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Projeto do A Horta Bike Café foi todo realizado em contêineres. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo
Projeto do A Horta Bike Café foi todo realizado em contêineres. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo| Foto: Gazeta do Povo

Em 2014, quando a rede de hamburguerias Madero começou a investir em contêineres para abrir algumas de suas novas unidades, tudo parecia novidade. Hoje, as caixas gigantes de aço, antes decoração apenas de portos e navios cargueiros, passaram a ser encaradas com uma certa naturalidade na paisagem urbana. No fim de outubro, por exemplo, a cidade ganhou um espaço com mais de 40 deles servindo como instalação de restaurantes, o MercadoSal, no Portão.

Unidade do Madero feita em contêiner. 
Foto: Gerson Lima / Divulgação
Unidade do Madero feita em contêiner. Foto: Gerson Lima / Divulgação| GERSONliMA

“Observamos essa tendência na hora da concepção do estabelecimento. Tem vários fatores que nos fizeram escolher os contêineres: a questão sustentável da reutilização de material, a velocidade da obra, a característica estética”, aponta o arquiteto Ricardo Buzzi, um dos idealizadores.

MercadoSal: complexo de gastronomia no bairro Portão foi todo estruturado em contêineres. 
Fotos: Reprodução Facebook.
MercadoSal: complexo de gastronomia no bairro Portão foi todo estruturado em contêineres. Fotos: Reprodução Facebook.

Entre o Madero e o MercadoSal, porém, uma porção de outros endereços montados nas caixas de transporte marítimo já haviam pipocado na cidade: Ca’dore, AHorta Café, UpSide Bar… Foram tantos que a prefeitura municipal até começou a dialogar com profissionais envolvidos nessa transformação urbana para legislar sobre o uso dos compartimentos.

“Na prática, é mais uma questão de organização. Às vezes, no alvará de construção a prefeitura considera o contêiner como uma obra fixa, às vezes, móvel. É uma obra móvel. Não teria que ser necessário averbá-lo em uma escritura”, defende um dos envolvidos nesta discussão, em fase ainda embrionária, Perci Hultmann, diretor de uma empresa de projetos em contêiner, a Total Storage Brasil.

O centro gastronômico Cadôre foi uma das primeiras operações em contêineres de Curitiba. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo
O centro gastronômico Cadôre foi uma das primeiras operações em contêineres de Curitiba. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

E a tendência não é só local. A Coreia do Sul tem escola em contêineres; a África do Sul, prédios; o México, uma vila; os Estados Unidos, uma infinidade de casas. O mundo parece pensar dentro da caixa. Recentemente, o “The New York Times” classificou o material como um “possível futuro da construção”. “Construir com contêineres não é algo exatamente novo [começou na década de 1970], mas até recentemente também nunca foi popular. Porém, isso vem acontecendo cada vez mais, agora que práticas ecológicas passaram a influenciar tendências de mercado”, descreveu o jornal. Um cenário construído graças à abundância de contêineres vagos e alguma criatividade.

Das cargas às casas

Não era para ser casa. Os contêineres foram criados por um caminhoneiro norte-americano que pretendia melhorar o transporte de tabaco. Malcom McLean idealizou os recipientes de carga em 1937, mas sua ideia só pegou nos anos 1950. Mas, quando pegou, pegou. Hoje, é praticamente impossível pensar em transporte marítimo sem esses pesados compartimentos, que seguem padrões internacionais regulados pelo selo ISO. Um deles, de 2,43 metros de largura; 2,59 metros de altura e 12,1 ou 6 metros de comprimento, feitos em aço corten, um material nobre que atravessa longas distâncias mar afora sem oxidar. São os usados na construção civil.

Essas peças são feitas majoritariamente em países asiáticos, sobretudo China. Existem fabricantes nacionais, mas praticamente não compensa comprar contêiner brasileiro. Por uma razão: o governo chinês subsidia a construção dos compartimentos. Com isso, eles chegam bem mais baratos até aqui do que o que as empresas nacionais podem oferecer – a confecção é extremamente cara.

Projeto do A Horta Bike Café foi todo realizado em contêineres. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo
Projeto do A Horta Bike Café foi todo realizado em contêineres. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

Claro, o contêiner chinês “zero-bala” vai todo para a indústria do transporte marítimo. Mas, neste tipo de utilização, sua vida útil é curta – estima-se que seja algo entre 8 e 12 anos. Mas não sua durabilidade. Eles resistem até cem anos. Depois de sua década navegando, o caixotão de aço fica encostado em armazéns e portos. E é dessa vacância que outras indústrias se aproveitam: compram o produto relativamente barato, a partir de R$ 2 mil, para derretê-lo e usar o material, transformar em frigoríficos ou imóveis (casas, escritórios, bares, restaurantes e complexos como o Ca’dore e MercadoSal). É uma bela possibilidade de negócio.

Quem bem aproveitou esse espaço na cidade foi a família Hultmann. As empresas que dominam nosso mercado, a Delta e a Total Storage, pertencem ao clã. A primeira faturou R$ 9 milhões em 2016 graças à venda e locação de contêineres para supermercados, frigoríficos e pessoas interessadas em morar ou montar algo dentro deles, segundo entrevista de seu fundador, Ronaldo Hultmann, ao site “Pequenas Empresas Grandes Negócios”. Já seu primo Perci Hultmann, à frente da Total Storage, recebe um volume de 4 a 5 projetos em contêineres por mês. “De cinco anos para cá, a demanda aumentou consideravelmente”, diz. “As pessoas perceberam a praticidade e rapidez na obra”.

Falsa facilidade

Mas praticidade não é sinônimo de facilidade. Ao menos nesse caso. As obras com contêineres tendem a ser mais baratas do que as em alvenaria tradicional. Mas não é uma regra. “Cria-se uma falsa ilusão de que trabalhar com contêiner é fácil e barato. Não é bem assim. Você precisa de um profissional que conheça o material, porque ele tem várias peculiaridades. Se você corta da forma errada, você desestrutura o módulo”, explica Tatiana Hultmann – sim, também da família Hultmann – que coordena um projeto chamado Mostra Contêiner. O objetivo é difundir o uso do compartimento como prática sustentável de construção.

Não é só saber cortar. Tem que tratar a condensação da umidade, a “chuva de contêiner”. “Se não tratar, literalmente ele vai criando gotas”, diz Tatiana. É só uma das características. “Pode ser que ele vire um forno ou fique muito frio, se não tiver isolamento térmico adequado”, aponta. “E isso tem acontecido com uma certa frequência. O pessoal vai pelo preço baratinho. ‘Ah, comprei um por R$ 3 mil, por que a outra empresa está vendendo por R$ 8 mil?’. Aí você vai ver, é um contêiner em péssimo estado e o da outra empresa está regularizado, com todos os laudos técnicos, estruturais e de descontaminação [eles podem ter sido utilizados no transporte de itens tóxicos]”, completa. Os laudos são emitidos pelas empresas que fazem os projetos, em geral.

Escolher o espaço adequado para coloca-lo também é fundamental. Embora não precise de uma fundação, tem que saber se o blocão de aço terá acesso até onde se quer coloca-lo , se os postes de eletricidade vão permitir que o caminhão passe ou que o guindaste faça manobras, se o terreno é estável, sem declive. “Uma análise de solo para ver se ele não vai afundar é fundamental. São toneladas em cima do terreno”, aponta Tatiana.

Futuro sustentável

É uma solução construtiva viável, defende boa parte dos arquitetos. “Isso vai se tornar melhor com o tempo, com a difusão do conhecimento. Quanto mais as pessoas conhecerem, menos erros vão existir. E menos preconceito. Hoje vemos muitos endereços comerciais com contêineres, mas poucos residenciais. Parece que as pessoas não enxergam esse material como seguro ou adequando para ser uma casa. Um engano homérico”, diz o arquiteto paulista Marcos Duarte. Uma realidade parecida com a daqui. “Há cerca de dois anos, para fazer um projeto [uma casa de 400 metros quadrados construída em sete contêineres] tive que procurar cerca de 90 terrenos. Os condomínios não aceitavam que eu usasse esse material. Eles achavam que era uma favelinha que ia montar”, conta Tatiana.

Na prática, obedecidas as regras, a modalidade de construção pode ser bem resumida em datas e cifras, ambas mais enxutas. “Terminamos a obra em quatro meses. Se fosse em alvenaria tradicional, levaria um ano e meio. Acredito que economizamos na obra algo em torno de 40%”, diz Ricardo Buzzi, arquiteto do MercadoSal.

Mas há algo mais profundo. “Em 2050 teremos 9 bilhões de pessoas morando na Terra. Cerca de 40% do lixo gerado no mundo vêm da construção civil. O maior uso de recursos naturais também vem da construção. Temos que mostrar que há outras formas de construir. Precisamos garantir o nosso futuro”, defende Tatiana.

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