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Empresas investem em contratos, acordos societários, governança corporativa, compliance e planejamento sucessório para reduzir riscos e garantir estabilidade aos negócios. Ainda assim, conflitos entre sócios, disputas familiares e impasses empresariais continuam surgindo mesmo quando todas as estruturas formais parecem estar adequadamente estabelecidas.
Essa foi uma das questões que acompanhou o advogado Marcos Nunes ao longo de sua trajetória profissional e que acabou dando origem ao livro A Ordem Invisível dos Conflitos — Constelação Sistêmica Aplicada ao Direito e às Organizações, resultado de sua pesquisa desenvolvida durante 4 anos no doutorado em direito empresarial.
Segundo o advogado, especialista e doutorado em Direito Empresarial, Governança Corporativa, Compliance e Planejamento Sucessório, a experiência prática demonstrou que muitos conflitos não podem ser compreendidos apenas pela análise das normas jurídicas, dos contratos ou das estruturas formais construídas pelas organizações.
Ao longo dos anos, ele passou a observar situações em que todos os instrumentos jurídicos estavam presentes, mas os conflitos continuavam se repetindo. Relações empresariais desgastadas, disputas societárias prolongadas e conflitos familiares pareciam carregar elementos que iam além daquilo que efetivamente estava sendo discutido nos processos ou negociações.
Foi dessa inquietação que nasceu a obra.
Quando o conflito resiste às soluções mais técnicas
O Direito desempenha papel fundamental na construção de segurança jurídica, previsibilidade e proteção das relações empresariais.
No entanto, a realidade mostra que muitos conflitos continuam existindo mesmo quando contratos, acordos e mecanismos de governança foram cuidadosamente estruturados.
Para Marcos Nunes, essa constatação despertou uma reflexão importante sobre a complexidade das relações humanas presentes dentro das empresas.
"Comecei a perceber que alguns conflitos pareciam resistir às soluções mais técnicas. Isso me levou a buscar uma compreensão mais ampla sobre aquilo que influencia decisões, comportamentos e vínculos dentro das organizações."
Advogado Marcos Nunes
A partir dessa investigação, o advogado aprofundou estudos relacionados à Constelação Sistêmica aplicada ao Direito e às Organizações, tema central de sua nova publicação.
O que a Constelação Sistêmica propõe observar nas organizações
Embora seja mais conhecida por sua aplicação em contextos familiares, a abordagem sistêmica também vem sendo utilizada para analisar dinâmicas presentes em empresas, organizações e relações profissionais. Nesse universo, ela ganhou o nome de constelação organizacional ou abordagem sistêmica para organizações.
Segundo o advogado Marcos Nunes, a proposta não é substituir o Direito nem relativizar a importância dos contratos ou da governança corporativa.
O objetivo é ampliar o olhar sobre fatores que muitas vezes permanecem invisíveis durante negociações, processos de sucessão ou conflitos societários.
Questões relacionadas a pertencimento, reconhecimento, lealdades, exclusões e desequilíbrios nas relações podem influenciar comportamentos e decisões de forma significativa, mesmo quando não aparecem de maneira explícita nas discussões jurídicas.
"A visão sistêmica busca compreender aspectos que muitas vezes já estão presentes muito antes de o conflito chegar ao contrato, à mesa de negociação ou ao processo judicial", explica.
Empresas familiares enfrentam desafios que vão além da sucessão patrimonial
Grande parte dos conflitos analisados pelo advogado está relacionada ao universo das empresas familiares. Nesses ambientes, decisões empresariais frequentemente se conectam a histórias familiares, relações construídas ao longo de gerações e expectativas que nem sempre são verbalizadas.
Por isso, processos de sucessão empresarial costumam representar momentos especialmente delicados.
A transição entre gerações envolve não apenas aspectos jurídicos e patrimoniais, mas também questões relacionadas ao reconhecimento de papéis, preparação de lideranças, alinhamento de expectativas e construção de consensos.
Segundo Marcos Nunes, compreender esses fatores pode ser decisivo para a continuidade dos negócios.
"Muitas vezes o conflito não está ligado apenas ao patrimônio. Existem questões relacionais que influenciam a forma como as pessoas se posicionam dentro da família empresária e da organização."
Governança corporativa continua sendo fundamental
Ao abordar as dinâmicas humanas presentes nos conflitos, o autor reforça que práticas de governança corporativa continuam sendo indispensáveis para empresas que buscam crescimento sustentável.
Acordos de sócios, protocolos familiares, conselhos consultivos, compliance e planejamento sucessório permanecem como ferramentas essenciais para reduzir riscos e estabelecer regras claras.
A diferença, segundo ele, está em compreender que estruturas jurídicas e relações humanas caminham juntas.
"Quanto mais uma organização consegue conciliar boas práticas de governança com uma compreensão qualificada das relações que sustentam o negócio, maiores são as possibilidades de construir soluções duradouras."

Entrevista | Marcos Nunes
Gazeta do Povo — O que motivou a criação do livro A Ordem Invisível dos Conflitos?
Marcos Nunes: O livro, antecedido pela minha pesquisa de doutorado, nasceu de uma pergunta que me acompanhou durante muitos anos na advocacia. Eu observava conflitos empresariais, societários e familiares que não pareciam ser explicados apenas pela norma jurídica, pelo contrato ou pela estrutura formal construída entre as partes. Essa inquietação me levou a aprofundar estudos e pesquisas sobre as dinâmicas que influenciam as relações humanas dentro das organizações.
Gazeta do Povo — Por que alguns conflitos persistem mesmo quando existem contratos bem estruturados?
Marcos Nunes: Porque nem sempre a origem do conflito está apenas naquilo que foi formalizado. Existem fatores relacionados a pertencimento, reconhecimento, lealdades e expectativas que podem influenciar comportamentos e decisões. Muitas vezes essas questões já estão presentes antes mesmo de o conflito se manifestar juridicamente, na maioria das vezes em níveis ocultos e invisíveis que não permite uma chegada à solução desejada.
Gazeta do Povo — Como a Constelação Sistêmica se conecta ao Direito e às Organizações?
Marcos Nunes: A proposta não é substituir o Direito. O Direito continua sendo indispensável. A abordagem sistêmica oferece uma perspectiva complementar para compreender aspectos relacionais que podem influenciar conflitos empresariais, familiares e societários. Ela amplia a capacidade de observação sobre a complexidade humana presente nas organizações, e fornece mecanismos para se chegar a raiz do conflito e por via dessa descoberta ponderar soluções definitivas ao problema, com o ganho de preservação das relações interpessoais envolvidas.
Gazeta do Povo — Quais são os principais desafios observados nas empresas familiares?
Marcos Nunes: A sucessão continua sendo um dos temas mais sensíveis. Muitas organizações dedicam atenção aos aspectos patrimoniais e societários, mas também é importante preparar as relações que sustentarão a próxima etapa da empresa. Esse processo exige diálogo, planejamento e clareza de papéis.
Gazeta do Povo — Qual reflexão o senhor espera provocar com a obra?
Marcos Nunes: Espero contribuir para uma compreensão mais ampla dos conflitos, a identificação de sua origem, a formas não apenas jurídicas de solução, e, principalmente a restauração da paz entre os envolvidos.
Um convite para olhar além do conflito
Resultado de anos de estudos, pesquisas e experiência profissional, A Ordem Invisível dos Conflitos — Constelação Sistêmica Aplicada ao Direito e às Organizações propõe uma reflexão sobre a forma como empresas, famílias empresárias e profissionais do Direito compreendem os desafios relacionais presentes no ambiente contemporâneo.
Mais do que apresentar respostas prontas, a obra convida o leitor a observar aquilo que muitas vezes permanece invisível nos conflitos: as dinâmicas humanas que influenciam vínculos, decisões e relações organizacionais.
Em um cenário cada vez mais complexo, a proposta é ampliar perspectivas sem abrir mão do rigor técnico, reunindo Direito, governança e visão sistêmica em uma mesma reflexão sobre o futuro das organizações.
Site: www.marcosnunes.adv.br Instagram: @adv.marcosnunes/ LINKEDIN/