Balneário Camboriú tem cinco dos dez prédios mais altos da América do Sul; saiba o porquê

Para viabilizar as obras nos poucos metros quadrados restantes nos locais privilegiados da cidade, mercado imobiliário investe em prédios com mais de 150 m de altura

Foto: Karina Pizzini

por Karina Pizzini*

30/12/2019

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Com um dos metros quadrados mais caros do país e os prédios mais altos da América do Sul, Balneário Camboriú se destaca pelos arranha-céus imponentes avistados já da rodovia BR-101. As exuberantes praias catarinenses atraem uma movimentação massiva de turistas desde a década de 1970, período a partir do qual o desenvolvimento da região e a verticalização urbana se expandiram com o aumento do número de visitantes.

Hoje, mais de 4 milhões de turistas passam pela cidade por ano. A valorização dos imóveis atraiu construtoras e investidores de alto poder aquisitivo, ampliando o mercado mobiliário de luxo na região, que possui, hoje, seis dos dez prédios mais altos do país, todos de alto ou altíssimo padrão. A duplicação da BR-101, no litoral Norte do Estado, em 2000, é outro ponto que intensificou a procura e o investimento no local.

“Nos anos 2000, houve uma verticalização acentuada em razão da grande procura por imóveis de alto padrão, principalmente na orla da Praia Central. Também, os planos diretores aprovados desde sua emancipação, em 1964, ofereceram [à cidade] coeficientes de aproveitamento generosos para a construção civil, com gabarito [número de pavimentos] livre”, explica Jânio Vicente Rech, arquiteto, doutor em Engenharia Civil e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Verticalização e luxo à beira mar

Os quase sete quilômetros da Praia Central de Balneário Camboriú são pequenos em relação ao número de visitantes que ela recebe todos os verões. Em média, 900 mil pessoas visitam a cidade somente no mês de janeiro. “A construção de edifícios verticais tem por objetivo abrigar o maior número de pessoas em uma menor parcela do território urbano”, diz Rech ao justificar a intensa presença de prédios no local.

Foto: Karina Pizzini.

A limitação do espaço para construção na orla valoriza o metro quadrado nas avenidas mais próximas da praia e aumenta a disputa pelo melhor imóvel com vista para o mar. Dados recentes da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) revelam que o segmento de imóveis de luxo vem apresentando um desempenho notável, uma vez que os lançamentos de imóveis para o público de alta renda crescem mais do que o dobro da média do mercado imobiliário.

Lista dos 10 maiores prédios do Brasil. (clique na imagem para ver o gráfico maior). Crédito: CTBUH

Essa corrida de investimento faz crescer o número de arranha-céus da cidade, com o maior conglomerado de edifícios de alto padrão do país. Balneário Camboriú tem 24 dos 56 prédios com mais de 150 metros de altura no Brasil, entregues ou em construção. De acordo com o Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH), a cidade tem seis dos dez prédios mais altos do Brasil, todos com mais de 190 metros de altura, em construção ou entregues em 2019. No recorte de que engloba toda a América do Sul, cinco entre os dez mais altos estão em Balneário Camboriú (prontos ou em obras).

Lista dos 10 prédios mais altos da América do Sul. (clique na imagem para ver o gráfico maior). Crédito: CTBUH

Só a FG Empreendimentos possui três dos dez prédios do ranking. Neste mês de dezembro, a incorporadora concluiu a obra do edifício residencial Infinity Coast Tower, com 234.8 metros, que se tornou o edifício entregue mais alto do Brasil e o terceiro da América do Sul. Com previsão de conclusão para 2022, a construtora trabalha na obra do One Tower, o prédio mais alto em construção de frente para o mar da América do Sul, com 280.3 metros.

De acordo com o diretor comercial e de marketing da FG Empreendimentos, Altevir Baron, a cidade criou uma identidade própria devido aos pequenos terrenos próximos a orla. “Quando o terreno é muito caro, você precisa ter um número de apartamentos que a viabilize essa construção, por isso fazemos prédios mais altos que viabilizam o negócio, dando estética à cidade, com inovação e tecnologia. Nessa inspiração, Balneário Camboriú torna-se um polo da construção civil, referência em prédios de alto padrão. As construtoras que aqui estão acabaram criando essa referência”, avalia.

Tal referência criou, também, uma competitividade entre as construtoras da região. Entre as que estão “na disputa”, destaca-se a Pasqualotto & GT, que se especializou em prédios de alto padrão para atender essa demanda. Com as torres do Yachthouse by Pininfarina no topo do ranking nacional, quando entregue, em 2020, o empreendimento será o mais alto do Brasil e o maior edifício residencial da América do Sul, com 281 metros e 81 andares. No continente, ele só perderá para o chileno Torre Costanera, em Santiago, que tem 300 metros de altura e abriga um hotel e escritórios.

Foto: Pasqualotto & GT/divulgação

“O objetivo é quebrar a sazonalidade do litoral e ampliar as possibilidades e atrativos no período de baixas temperaturas. Tudo que é realizado visa ampliar a movimentação econômica regional e até mesmo nacional”, conta o presidente da Pasqualotto & GT, Alcino Pasqualotto. Em 2021, a construtora entrega outro edifício que está entre os cinco mais altos do país, o Vitra Residence, com 208.5 metros de altura.

“A verticalização é um tema debatido em todo o mundo e, assim como todas as discussões mundiais, gera pontos positivos e olhares menos otimistas. Balneário Camboriú é uma cidade nova, porém que sempre possuiu vocação ao empreendedorismo e eficiência, isso tudo somado ao turismo”, comenta Pasqualotto.

Dubai brasileira

Para Baron, a competitividade entre as construtoras gerou uma “apresentação de exemplares do que há de melhor no mundo” na construção civil. “Com isso o cenário brasileiro acabou elegendo Balneário Camboriú como uma cidade de investidores com clientes de todo o Brasil”, diz o diretor da FG. Foi este cenário que fez com que a cidade ganhasse o cunho de “Dubai Brasileira”.

Apartamentos de alto e altíssimo padrão – de frente para o mar, com unidades de até 350 m² privativos, podem custar cerca de R$ 28.000,00 por metro quadrado. Segundo o diretor da FG Empreendimentos, nos últimos 20 anos a cidade vem sendo repagina para se tornar a referência que é, com obras que podem gerar mais de R$ 1,5 milhão de IPTU (Imposto Territorial Urbano) para o município.

Ao contrário da jovem Balneário Camboriú, Dubai tem sua história contada a partir do século XIX, ainda que registros apontem que havia uma civilização pré-histórica no local. A cidade dos Emirados Árabes também possui o prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros, quase três vezes mais alto que o edifício mais alto do Brasil – o Yachthouse by Pininfarina, com 280 metros, ainda em obras.

“Creio que o apelido de ‘Dubai brasileira’ se deve ao fato de a cidade abrigar os maiores prédios do Brasil. Para tanto, a indústria da construção civil busca assessorias e alta tecnologia na Europa e América do Norte para a concretização desses espigões. No entanto, para igualarmos as condições de infraestrutura de Dubai, ainda precisamos de um planejamento urbano de longo prazo, com investimento em todas as áreas, como transporte público, abastecimento, saneamento básico, entre outros”, conclui o especialista Janio Rech.

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*especial para Haus.

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