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Escritórios ‘à prova de vírus’ e home office planejados é o que nos espera no pós-pandemia
| Foto: Vitra/Reprodução

Entre as tantas incertezas geradas pela pandemia do novo coronavírus, uma convicção é que a vida corporativa não será mais a mesma. Escritórios mais seguros do ponto de vista sanitário e forte expansão do trabalho remoto estão entre as tendências que vão se fortalecer após a crise.

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O futuro dos ambientes corporativos passa pela reorganização do layout dos espaços, implementação maciça da tecnologia e uma nova rotina dos funcionários. “Eu gosto de imaginar essas mudanças mais ao estilo do filme ‘Avatar’ do que ‘Jetsons’, em que no lugar de um futuro minimalista e monótono tenhamos uma total relação de simbiose com o meio natural, convivendo com tecnologia de ponta”, diz Miguel Cañas Martins, sócio da Metroquadrado Arquitetura, de Joinville (SC).

Espaço para home office foi integrado aos ambientes sociais nesse apartamento assinado pela arquiteta Sharise Gulin.
Espaço para home office foi integrado aos ambientes sociais nesse apartamento assinado pela arquiteta Sharise Gulin.| Leticia Akemi/HAUS

Escritório como ambiente social

No geral, o que se pode prever é que a capacidade dos ambientes será reduzida. Mas isso não necessariamente vai significar a exigência de construção de escritórios mais amplos, já que ao mesmo tempo vai aumentar o número de pessoas que trabalharão de casa. Cada vez mais empresas darão a seus funcionários a escolha e o controle de como e onde trabalhar.

“No mundo pós-coronavírus, a tendência é a segurança dos funcionários: teremos escalonamento e revezamento dos trabalhadores, criação de áreas ao ar livre e espaços para yoga e meditação. A saúde mental e emocional dos funcionários é fundamental para as empresas”, aponta Luiza Nolasco, gerente de novos negócios da WGSN, multinacional especializada em previsão de tendências.

A arquiteta Sharise Gulin, da Sharise Arquitetura, em Curitiba, reforça que não será o fim da sede física das corporações e sim uma alteração na sua função e uma mudança brusca nos escritórios como conhecemos hoje. “A área social vai se tornar o centro vibrante da vida corporativa. É o lugar onde colaboradores sentem a energia e o propósito da empresa, onde podem socializar, trabalhar e fazer networking. Com parte do time trabalhando em remoto, os encontros serão ainda mais valorizados”, afirma.

Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.
Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.| Chan WeArt/Divulgação

Um exemplo é neste projeto para uma agência em São Paulo em que conceitos como biomimética e design biofílico se fazem muito presente. Os termos indicam a mistura entre dois mundos: tecnologia de ponta na automação e espaços humanizados, com áreas de convívio ao ar livre, desenho de mobiliário integrado ao meio natural e elementos naturais. O que comprovadamente tem impacto sobre a nossa saúde, performance e bem-estar físico.

“Somos seres naturais e percebemos isso. E essa valorização se dá quando percebemos o valor que uma sacada tem, um edifício com varandas abertas, uma pequena horta, um pequeno vaso de flor na janela da lavanderia. Pequenas doses de natureza em nossa cotidiano de quarentena”, lembra Cañas Martins, sócio da Metroquadrado Arquitetura, de Joinville (SC).

  • Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.
  • Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.
  • Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.
  • Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.
  • Projeto da Metroquadrado Arquitetura para uma agência une tecnologia de ponta na automação a espaços humanizados.

A volta dos cubículos?

Uma das mudanças mais visíveis no escritório pós-pandemia será a revisão do conceito open space, que há um bom tempo domina o mundo corporativo. Plantas, estantes e móveis serão usados como divisórias para separar bancadas e ambientes, com a finalidade de criar núcleos e aumentar o distanciamento social.

Pode parecer um retrocesso em relação à tendência open space que se disseminou no mundo corporativo nos últimos anos, mas, pelo menos momentaneamente, os escritórios abertos vão lançar mão de novos recursos para garantir a segurança dos trabalhadores, como os “cubículos”. A multinacional Steelcase desenhou uma linha de estações de trabalho com barreiras e divisórias. Outro recurso é o uso de plantas, além de separar os ambientes, aumenta a sensação de bem-estar e melhora a qualidade do ar.

| Vitra/Reprodução

Segurança e reorganização de layouts

Já em 2016 um estudo de pesquisadores das universidades de Oslo e Roma mostrava que 16% dos contágios por influenza ocorrem nos escritórios. Agora, entretanto, a preocupação com contaminações passa a estar no centro das discussões quando se pensa em um projeto corporativo. “É preciso diminuir o contato com utensílios e mobiliário de colegas, ter à disposição álcool para limpeza das mãos e de superfícies, não ficar constrangido em não cumprimentar ou em limpar as mãos, e claro, não ir ao ambiente de trabalho se tiver algum sintoma respiratório ou contato com alguém com sintomas gripais”, orienta Vinícius Ribas Fonseca, otorrinolaringologista do Hospital Otorrinos Curitiba.

Ao mesmo tempo em que aumentam as divisões, portas inúteis serão derrubadas, como já ocorre hoje nos banheiros dos aeroportos. O objetivo é reduzir ao máximo o contato com qualquer objeto, sobretudo os mais sujeitos à contaminação, como as maçanetas. Bancadas serão afastadas, mesas reorientadas para que fiquem em 90 graus uma em relação a outra e as cadeiras serão dispostas na diagonal para evitar que as pessoas fiquem cara a cara.

A segurança passa também pela difusão cada vez mais comum da tecnologia touchless, ou seja, sem toque físico, de acordo com estudo da empresa suíça de design Vitra. Será dada prioridade a dispositivos como telões para videoconferências ou elevadores, entre outros, acionados apenas por comandos vocais ou pelo celular. Torneiras com sensores devem se tornar ainda mais comuns nos banheiros compartilhados.

No projeto da arquiteta Aline Roman, a sala de atendimento de um consultório recebeu uma cuba para higienização das mãos.
No projeto da arquiteta Aline Roman, a sala de atendimento de um consultório recebeu uma cuba para higienização das mãos.| Leticia Akemi/HAUS

As mesas compartilháveis vão precisar de higienização após cada uso e as mesas individuais deverão ser mantidas limpas e organizadas e serão revestidas com proteções descartáveis para serem jogadas fora no fim do dia. Dispensers de álcool em gel serão instalados em pontos estratégicos para estarem sempre ao alcance. Novos sistemas de ventilação equipados com filtros vão contribuir para evitar a proliferação de possíveis contaminações no ar.

A escolha de materiais também vai exigir maior atenção. Superfícies macias e porosas vão dar espaço a revestimentos laminados e metais, tapetes antibactérias e antifungos, materiais autolimpantes por meio da nanotecnologia e tintas mais fáceis de limpar. O cobre, que tem função bactericida, também deve ganhar novas funcionalidades.

No consultório de psiquiatria em Curitiba, assinado pela arquiteta Aline Roman, do Estúdio Aline Roman, a preocupação com a  higiene foi ponto de partida do projeto. A sala em que atende o paciente recebeu uma cuba para higienização das mãos. Os espaços são divididos por drywall e por biombo. Os puxadores de metal das portas, que são mais sujeitos a acumular muita sujeira, foram substituídos por cavas.

As superficies são em fórmica, material que permite limpeza com qualquer produto e não tem porosidade. A cadeira usada para testes clínicos é em couro natural, por não ter desgaste e ser de fácil limpeza. Todo mobiliário é solto, permitindo retirada para limpeza do local. As tomadas ficam escondidas no drywall duplo – contribuindo para o isolamento acústico –  tornando as superfícies das paredes livres para limpeza.

Distanciamento

A imobiliária comercial Cushman & Waterfield desenhou para sua sede na Holanda o conceito “Six Feet Office”, um escritório com marcas no chão que garantem que os funcionários mantenham sempre “seis pés de distância”, isto é, cerca de dois metros, a distância recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Projeto Six Feet Office, na Holanda, de Cushman & Wakefield, propõe que trabalhadores fiquem sempre a dois metros de distância uns dos outros.
Projeto Six Feet Office, na Holanda, de Cushman & Wakefield, propõe que trabalhadores fiquem sempre a dois metros de distância uns dos outros.

Marcas no chão em volta das mesas ajudam os funcionários a não ultrapassarem o limite. Barreiras e divisórias separam mesas e bancadas, dificultando a disseminação de gotículas em caso de espirro.

Escritórios compartilhados

Modalidade que se disseminou no mundo inteiro nos últimos anos, o setor dos coworkings é um dos que mais sofre com as incertezas geradas pela pandemia. Ricardo Dória, fundador da Aldeia Coworking, fechou seus dois escritórios em março e não tem previsão para retornar as atividades. Para se preparar aos novos tempos, ele estuda como é feita a reabertura na Itália e na Espanha.

“No momento oportuno em que for possível retornar, vamos implementar mais distanciamento entre as mesas, capacidade reduzida, maior higiene dos espaços, controle de temperatura na entrada e obrigatoriedade de máscaras”, explica o empresário, que gerencia dois escritórios em Curitiba.

De acordo com Silvio Parucker, professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os escritórios compartilhados exigem uma nova e necessária configuração nos ambientes de trabalho, reuniões e nos espaços comuns, como copa, cozinha e banheiro. “O hall ou recepção terá um papel fundamental do controle e orientação de uso dos espaços”, afirma o especialista.

Eviete Dacol, proprietária do Inove Coworking, em Curitiba, acredita que, apesar da expansão do home office, haverá um retorno aos escritórios. “Trabalhar no isolamento provoca perda de concentração e de troca com os colegas”, afirma. A reabertura dos coworkings deve ser atrelada a alterações no layout dos espaços. “Revisão das estações de trabalho, luz natural e janelas vão ser priorizados, criação de espaços de decompressão, mais tecnologia e equipamentos de higiene”, frisa Eviete.

Coworkings buscam novas soluções para garantir a segurança em ambientes de trabalho compartilhados
Coworkings buscam novas soluções para garantir a segurança em ambientes de trabalho compartilhados

Escritório em casa

Apesar de causar uma reviravolta na rotina de muitas pessoas, a difusão do trabalho de casa não impactou o contingente de profissionais que já vinha trabalhando em home office desde antes da pandemia. O efeito da crise é apenas acelerar essa transição.

“Por isso, o ambiente de casa deve ser adequado. É importante ter cadeiras mais confortáveis e teclados ergonômicos, por exemplo. As empresas devem disponibilizar dispositivos eletrônicos e material para os funcionários trabalharem de casa”, afirma Luiza, da WSGN.

Não há regras para criar seu próprio escritório em casa, mas é essencial se atentar a alguns detalhes, como acesso à iluminação natural, ponto elétrico e mobiliário confortável. “O segredo é encontrar uma boa localização e se adaptar. Há quem prefira trabalhar completamente isolado e quem prefira estar no meio da sala. Vai de cada um”, explica a arquiteta Juliana Meda, que há 20 anos trabalha em home office.

Cômodo de apartamento de 380 m² foi transformado em espaço exclusivo de trabalho em projeto da arquiteta Juliana Meda.
Cômodo de apartamento de 380 m² foi transformado em espaço exclusivo de trabalho em projeto da arquiteta Juliana Meda.

Os projetos arquitetônicos vão  aliar cada vez mais as necessidades residenciais e comerciais. Já existe um termo para isso: resimencial. “No ambiente residencial é importante definir o local de home office, que poderá ser incorporado a um ambiente social, mas com possibilidade de isolamento acústico”, afirma Parucker, da UFPR.

Casas e apartamentos vão ganhar novas áreas, as limpas e as sujas, e novos rituais de acesso. “Talvez uma volta do hall de entrada como esse lugar de transição, de limpeza, onde o lavabo passa a ganhar uma importância ainda mais relevante”, diz Miguel . “E espaços multifuncionais que possam se adaptar a qualquer uso, em qualquer emergência”, recomenda o arquiteto.

Ao contrário do que se pode pensar, nos últimos anos os projetos residenciais que previam escritórios vinham diminuindo pelo medo das pessoas de levarem trabalho para casa, conta Juliana. “Agora tenho certeza que vai haver uma reviravolta.”

Como passa a maior parte do tempo trabalhando de casa e o home office está incorporado à rotina há muitos anos, um empresário precisou que um dos dormitórios de seu apartamento de 380 m² em Londrina fosse transformado em escritório. A reforma é da arquiteta Juliana Meda.

O estilo escolhido é neutro, com tons cobre e gianduia. Na estante são expostos objetos que contam histórias de família. Num canto há uma poltrona para leitura. O pé-direito é alto e atrás da escrivaninha fica uma grande janela que favorece a entrada de luz natural. O escritório fica na área íntima da casa e está ligado ao corredor que dá para os outros quartos e ao banheiro da suíte.

Um cômodo de serviço foi convertido em escritório onde trabalha um casal de empresários de Maringá. O espaço fica perto do hall de entrada e recebeu uma porta espelhada na entrada, ligando-o à area de estar.

O escritório conta com vista privilegiada da cidade e de áreas verdes. Um armário escondido atrás da parede de couro conta com tevê embutida. Uma biblioteca, o frigobar e a adega compõem o espaço que pode se transformar em área relax. A decoração segue uma linha minimalista, clean e contemporânea com tons grafite.

Projeto de apartamento de Curitiba por Sharise Gulin.
Projeto de apartamento de Curitiba por Sharise Gulin.| Leticia Akemi/HAUS

Em outro projeto de home office, assinado pela arquiteta Sharise Gulin, o conceito foi pensado na liberdade de movimento que os projetos coporativos buscam dar aos usuários. Uma porta de correr permite isolá-lo ou integrá-lo ao restante da sala de estar, a depender das necessidades.

O sofá Jader Almeida tem encosto apoiando a lombar, exatamente como os sofás corporativos. Quando aberto, o espaço dá a possibilidade de circular da mesa para o sofá e até a varanda desse apartamento em Curitiba.

Garagem vira escritório

Uma garagem foi reconvertida em sala de estar com escritório integrado nesse projeto residencial em Seattle, nos Estados Unidos. De dia, o espaço serve como estação de trabalho isolado do resto da casa e, à noite, se torna um ambiente para confraternizar e relaxar.

O bangalô tem duas portas-janelas que permitem a entrada intensa da luz natural e o ligam ao deque externo e ao pátio da casa. A escrivaninha é equipada com computador, cadeira ergonômica e luz artificial. Tevê, toca-disco, sofá e poltrona completam o ambiente, conferindo um ar descolado.


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