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Carlos Alberto Silva trabalha há 27 anos como maquetista.
Carlos Alberto Silva trabalha há 27 anos como maquetista.| Foto: Divulgação

O catarinense Carlos Alberto Silva é o responsável pelas 40 maquetes de papel de obras icônicas da arquitetura brasileira que têm encantado visitantes na exposição do MON sobre concursos de projeto.

Para usar uma expressão que se popularizou, “nunca antes na história deste país” uma exposição havia se debruçado com tamanho rigor sobre a produção arquitetônica para concursos de projeto. Mesmo que com um recorte específico voltado para escritórios do Paraná ou radicados aqui no estado, o ineditismo continua com a mostra “Concurso como prática: a presença da arquitetura paranaense”, de autoria dos arquitetos Fábio Domingos Batista, Alexandre Ruiz Rosa e Marina Oba, com curadoria da arquiteta Elisabete França, que segue aberta até dezembro no Museu Oscar Niemeyer (MON).

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E um dos itens que mais tem encantado os visitantes são 40 maquetes de papel que reproduzem em escala reduzida as principais obras dos mais de 250 projetos concebidos por 400 profissionais ao longo de 70 anos. Entre elas, o estádio do Pinheirão, o prédio da Petrobras no Rio de Janeiro, a Estação Brasileira na Antártica, o Teatro Guaíra e a sede do BNDES, para citar apenas alguns. HAUS foi atrás das mãos habilidosas por trás dessas obras de arte. É o arquiteto catarinense Carlos Alberto Silva, 50 anos, que leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), em Criciúma, e que também é maquetista autônomo.

Com precisão de corte, as maquetes são feitas à mão.
Com precisão de corte, as maquetes são feitas à mão.| Divulgação

“A gente tinha visto o trabalho do Carlos em uma exposição do Manuel Coelho e na "Tupi or not Tupi", ambas em 2014. E me interessava muito a forma como ele fazia maquetes. Tinha visto até algumas em miniatura também. E chama atenção porque é uma visão muito acadêmica de produção de maquetes. A forma como ele faz, mas com um nível de execução muito mais apurado, assemelha-se com as maquetes que fazemos durante o curso de arquitetura ou na produção dos escritórios”, explica Alexandre Ruiz, do Saboia + Ruiz Arquitetos, um dos organizadores da mostra.

“São maquetes arquitetônicas, com poucos materiais, que focam mais na volumetria, na transparência, sempre monocromáticas, avaliando mais a estratégia do projeto, a ordem geométrica, do que uma tradução literal. Então, foge das maquetes mais comerciais. E isso no âmbito de uma exposição traz uma força. Quase como se fosse uma maquete que é colocada em uma mesa de ateliê para uma revisão geral de projeto final. É um trabalho primoroso. São delicadas, com precisão de corte, feitas à mão, com lógica de artesão mesmo”, frisa Ruiz. Confira a entrevista exclusiva que fizemos com o maquetista!

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Como começou o seu trabalho com maquetes?

Sou graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1994 e tenho pós-graduação em Design de Interiores pelo Senac, com conclusão em 2015. No início, trabalhei com desenhos em perspectiva, tudo manual, até o advento dos desenhos digitais. Ali, tive a oportunidade de conhecer os mais bem conceituados arquitetos da cidade e região, alguns dos quais me incentivaram a iniciar o trabalho profissional com maquetes, que eram executadas de maneira informal.

Quando e por qual razão começou a gostar de fazer maquetes?

Desde criança, meus brinquedos sempre foram de montar. Na infância, de forma criativa, onde os blocos eram produzidos para livre composição, como Hering-Rasti, o LEGO dos anos 1970. Na juventude, de forma tecno-reprodutiva, em que os modelos em escala eram montados de acordo com as instruções de cada caso, com a Revell. Durante a graduação, frequentava a maquetaria/carpintaria para executar as maquetes dos meus projetos acadêmicos, muitas vezes para os colegas também, que não eram obrigatórias, mas faziam a diferença. Da formatura até os dias atuais, são 27 anos como maquetista.

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Estádio do Pinheirão, em Curitiba.| Priscilla Fiedler/Gazeta do Povo

Qual o diferencial da maquete de papel?

A maquete de papel é mais leve, mais maleável para detalhes, miniaturas e principalmente não necessitam de maquinário pesado para execução.

Como foi para você ser chamado a fazer parte da exposição “Concurso como prática”?

Foi uma oportunidade incrível e irrecusável, mesmo com o desafio do tempo mínimo para execução. Construir uma maquete é a forma mais rápida de conhecer o projeto. Para produzir e montar as peças é necessário ter uma leitura e, por vezes, uma interpretação apurada. Por participar da exposição tive a felicidade de conhecer um pouco mais de alguns projetos reconhecidos e conhecer muitos projetos incríveis, com linguagens diversificadas, soluções engenhosas e criativas.

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Assembléia Legislativa do Paraná.| Priscilla Fiedler

Que tipo de papel você utiliza nas suas maquetes?

De todo o tipo, dependendo do que será representado. Comuns, especiais, foscos, metalizados, texturizados. Mas os mais utilizados são o Strong (papel cinza utilizado como molde em confecções) para a estrutura interna, Canson comum, Canson Montval e Canson Mi-Teintes para acabamentos gerais. Todos com gramaturas e espessuras variáveis.

Quanto tempo demora para fazer uma maquete dessas?

Para a exposição, o tempo variava de um dia a uma semana. Os edifícios da Petrobrás e do BNDES demoraram cinco dias, os monumentos de Goiânia e Sobral precisaram de um dia cada e maquetes como o Teatro Guaíra, Teatro de Campinas, Hotel em Juazeiro, Clube de Golf, Estação Antártica e Eletrosul preencheram de três a quatro dias.

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Teatro Guaíra, em Curitiba.| Priscilla Fiedler/Gazeta do Povo

Qual o grande poder da maquete sobre o fazer arquitetônico, na sua opinião?

As maquetes aparecem em tempos e usos diferentes. Representam o passado construído, esquecido ou somente projetado, o presente e o futuro. São importantes instrumentos de venda, de resgate da memória e, principalmente, para o desenvolvimento de projetos. A maquete de estudo é a mais eficaz como ferramenta criativa, aquela feita na correria, sem compromisso com acabamentos, somente com o que representam, a essência da arquitetura.

Que tipo de utensílios você utiliza para a montagem dessas peças?

Faca e base de corte, esquadros, escalímetro, cola branca e uma boa lente de apoio.

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Sede do prédio da Petrobrás, no Rio de Janeiro.| Priscilla Fiedler/Gazeta do Povo

Que desafios você enxerga hoje para os jovens escritórios no cenário dos concursos de projeto?

Os concursos sempre foram fundamentais para os jovens escritórios. A participação em equipes, junto com arquitetos mais experientes, com a competividade saudável e com a necessária atualização do conhecimento. Nos concursos, e somente nos concursos, salvo raríssimas exceções, o “cliente” aceita os “delírios”, a ousadia, a simplicidade e a timidez singela.

Como você enxerga a questão do desenho à mão e o fazer atual da arquitetura?

O desafio é fazer com que enxerguem a importância, que é indiscutivelmente fundamental para a qualidade de criação. O partido arquitetônico necessita de rapidez no registro das ideias que se misturam com a velocidade do traço à mão, sem limites, sem regras de telas e ferramentas estanques. A eficiência técnica digital e suas facilidades são importantes a partir do estudo preliminar.

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Exposição traz 40 maquetes de obras de autoria de arquitetos paranaenses ou radicados no estado.| Priscilla Fiedler/Gazeta do Povo

E como você vê a questão da atenção dedicada aos projetos Rio-SP e fora desse eixo? O que pode melhorar?

Já foi bem maior. As escolas de arquitetura têm esse desafio: difundir a arquitetura sem limites territoriais, a arquitetura de qualidade funcional e estética que é formada nas inúmeras faculdades em todos os estados e mundo afora.

Das 40 que você fez para a exposição no MON, qual a sua preferida? Por quê?

O Pinheirão, pelo desafio, pelo prazer, e principalmente, pelo resultado. Sempre quis fazer um estádio e foi a primeira experiência.

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