências percebidas em recém-formados.
O levantamento ouviu 27 participantes, dos quais 63% são associados da entidade e 81,5% possuem mais de 20 anos de experiência em Recursos Humanos. A maior parte dos respondentes atua em empresas do setor de serviços (29,6%), seguido pela indústria (22,2%) e educação (18,5%). Entre os cargos representados predominam gerentes (29,6%), empresários e proprietários (25,9%) e consultores (14,5%).
A pesquisa mostra ainda que as empresas esperam profissionais com maior capacidade de relacionamento interpessoal, trabalho em equipe, escuta ativa e engajamento. Competências consideradas estratégicas, como pensamento crítico, visão sistêmica e conexão com o negócio, também aparecem entre as lacunas mais citadas pelos entrevistados.
Desafios enfrentados pelas organizações
Além das dificuldades de contratação, o estudo identificou os principais desafios enfrentados atualmente pelas organizações. Cultura organizacional e gestão da mudança lideram as preocupações, mencionadas por 66,7% dos participantes. Na sequência aparecem saúde mental, bem-estar, liderança e desenvolvimento de soft skills (48,1%), atração de talentos (44,4%), fortalecimento do RH estratégico (33,3%) e transformação digital e futuro do trabalho (25,9%).
A pesquisa também revela mudanças nas estratégias de capacitação corporativa. As modalidades híbrida e presencial lideram a preferência das empresas, ambas com 48,1% das respostas. Os critérios mais valorizados nos programas de desenvolvimento são a aplicabilidade imediata do conteúdo e a qualidade do corpo docente.
Para medir resultados das capacitações, as organizações observam principalmente a melhoria de indicadores internos, a aplicação prática do conhecimento no cotidiano profissional e o retorno dado pelos colaboradores.
Segundo o levantamento, a área de Recursos Humanos deve ampliar investimentos em competências ligadas à gestão de crises, comunicação, Inteligência Artificial, inovação, estratégia de negócios e liderança humanizada para fortalecer sua atuação dentro das empresas.
A pesquisa também apontou preferência equilibrada entre treinamentos presenciais e híbridos, ambos com 48,1% das respostas, além da valorização da aplicabilidade imediata dos conteúdos e da qualidade do corpo docente como fatores decisivos nos programas de aprendizagem.
A maior parte das organizações participantes está localizada em Curitiba e Região Metropolitana, embora o estudo também contemple empresas de atuação nacional e modelos remotos de trabalho.
Defasagem entre mercado e academia

A diretora de Educação da ABRH-PR, Léia Cordeiro, afirma que a pesquisa surgiu da percepção de que a formação acadêmica ainda não acompanha a velocidade das transformações do mercado. “Nós percebemos, no dia a dia, uma defasagem entre o que o mercado precisa e aquilo que muitas vezes as instituições conseguem entregar. Essa é uma preocupação antiga da nossa diretoria”.
Segundo ela, a ABRH-PR quer criar um espaço de construção coletiva entre empresas, universidades e profissionais de RH, a partir dos resultados da pesquisa. “Queremos um ambiente de escuta, troca e colaboração. Não enxergamos as instituições como concorrentes, mas como parceiras estratégicas para transformar o mercado”.
A Diretoria de Educação aproveitou os dados da pesquisa para promover uma “Rodada de Sinergia” entre instituições de ensino, gestores de Recursos Humanos e profissionais de diferentes setores. Os participantes discutiram os desafios ligados à formação profissional, inovação no ensino, desenvolvimento de competências e aproximação entre academia e empresas.
As discussões apontaram a necessidade de currículos mais integrados, metodologias ativas de aprendizagem e maior presença de experiências práticas na graduação. Também ganharam destaque temas como liderança humanizada, resolução de problemas reais, networking, comunicação e gestão de conflitos.
Metodologias mais conectadas com a realidade

Para o presidente da ABRH-PR, Gilmar Silva de Andrade, a aproximação entre teoria e prática continua sendo um dos principais desafios da formação profissional no país. “Havia excelentes professores, com títulos acadêmicos importantes, mas muitas vezes sem vivência de mercado”.
Ele destaca ainda que existe a necessidade de metodologias mais conectadas à realidade das organizações. “É preciso desenvolver uma visão sistêmica e o pensamento crítico passa, necessariamente, por metodologias mais conectadas à realidade do mercado, como estudos de caso, simulações e dinâmicas práticas”.
