Arquiteta mexicana surpreende ao resgatar estética tradicional com novas tecnologias

A mexicana Fernanda Canales, 45 anos, é um dos colossos da arquitetura contemporânea. Com soluções sensíveis e incrivelmente inteligentes, ela surpreende com projetos entre o moderno e o regional

Os diferentes módulos da Casa Bruma são feitos em concreto aparente em cor negra, madeira, pedra e vidro. Foto: Rafael Gamo/ Divulgação

por Luan Galani

28/08/2019

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A arquiteta mexicana Fernanda Canales é uma das melhores coisas que já aconteceu para a arquitetura contemporânea. Ano passado foi escolhida para projetar o Pavilhão Tamayo – equivalente mexicano do pavilhão britânico da Serpertine Gallery – e levou para casa o prêmio Vozes em Ascenção, da Liga de Arquitetura de Nova York, um dos mais disputados dos Estados Unidos, que reconhece profissionais com produções significativas e com potencial de influenciar o universo da arquitetura a nível mundial.

Fernanda Canale, arquiteta mexicana surpreende com projetos modernos e com apelo regional. Foto: Divulgação

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Iberoamericana do México, fez mestrado na Barcelona Tech e doutorado na Universidade Politécnica de Madri, ambas na Espanha. Foi indicada duas vezes ao Iakov Chernikov International Prize e participou por três vezes da Bienal de Arquitetura de Veneza. Entre suas obras mais emblemáticas, destaque para o Centro Cultural Elena Garro, na Cidade do México, que requalificou um casarão histórico e unificou os espaços públicos e privados por meio de uma casca-moldura transparente que leva os livros até a rua.

O Centro Cultural Elena Garro, na Cidade do México, requalificou um casarão histórico. Uma casca-moldura transparente que leva os livros até a rua. Foto: Rafael Gamo/ Divulgaão

E a Casa Bruma, criada em concreto aparente em cor negra (que lembra o tradicional barro negro mexicano), madeira, pedra e vidro, como diferentes módulos moldados na paisagem e organizados ao redor de um pátio, levando em conta o diálogo com a vegetação e outros elementos climáticos.

Os diferentes módulos da Casa Bruma são feitos em concreto aparente em cor negra, madeira, pedra e vidro. Foto: Rafael Gamo/ Divulgação

Minha primeira pergunta é inevitável: como é ser arquiteta no México? Algum desafio específico que você pode compartilhar conosco? E como mudar isso?

Ser mulher e arquiteta no México é como ser mulher e arquiteta na maior parte do mundo: algo que ainda estamos tentando entender. São poucos os modelos femininos a seguir e nós ainda temos que aprender como transformar uma profissão entendida através de percepções e interesses masculinos para encontrar diferentes formas de compreensão das relações entre pessoas, edifícios e território.

Poderia citar algumas mulheres que inspiraram ou ainda te ajudam a conceber seu trabalho?

Referências históricas como Eileen Gray, Charlotte Perriand e Lily Reich são realmente relevantes, bem como exemplos contemporâneos que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente, como Kazuyo Sejima e Carmen Pinos. Cada uma delas oferece maneiras únicas de relacionar espaços, pessoas e móveis. Todas desafiaram definições existentes da arquitetura e abriram novos caminhos de vida.

A Casa Ortega exerce uma influência tremenda sobre a sua linguagem. Por quê? Quais as grandes lições que você leva desse trabalho do Luis Barragán, um colosso da arquitetura sul-americana?

Na minha infância eu conheci várias casas do Barragán. Antes mesmo de estudar arquitetura. E eram espaços que apareciam com frequência nas minhas memórias. Depois da universidade e depois de trabalhar no primeiro guia completo dos trabalhos do Barragán, publicado pela Fundação Barragán, percebi quão únicas e diferentes elas são de qualquer outra construção daquele tempo. Eu compreendi por que elas eram espaços que até para uma criança são inesquecíveis.

O diálogo com a vegetação e outros elementos climáticos são uma preocupação constante em seus projetos. Foto: Rafael Gamo/ Divulgação

Você trabalha em casa. Como é essa nova forma de fazer arquitetura no home office?

Acredito que a arquitetura acontece no local e não em um computador ou escritório. Também penso que a arquitetura é feita através de pesquisa, escrita e aulas. Por isso eu gasto tanto tempo no local da obra. Tanto quanto dedico aos arquivos de pesquisa ou à sala de aula. Vivo em uma cidade de mais de 20 milhões de habitantes, conhecida no mundo todo como a cidade com o maior trânsito. Então gasto maior parte do tempo indo de um lugar ao outro. Eu não acredito que possa tomar decisões importantes sobre um lugar a distância.

Seus edifícios são de um grande respeito pelas conexões, pelo contexto, pela natureza e paisagem. O que a arquitetura é para você?

Arquitetura para mim é a possibilidade de dar para alguém uma parte do céu: seu lugar próprio.

Como você descreveria o morar contemporâneo do México?

Um lugar em que oposições entre dentro e fora, entre público e privado, são desafiadas.

E, na sua opinião, como é a arquitetura mexicana hoje? Alguma particularidade, conceito ou material que grita MÉXICO?

A arquitetura mexicana está começando a se tornar um discurso social em favor de prédios ponte entre diferentes opostos, como o urbano-rural, rico-pobre, formal-informal. Há cada vez mais arquitetos conscientes do potencial da arquitetura para diminuir contrastes sociais e trabalhar em favor de cidades menos violentas.

Você tem uma linguagem arquitetônica bem distinta. Como foi achar esse tom e desenvolvê-lo?

Cada projeto é uma oportunidade de trabalhar em algo novo, impossível de imaginar de imediato, e de aprender os potenciais do local e dos programas para cada uso particular.

Como é possível desenvolver e criar bons projetos de arquitetura no México, onde a violência é bem presente, da mesma forma que em outros países latino-americanos, e os clientes pedem por grandes paredes, grades e proteção?

A arquitetura é uma parede, mas é também um espaço que inclui e convida. Tem o potencial de tornar algo que separa ou algo que une. Penso que essa é exatamente sua magia.

Qual sua opinião sobre o papel social dos arquitetos, especialmente quando não olham comunidades de baixa renda?

É impossível não olhar para comunidades de baixa renda, mesmo se o programa for diferente e o cliente for rico. Os contrastes no México são tão visíveis que sempre há um confronto entre diferentes realidades que tornam impossível não reconhecer e responder a essa condição. Trabalhar em um país onde mais de 60% do que está sendo construído é feito informalmente faz você trabalhar de diferentes maneiras para se tornar útil para uma sociedade que não acredita em arquitetos nem em sua necessidade.

Como está a habitação social no México hoje? No Brasil, por exemplo, casas ainda são construídas de forma extremamente barata em locais bem longe dos centros urbanos, longe de serviços essenciais, que levam horas para chegar. Que soluções seu país está colocando em prática?

Esse modelo de habitação por família construída nas periferias tem sido devastador em todo o mundo, especialmente em países subdesenvolvidos. México, por exemplo, é um dos países do mundo com mais escassez de casas e também com mais casas abandonadas devido ao fato de que são isoladas, construídas quatro horas longe das cidades, sem transporte público ou conexão para serviços básicos. Pensar em redensificar cidades também é perigoso se os serviços, como transporte, espaço público e abastecimento, por exemplo, não são igualmente densificados.

Li certa vez que você defende confiar menos em soluções formais e prefere estratégias mais pessoais, flexíveis e informais. Como é isso? E por quê? Essa pode ser a resposta para projetos menos iguais, menos massificados e menos parecidos. Concorda?

Continuamente, soluções improvisadas e próprias se provam mais flexíveis e adequadas graças ao profundo entendimento das necessidades, da economia e do lugar, em vez de desenvolvimentos massivos baseados em interesses comerciais.

Você também é conhecida por ser uma pesquisadora e escritora de mão cheia. O que te leva a isso e o que você está pesquisando agora?

Estou pesquisando a habitação. Acho que é impossível criar casas sem aprender o que outros experimentaram sobre o mesmo tema. Dessa forma, as revoluções domésticas do século 20 são uma lição sem fim.

A interação das pessoas com a arquitetura é outra marca dos projetos de Fernanda Canale. Foto: Jaime Navarro / Divulgação

Como encorajar o aproveitamento dos espaços públicos no Brasil e no México?

É algo que precisa acontecer dentro dos projetos privados. Temos que entender as implicações de uma casa privada na esfera pública. Temos que ganhar consciência das consequências coletivas da multiplicação de projetos particulares. É a única maneira de construir cidades boas para se viver.

O que você diria para jovens arquitetas? Alguma dica?

Não copiem a maneira de fazer dos outros e pensem sobre a arquitetura. Arquitetura e a maneira que construímos nossas cidades ainda precisam ser ensinadas para a outra metade da população.

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