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A imagem tradicional da advocacia brasileira ainda está associada à racionalidade absoluta, firmeza emocional e capacidade permanente de suportar pressão. No entanto, por trás da rotina processual, dos tribunais e das decisões estratégicas, cresce dentro do meio jurídico uma discussão cada vez mais necessária: o impacto psicológico silencioso da profissão.
Ansiedade, hiperconectividade, excesso de responsabilidade, dificuldade de desligamento mental e desgaste emocional provocado pelo contato diário com conflitos humanos passaram a fazer parte da realidade de muitos profissionais do Direito especialmente em um cenário de produtividade contínua e disponibilidade permanente.
Para o advogado Marcos Nunes, fundador do escritório Marcos Nunes Advocacia, doutor em direito empresarial e com mais de 20 (vinte anos) de atuação advocatícia, a rotina jurídica contemporânea passou a operar sob uma cultura de alta performance que frequentemente normaliza o esgotamento emocional.

“Existe uma pressão silenciosa para que o advogado demonstre controle o tempo inteiro. O ambiente jurídico historicamente valoriza resistência, produtividade e estabilidade emocional permanente. O problema é que muitos profissionais aprenderam apenas a funcionar e não necessariamente a viver com equilíbrio emocional”, afirma.
Saúde mental na advocacia
A discussão sobre saúde emocional ganhou força nos últimos anos em diferentes setores profissionais, mas ainda encontra resistência dentro do universo jurídico. Para especialistas, a dificuldade em demonstrar vulnerabilidade faz parte da própria cultura da profissão.
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que o Brasil possui mais de 80 milhões de processos em tramitação, realidade que amplia a pressão sobre magistrados, servidores e advogados. Paralelamente, a digitalização acelerada do Judiciário transformou a rotina da advocacia em um ambiente de conexão constante.
Segundo Marcos Nunes, a hiperconectividade se tornou um dos principais fatores de desgaste emocional da profissão.
“O celular passou a funcionar como extensão permanente do escritório. Muitos profissionais não conseguem estabelecer pausas reais porque permanecem emocionalmente conectados às demandas dos clientes durante todo o dia. Existe uma sensação contínua de urgência.”
Advogado Marcos Nunes
O cenário é agravado pelo volume de responsabilidade técnica e emocional envolvido em decisões jurídicas que impactam patrimônio, empresas, famílias e reputações.
O peso dos conflitos alheios
Entre os aspectos menos discutidos da advocacia está justamente a exposição contínua ao sofrimento e aos conflitos humanos.
Crises empresariais, falências, conflitos societários, disputas familiares patrimoniais, fazem parte da rotina de milhares de advogados brasileiros — muitas vezes sem tempo para um cuidado emocional para lidar com essa carga psicológica diária.
“Existe um desgaste invisível provocado pela absorção emocional dos conflitos alheios. O advogado participa de momentos extremamente delicados da vida das pessoas e, em muitos casos, não percebe ou não tem tempo de cuidar do quanto isso afeta sua própria saúde mental”, analisa Marcos Nunes.
Segundo o advogado, a ausência de dissociação emocional clara entre problema profissional e vida pessoal pode gerar ansiedade silenciosa, exaustão cognitiva e dificuldade de desligamento mental mesmo fora do expediente.
Hiperperformance e esgotamento
O debate também envolve a chamada “síndrome da alta performance”, fenômeno cada vez mais associado a profissões intelectualmente exigentes e ambientes corporativos altamente competitivos.
Na advocacia, produtividade excessiva, jornadas prolongadas e validação profissional baseada em desempenho ainda são frequentemente encaradas como sinais de competência.
“Existe uma romantização do excesso dentro da profissão. Muitos profissionais sentem culpa ao descansar ou medo de parecerem menos comprometidos caso demonstrem cansaço emocional”, afirma Marcos Nunes.
Para o advogado, o problema se intensificou com a cultura digital e a aceleração das relações profissionais, somada ao excesso midiático da ostentação e riqueza de alguns causídicos, nem sempre reais ou palpáveis, mas imageticamente construído nas múltiplas telas sociais.
“A advocacia contemporânea exige respostas rápidas, disponibilidade imediata e tomada constante de decisões complexas. Isso cria um estado permanente de alerta mental.”
Saúde emocional como lucidez profissional
A preocupação com saúde mental no ambiente de trabalho vem sendo discutida internacionalmente por organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que reforça a importância de ambientes profissionais psicologicamente saudáveis e da prevenção ao esgotamento ocupacional.
No Brasil, a Constituição Federal estabelece o trabalho como direito social vinculado à dignidade da pessoa humana. Já a Lei nº 8.213/91 reconhece doenças ocupacionais relacionadas às condições de trabalho, incluindo transtornos psicológicos em determinadas circunstâncias. A NR-1 é o ateste atual dessa preocupação no cenário jurídico atual.
Para Marcos Nunes, porém, o debate dentro da advocacia ainda precisa avançar.
“Saúde emocional não deve ser tratada apenas como questão de bem-estar pessoal. Ela impacta diretamente lucidez, clareza analítica, capacidade estratégica e qualidade técnica. Um profissional emocionalmente exausto perde eficiência decisória e capacidade intelectual”, afirma.
O advogado defende que o futuro da advocacia também passa pela construção de relações profissionais mais sustentáveis emocionalmente.
“A profissão jurídica exige preparo técnico, mas também maturidade emocional. Falar sobre isso deixou de ser sinal de fragilidade. Hoje é uma necessidade profissional.”
ENTREVISTA | Os impactos silenciosos da alta performance no meio jurídico
Advogado, professor, Doutor em Direito, pesquisador e autor do livro A Ordem Invisível dos Conflitos – Constelação Sistêmica Aplicada ao Direito e às Organizações, Marcos Nunes analisa como hiperconectividade, pressão constante e cultura de produtividade alteraram a dinâmica emocional da profissão jurídica.
ALTA PERFORMANCE E ESGOTAMENTO
Pergunta — Jornalista da Gazeta do Povo Justiça & Direito:
A advocacia sempre foi uma profissão de alta pressão, mas existe a percepção de que o desgaste emocional se intensificou nos últimos anos. O que mudou?
Resposta — Advogado Marcos Nunes: A advocacia contemporânea passou a operar em um ambiente de urgência permanente. O profissional permanece conectado o tempo inteiro, lidando simultaneamente com clientes, processos, prazos, demandas emocionais e pressão por desempenho.
Existe uma cultura de hiperperformance muito forte dentro do meio jurídico, em que o advogado sente necessidade constante de demonstrar controle, produtividade e resistência emocional, somados ao sucesso financeiro e pessoal. O problema é que muitos profissionais aprenderam apenas a funcionar em alta performance, sem necessariamente poderem se dedicar ao equilíbrio emocional para sustentar essa rotina ao longo dos anos.
Hiperconectividade e saúde mental
Pergunta — Jornalista da Gazeta do Povo Justiça & Direito:
A tecnologia e a hiperconectividade agravaram esse cenário?
Resposta — Advogado Marcos Nunes: Sem dúvida. A tecnologia trouxe eficiência, mas também eliminou barreiras importantes entre vida pessoal e trabalho. Hoje existe uma sensação permanente de disponibilidade e exposição. O celular se tornou uma extensão do escritório. Muitos advogados não conseguem mais estabelecer pausas reais, porque permanecem emocionalmente conectados aos conflitos dos clientes durante todo o dia e muitas vezes também durante a noite. Isso gera ansiedade silenciosa, dificuldade de desligamento mental e um desgaste cognitivo contínuo.
Conflitos humanos e impacto emocional
Pergunta — Jornalista da Gazeta do Povo Justiça & Direito:
O senhor costuma mencionar o peso emocional de lidar diariamente com conflitos alheios. Esse impacto ainda é pouco debatido na advocacia?
Resposta — Advogado Marcos Nunes: Muito pouco debatido. O advogado atua diretamente em disputas familiares, crises empresariais, conflitos patrimoniais, falências, situações de injustiça e tensões humanas profundas. Existe um desgaste emocional invisível nessa exposição contínua ao conflito. Em muitos casos, o profissional não percebe o quanto absorve emocionalmente essas situações. A advocacia exige lucidez, clareza analítica e equilíbrio estratégico. Por isso, saúde emocional não deve ser tratada apenas como bem-estar pessoal, mas como uma ferramenta essencial de qualidade profissional e capacidade decisória.
Advocacia contemporânea
O advogado Marcos Nunes publica conteúdos e análises sobre advocacia contemporânea, Direito Empresarial, proteção patrimonial, gestão de riscos e os impactos emocionais da cultura de alta performance no ambiente jurídico.
As reflexões sobre conflitos humanos, ambiente profissional e relações organizacionais também estão presentes no livro A Ordem Invisível dos Conflitos – Constelação Sistêmica Aplicada ao Direito e às Organizações, obra em que Marcos Nunes aprofunda discussões sobre dinâmicas invisíveis que influenciam relações profissionais, estruturas organizacionais e o universo jurídico contemporâneo.
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A Ordem Invisível dos Conflitos – Constelação Sistêmica Aplicada ao Direito e às Organizações
Conteúdo e análises sobre a advocacia contemporânea
Mais conteúdos podem ser acompanhados pelo site oficial Marcos Nunes Advocacia e pelo Instagram @adv.marcosnunes, onde Marcos Nunes publica constantemente conteúdos informativos, análises e reflexões sobre advocacia contemporânea, Direito Empresarial, relações humanas e os desafios do ambiente jurídico atual.
Livro aprofunda debate sobre saúde mental e hiperperformance na advocacia
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