
O crescimento dos crimes financeiros no Brasil: por que empresários passaram a integrar o foco das investigações
Especialista explica como a evolução das investigações ampliou o foco sobre empresas e empresários
10/07/2026 às 17:16

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Durante décadas, o combate ao crime no Brasil esteve concentrado em delitos como homicídios, roubos, tráfico de drogas e corrupção. Embora essas modalidades continuem mobilizando grande parte da atuação das autoridades, uma transformação silenciosa vem alterando o cenário das investigações criminais. O avanço do chamado Direito Penal Econômico colocou as movimentações financeiras, a gestão patrimonial e a estrutura das empresas no centro das apurações conduzidas por órgãos de controle e persecução penal.
Hoje, a atuação integrada entre instituições como Ministério Público, Polícia Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aliada ao uso intensivo de tecnologia e inteligência financeira, permite cruzar informações bancárias, fiscais, contábeis e societárias com rapidez inédita. Na prática, isso significa que operações consideradas incompatíveis com a realidade econômica declarada ou estruturas empresariais pouco transparentes podem despertar a atenção das autoridades mesmo antes da identificação de um crime violento ou de grande repercussão.
Esse novo contexto também alterou uma percepção bastante difundida no meio empresarial: a de que crimes financeiros dizem respeito apenas a grandes organizações criminosas ou a esquemas sofisticados de corrupção.
"A integração entre Ministério Público, Polícia Federal e Coaf, somada ao cruzamento de dados bancários, fiscais e societários, permite identificar movimentações atípicas com muito mais rapidez. Hoje, muitas investigações têm início a partir de indícios exclusivamente financeiros, como uma movimentação incompatível com a renda declarada ou uma estrutura societária pouco transparente”, explica Andressa Silva, advogada criminalista e titular da AGS Advogados.
A falsa sensação de segurança
Na avaliação da advogada, acreditar que empresas de pequeno e médio porte estão naturalmente afastadas desse tipo de fiscalização é um dos equívocos mais comuns.
"A legislação não exige qualquer vínculo com o crime organizado. Basta ocultar ou dissimular a origem, a movimentação ou a destinação de recursos de forma a dificultar seu rastreamento", afirma.

Esse entendimento faz com que situações aparentemente rotineiras passem a ser analisadas sob outra perspectiva pelas autoridades. Pagamentos realizados sem documentação adequada, utilização de contas de terceiros, emissão de notas fiscais que não correspondem à operação efetivamente realizada e empresas constituídas sem atividade econômica compatível são exemplos de situações que podem motivar uma apuração, especialmente quando associadas a outras inconsistências.
Segundo Andressa, nem sempre essas situações decorrem de uma intenção deliberada de praticar um ilícito. Muitas vezes, elas surgem da tentativa de resolver problemas imediatos da empresa.
"Em momentos de dificuldade financeira, é comum que empresários adotem soluções pouco transparentes para manter o negócio funcionando. Sem perceber, acabam criando um problema penal muito mais grave do que a dificuldade econômica que buscavam enfrentar."
Quando a gestão financeira ultrapassa os limites legais
Entre os crimes financeiros mais recorrentes envolvendo empresas estão lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, crimes contra o sistema financeiro nacional, evasão de divisas e estelionato. Em boa parte dos casos, porém, a origem do problema está em decisões administrativas tomadas sem a devida avaliação jurídica.
A especialista observa que práticas historicamente tratadas como parte da informalidade empresarial passaram a ser examinadas com muito mais rigor pelos órgãos de investigação.
"O erro mais comum é confundir informalidade com eficiência. Contratos verbais, movimentações financeiras sem documentação de suporte, mistura entre patrimônio pessoal e patrimônio da empresa e registros contábeis incompatíveis com a operação real são exemplos recorrentes."
Andressa Silva, especialista em Advocacia Criminal e Compliance e titular da AGS Advogados.
Ela acrescenta que muitos empresários ainda delegam decisões estratégicas exclusivamente às áreas financeira ou contábil, sem uma avaliação jurídica preventiva.
"Também vejo com frequência empresários que terceirizam decisões financeiras sensíveis a contadores ou consultores sem orientação jurídica conjunta. Isso pode resultar em estruturas economicamente interessantes, mas juridicamente vulneráveis."
Um cenário que exige prevenção
A evolução dos mecanismos de investigação demonstra que o foco das autoridades deixou de estar apenas na identificação do crime em si para alcançar também a forma como recursos são movimentados, registrados e justificados ao longo da atividade empresarial.

Nesse ambiente de fiscalização cada vez mais sofisticado, especialistas apontam que boas práticas de governança, organização documental, controles internos e acompanhamento jurídico preventivo deixaram de representar apenas instrumentos de gestão para se tornarem importantes mecanismos de redução de riscos.
Como destaca Andressa, "na esfera penal, a ausência de dolo não impede a abertura de uma investigação; essa circunstância será analisada ao longo do processo. Por isso, a prevenção é tão importante quanto a boa-fé."
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