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O delivery de tudo e o novo apartamento
| Foto: Bigstock

Já moramos em cavernas. Hoje, moramos em apartamentos. Segundo Platão, na caverna gostávamos de ver filmes, numa espécie de cinema improvisado. Acorrentados uns aos outros não queríamos sair dali para nada, nem que nos dissessem que a vida lá fora é que era a tal.

Platão não disse exatamente isso (é meio ridículo ter que esclarecer, mas vai saber). Desconfio que os filmes eram do tipo western, quer dizer, sobre a vida selvagem. Platão não informa.

Bem, hoje também não saímos dos apartamentos. E aliás, ao contrário do pessoal da caverna, nem para buscar alimento. Ou remédios. Ou roupas; ou artigos para a casa, para os filhos, ou para o cachorro, ou o que for. É a era do delivery de tudo - assim mesmo à l’américaine.

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O delivery, como se sabe, começou com disk pizza, o solitário telefone que permitia que a única alimentação razoável de ser entregue chegasse sextas-feiras à noite. Durou uns bons anos. E vinha na lista telefônica, aquela pesadona, que ficava ao lado do telefone paleolítico com fio.

Para os críticos, o delivery de tudo foi a degeneração do disk pizza, o disk pizza levado às últimas consequências. O ramo de entrega cresce, a vida nas ruas decresce. Mas há seus inegáveis benefícios, ou não teria se imposto como fato corriqueiro de nossas vidas e isso se estenderá para muito além dos anos pandêmicos. Na verdade, o legado mais persistente da pandemia sobre os lares será a imensa digitalização da entrega de tudo.

A portaria do prédio virou agora uma central de entrega. Quase todos os novos empreendimentos imobiliários mais estruturados já nascem com área de recepção apropriada para volumes por apartamento, geladeiras e demais boxes de armazenamento, com controle por senhas e demais artefatos digitais. Em alguns apartamentos compra-se de tudo mesmo, sem força de expressão, fazendo a riqueza dos ditos marketplaces. Algumas famílias, sem tempo, paciência ou interesse, estão comprando toda a casa pela internet, isto é, todos os objetos do novo lar, num clique pelo celular.

Cada vez mais as pessoas compram de tudo (mesmo) pela internet.
Cada vez mais as pessoas compram de tudo (mesmo) pela internet.| Bigstock

Para muitos, sobretudo aqueles das novas gerações (algumas dessas letrinhas que tem por aí, Y, Z etc) ir a uma loja física é que é uma experiência das cavernas. Certa vez um jovem comentou comigo que precisava de um saleiro. Inocentemente comentei que ele poderia comprar isso a duas quadras de onde morava em alguns bons supermercados. Ele riu. Já tinha comprado pela internet. Um único saleiro. Achei espantoso. Ele achou espantoso o meu espanto. O que que tem? Nada demais. Vou comprar também o açucareiro, disse.

Das compras programadas às inesperadas, o delivery de tudo vai se impondo e transforma o prédio em um centro logístico, a verdadeira última milha. Calcule, por exemplo, o incessante fluxo de encomendas em condomínios grandes, com mais de 300 famílias comprando de tudo pela internet. A portaria não cessa de receber pacotes e a zeladoria do prédio torna-se um despachante de bens, um agente de cargas.

Só as cartas é que não chegam mais; nem as contas, agora todas digitais. Menos papel, mais embalagens. A caixa de correspondência está vazia, e os boxes cheios. E como na caverna, o gosto crescente pelo streaming de filmes, músicas, games nos deixa confortáveis em casa, sem querer sair para nada. Tudo muito bom. Mas como disse Platão (não, não disse), vamos sair às ruas, sempre que der. De vez em quando é bom comer uma pizza com amigos, num restaurante próximo. Nem que seja para falar dos filmes que, afinal, estamos vendo em casa, quando não no cinema. O bom urbanismo agradece.

*Marcos Kahtalian é sócio fundador da Brain Inteligência Estratégica

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