
Vai vender sua empresa? Saiba o que organizar antes da negociação para evitar prejuízos e aumentar o valor do negócio
Empresas que investem em organização jurídica, governança e planejamento societário chegam mais preparadas à mesa de negociação, aumentam seu valor de mercado e reduzem riscos durante processos de compra e venda
08/07/2026 às 15:45

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Receber uma proposta para vender a empresa é o objetivo de muitos empresários que dedicaram anos ao crescimento do negócio. Mas, quando a negociação começa, nem sempre o cenário é favorável. Documentação desorganizada, conflitos entre sócios, contratos frágeis e passivos ocultos podem reduzir o valor da empresa ou até inviabilizar a operação. Mais do que apresentar bons resultados financeiros, empresas que desejam atrair investidores ou compradores precisam demonstrar segurança jurídica, transparência e maturidade na gestão.
Para o advogado Marcos Nunes, fundador do escritório Marcos Nunes Advocacia, doutor em Direito Empresarial e com mais de 20 anos de atuação na advocacia o mercado de fusões e aquisições continua movimentando bilhões de reais todos os anos e desperta o interesse de empresários que enxergam na venda do negócio uma oportunidade de expansão, sucessão patrimonial ou realização financeira. No entanto, o momento da negociação costuma revelar problemas que permaneceram escondidos durante anos de operação.

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É comum que empresários concentrem seus esforços no crescimento comercial da empresa, no aumento do faturamento e na conquista de novos clientes. Embora esses fatores sejam fundamentais para tornar o negócio competitivo, eles não são suficientes para garantir uma negociação segura quando surge um potencial comprador.
Antes de definir o valor da empresa ou assinar qualquer contrato, investidores costumam realizar uma análise detalhada da estrutura do negócio. Esse processo busca identificar riscos capazes de comprometer a operação ou reduzir a atratividade do investimento.
Entre os aspectos analisados estão a regularidade societária, a situação contratual, os passivos trabalhistas, tributários e cíveis, a organização financeira, a propriedade intelectual, a governança da empresa e a conformidade com as normas aplicáveis ao setor de atuação.
Quando falhas relevantes são identificadas, o comprador pode solicitar descontos no preço, exigir garantias adicionais ou até desistir da negociação.
Muito além do faturamento
Existe uma percepção comum de que empresas lucrativas sempre alcançam elevado valor de mercado. Entretanto, especialistas em negociações empresariais destacam que o desempenho financeiro representa apenas um dos critérios considerados durante uma aquisição.
Negócios excessivamente dependentes da figura do fundador, por exemplo, costumam gerar preocupação entre investidores. A ausência de processos estruturados, de delegação de funções e de mecanismos de governança aumenta a percepção de risco e pode comprometer a continuidade da empresa após a mudança de controle.
Da mesma forma, empresas que não mantêm registros atualizados de suas decisões societárias ou possuem contratos elaborados de forma precária tendem a enfrentar dificuldades durante a avaliação jurídica.
A importância da organização societária
Ao longo da trajetória empresarial, é comum que ocorram alterações na composição da sociedade, mudanças no contrato social, entrada de investidores, reorganizações internas e redefinição das responsabilidades administrativas.
Quando essas modificações não são formalizadas adequadamente, surgem dúvidas sobre direitos, deveres e poderes de decisão, criando insegurança para quem pretende adquirir o negócio. Uma estrutura societária organizada demonstra profissionalismo, reduz conflitos internos e facilita a compreensão da empresa por parte de investidores, instituições financeiras e potenciais compradores.
Além disso, regras claras sobre sucessão, administração, distribuição de resultados e resolução de conflitos contribuem para preservar a estabilidade do negócio mesmo diante de mudanças relevantes.
Due diligence: a empresa será examinada em detalhes
Em praticamente toda negociação de compra e venda de empresas ocorre um procedimento conhecido como due diligence.
Trata-se de uma auditoria que analisa diversos aspectos do negócio antes da conclusão da operação. Durante essa etapa, documentos societários, contratos comerciais, certidões, demonstrações financeiras, processos judiciais, registros contábeis, licenças, regularidade fiscal e trabalhista são examinadas para identificar riscos e oportunidades.
Quanto mais organizada estiver a empresa, maior tende a ser a agilidade do processo e menor a probabilidade de questionamentos capazes de comprometer a negociação.
Por outro lado, inconsistências documentais ou ausência de informações podem prolongar a análise, gerar custos adicionais e enfraquecer a posição do vendedor.
Contratos também influenciam o valor do negócio
Outro fator frequentemente observado durante uma negociação é a qualidade dos contratos firmados pela empresa. Contratos com clientes, fornecedores, parceiros estratégicos, prestadores de serviço e colaboradores ajudam a demonstrar estabilidade operacional e previsibilidade financeira.
Instrumentos mal elaborados, cláusulas desatualizadas ou relações comerciais mantidas apenas por acordos verbais podem representar riscos futuros e reduzir a confiança do comprador.
Além da proteção jurídica, contratos consistentes oferecem maior segurança para todas as partes envolvidas e fortalecem a imagem institucional da empresa.
Governança deixou de ser exclusividade das grandes empresas
Durante muitos anos, práticas de governança corporativa foram associadas apenas às grandes companhias. Esse cenário mudou.
Empresas de pequeno e médio porte também passaram a investir em mecanismos capazes de aumentar a transparência, organizar processos internos e melhorar a tomada de decisões.
A definição clara das atribuições dos sócios, a realização periódica de reuniões, o registro formal das decisões estratégicas, a criação de políticas internas e a gestão adequada dos riscos contribuem para tornar a empresa mais preparada para crescer ou receber investimentos.
Além de facilitar futuras negociações, essas práticas fortalecem a gestão cotidiana e reduzem a possibilidade de conflitos internos.
Preparação é investimento, não custo
Mesmo empresários que não pretendem vender a empresa no curto prazo podem colher benefícios ao investir em organização jurídica e planejamento empresarial.
A estruturação antecipada reduz riscos operacionais, melhora o relacionamento com instituições financeiras, aumenta a confiança de parceiros comerciais e prepara a empresa para aproveitar oportunidades que surgem de forma inesperada.
Quando um investidor demonstra interesse, normalmente há pouco tempo para corrigir problemas estruturais acumulados durante anos. Por isso, especialistas recomendam que a preparação ocorra de maneira contínua, incorporando boas práticas de governança, organização societária e gestão jurídica ao cotidiano da empresa.
Em um mercado cada vez mais competitivo, empresas bem organizadas não apenas aumentam suas chances de realizar uma negociação bem-sucedida, mas também constroem uma trajetória mais segura, sustentável e preparada para os desafios do futuro.
Jornalista Gazeta do Povo: Muitos empresários acreditam que a preparação para vender a empresa começa apenas quando surge um comprador. Esse é um equívoco? Em que momento esse planejamento deveria ser iniciado?
Advogado Marcos Nunes Sim. Esse é um dos maiores equívocos que observo na prática. A preparação para uma venda não começa quando aparece um interessado, mas muito antes disso. Na realidade, uma empresa preparada para ser vendida é, em regra, uma empresa melhor administrada.
Organizar contratos, manter a documentação societária atualizada, estruturar a governança, revisar passivos e estabelecer processos internos não serve apenas para uma futura negociação. Essas medidas fortalecem a gestão do negócio no dia a dia, reduzem riscos e aumentam a confiança de parceiros, instituições financeiras e investidores.
Quando o empresário deixa essa organização para a última hora, normalmente não há tempo suficiente para corrigir problemas que foram acumulados durante anos. Por isso, costumo dizer que a preparação para uma eventual venda deve fazer parte da estratégia permanente da empresa.
Jornalista Gazeta do Povo: Quais são os principais problemas jurídicos e societários que costumam ser identificados durante uma due diligence e que acabam reduzindo o valor da empresa ou inviabilizando uma negociação?
Advogado Marcos Nunes Cada operação possui suas particularidades, mas alguns problemas aparecem com bastante frequência. Entre eles estão contratos sociais desatualizados, ausência de acordos entre sócios, contratos comerciais frágeis ou informais, passivos trabalhistas e tributários relevantes, processos judiciais sem controle adequado e falhas na organização documental.
Também é comum encontrar empresas excessivamente dependentes da figura do fundador, sem processos claros ou delegação de responsabilidades. Isso gera insegurança para quem pretende adquirir o negócio, porque aumenta a percepção de risco.
A due diligence existe justamente para identificar essas vulnerabilidades antes da conclusão da operação. Quanto mais organizada estiver a empresa, maior será a confiança do comprador e melhores tendem a ser as condições da negociação.
Jornalista Gazeta do Povo: Além do faturamento e do lucro, quais fatores jurídicos e de governança mais influenciam o valuation de uma empresa na visão de investidores e compradores?
Advogado Marcos Nunes: Os resultados financeiros são importantes, mas eles representam apenas parte da análise. Hoje, investidores observam com muita atenção a maturidade da empresa sob o aspecto jurídico e de governança.
Uma empresa que possui regras societárias claras, contratos bem estruturados, processos internos definidos, gestão de riscos, conformidade regulatória e transparência transmite muito mais segurança. Esses elementos reduzem incertezas e agregam valor ao negócio.
Outro aspecto relevante é a capacidade de a empresa continuar crescendo independentemente da presença constante do fundador. Quando existe uma estrutura sólida de gestão, a empresa se torna mais atrativa para investidores porque demonstra sustentabilidade e previsibilidade.
Jornalista Gazeta do Povo - Que medidas práticas um empresário pode começar a implementar hoje para tornar sua empresa mais organizada, atrativa e preparada para uma futura venda, mesmo que esse plano ainda esteja distante?
Advogado Marcos Nunes O primeiro passo é fazer um diagnóstico completo da situação jurídica da empresa. A partir daí, é possível identificar pontos que precisam ser ajustados antes que se transformem em problemas.
Recomendo revisar periodicamente o contrato social, formalizar acordos entre os sócios, atualizar contratos com clientes e fornecedores, organizar a documentação societária, acompanhar passivos judiciais e tributários, fortalecer práticas de governança e manter registros claros das principais decisões da empresa.
Também é importante compreender que organização jurídica não deve ser vista como um custo, mas como um investimento estratégico. Empresas bem estruturadas negociam melhor, enfrentam menos conflitos e preservam valor ao longo do tempo. Quando surge uma oportunidade de venda, quem se preparou com antecedência está em uma posição muito mais favorável para conduzir a negociação e proteger o patrimônio construído ao longo dos anos.
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