Em sua última entrevista em português, a rainha das curvas defendeu casas menos muradas e mais ousadia dos arquitetos

Arquiteta iraquiana Zaha Hadid falou com exclusividade para a HAUS em 2016 e mostrou-se feroz na cruzada pela fluidez total de seus edifícios. Foi severa nas críticas e alfinetou a tendência mundial de construir casarões enjaulados

A sociedade contemporânea não para e as edificações precisam evoluir com novos padrões de vida para corresponder às novas necessidades. Acho que a arquitetura contemporânea precisa ir além da arquitetura de blocos octogonais, repetição e compartimentação do século 20. E ir em direção a uma arquitetura do século 21, que responda às complexidades e dinamismo de nossas vidas. Fotos: Brigitte Lacombe/Zaha Hadid Architects/Divulgação

por Luan Galani

07/03/2019

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Não é exagero dizer que Zaha Hadid é uma das referências máximas de boa arquitetura contemporânea feita no mundo. Em 2004 foi a primeira mulher a levar para casa o Pritzker, a maior honraria da arquitetura internacional. Apesar de dividir opiniões, a arquiteta iraquiana de 65 anos e fã confessa de Oscar Niemeyer levantou construções de cair o queixo, com a linguagem forte, ousada e sinuosa que lhe era peculiar.

A arquiteta iraquiana foi a primeira mulher a levar um Pritzker para casa em 2004. Foto: Zaha Hadid Architects/Steve Double/Divulgação

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Você cresceu em Bagdá. O próprio arquiteto holandês Rem Koolhaas, com quem você trabalhou no início da carreira, disse certa vez que seu trabalho remete à caligrafia. Até que ponto a sua herança árabe influencia o seu design?

Se você olhar para os anos de 1960, quando eu vivi no Iraque, o país era uma república recente e estava passando por um período de construção da identidade nacional. E, como em muitos outros lugares em desenvolvimento naquele tempo, havia uma crença inquebrável no progresso e um grande senso de otimismo. Essas ideias de mudança, liberação e liberdade foram críticas para o meu desenvolvimento. Embora não existam referências formais diretas a minhas raízes culturais no meu trabalho, é pela matemática do mundo árabe que eu sou fascinada, pelo mix de lógica e abstrato.

Foi isso que a levou para a arquitetura?

Eu estudava matemática na universidade, em Beirute, no Líbano, e percebi que havia uma conexão entre a lógica da matemática, a arquitetura e o abstrato da caligrafia árabe. A fluidez que você vê na minha arquitetura é uma evolução dessa pesquisa. Então, meu irmão mais velho estava estudando em Oxford e me falou sobre a Architectural Association School of Architecture, em Londres. Resolvi visitar e fiquei. Havia um burburinho naquela época. Todo mundo estava à beira de fazer algo novo.

Não é segredo para ninguém que os pintores abstratos exerceram uma grande influência sobre seu trabalho. Mas quais são as suas inspirações hoje?

Os artistas russos tiveram uma influência significativa sobre mim. Eu primeiro descobri o trabalho de Kasimir Malevich [1878-1935] quando estudante. Eu me senti limitada pelo sistema tradicional de desenho da arquitetura e estava à procura de novos meios de representação. Eu peguei a pintura como uma ferramenta de design, e estudar o trabalho de Malevich me permitiu desenvolver a abstração como um meio para explorar e inventar espaço, usando perspectivas múltiplas e projeções em uma única tela para desenvolver ideias para meus projetos. Hoje minhas inspirações vêm da observação, do lugar, da natureza, das pessoas na cidade. É sempre como as pessoas vão usar o espaço. Nós frequentemente olhamos para os sistemas da natureza para conceber ambientes com coerência e beleza. Antigamente era olhando para a geologia e a arqueologia. Mais recentemente voltamos nosso olhar para a morfologia orgânica, células e biologia.

Você é uma grande fã das obras de Niemeyer. Como foi o primeiro contato com o trabalho dele e o que mais chamou atenção nos desenhos do brasileiro?

A sensibilidade espacial e o talento do Oscar Niemeyer [1907-2012] são únicos e insuperáveis. Suas obras me levaram para a arquitetura, onde continuo seguindo-o na cruzada por fluidez total em todas as escalas. Ele estava entre os primeiros arquitetos a falar sobre arquitetura orgânica, em como o design dos edifícios pode ser pensado, como se fosse um organismo unificado. Eu o visitei algumas vezes em sua casa no Rio. É uma obra de arte, e uma lição de como alcançar algo com linhas muito simples. Arquitetura é como escrever: você precisa editar e reeditar, de novo e de novo, até que pareça sem esforço.

No início de carreira você trabalhou com o Koolhaas. Qual foi a maior lição que você aprendeu com ele?

Eu estava incerta sobre o que eu realmente queria fazer até chegar no meu quarto ano da universidade. Foi aí que eu descobri que o mundo da arquitetura é excitante. O presidente da Architectural Association da minha época, Alvin Boyarski, ofereceu minha primeira plataforma para explorar minhas ideias, e Rem Koolhaas e Elia Zenghelis foram fundamentais como meus professores. A compreensão e entusiasmo realmente acenderam minha ambição e seu encorajamento me ensinou a confiar mesmo em minhas mais estranhas intuições. Uma delas foi meu desejo de sempre criar espaços fluidos. O Koolhaas foi quem notou que apenas os estudantes persas e árabes, como eu, conseguiam fazer rabiscos curvos. Por isso ele pensou na relação com a caligrafia.

A fluidez está no DNA da sua linguagem como arquiteta. Mas em que consiste o seu idioma arquitetônico?

A arquitetura não segue ciclos econômicos ou de moda. Segue ciclos de inovação gerados por desenvolvimentos sociais e tecnológicos. A sociedade contemporânea não para e as edificações precisam evoluir com novos padrões de vida para corresponder às novas necessidades. Acho que a arquitetura contemporânea precisa ir além da arquitetura de blocos octogonais, repetição e compartimentação do século 20. E ir em direção a uma arquitetura do século 21, que responda às complexidades e dinamismo de nossas vidas. Consequentemente, meu trabalho opera com conceitos, lógica e métodos que examinam e organizam padrões da vida contemporânea. A repetição e separação que definiu construções do último século foram substituídas por construções que integram, adaptam e engajam.

Centro cultural Heydar Aliyev, em Baku, no Azerbaijão, com fachada homogênea e cheia de movimento: a obra de 2013 é uma das mais representativas da arquiteta por fazer gritar a fluidez quase natural de seus edifícios. Foto: Zaha Hadid Architects/Riba Comms/Divulgação

Centro cultural Heydar Aliyev, em Baku, no Azerbaijão, com fachada homogênea e cheia de movimento: a obra de 2013 é uma das mais representativas da arquiteta por fazer gritar a fluidez quase natural de seus edifícios.
Foto: Zaha Hadid Architects/Riba Comms/Divulgação

Qual o maior desafio hoje para a arquitetura?

A sustentabilidade ecológica e a disparidade social são desafios da nossa geração. Mais de 50% da população do mundo vive nas cidades e este número cresce constantemente. As cidades são mais diversas. Como arquiteto, seu cliente não é mais uma única pessoa ou tipo de pessoa. Seu cliente é todo mundo. Isso é excitante e soma à riqueza do espaço cívico. Todas as construções deveriam oferecer um componente cívico, espaços públicos onde as pessoas podem se conectar umas com as outras. Centros de arte, óperas, escolas de dança, centros esportivos ou parque públicos, todos são vitais para a riqueza da vida urbana, o que elimina a segregação da nossa cidade.

E os arquitetos têm correspondido a esse desafio?

Tem havido um movimento em muitas cidades do mundo nos últimos anos direcionando as construções para espaços murados. Como arquitetos, temos de reagir a isso. Por anos, os arquitetos têm tentado livrar as cidades, abri-las,torná-las mais acessíveis e porosas. Construir essas comunidades enjauladas dentro das cidades, como pequenos Kremlins, é um tremendo passo para trás. Uma maneira muito arcaica de vida.

Alguns dos seus projetos mais recentes no Azerbaijão, Qatar e Japão foram alvos de severas críticas por diferentes motivos. Como você encara isso?

A arquitetura carrega consigo um inerente senso de vitalidade e otimismo, habilidade de conectar todo mundo e ancorar as comunidades. Os projetos que fizemos no Qatar e no Azerbaijão são todos cívicos e prédios culturais, lugares para todos se conectarem e experimentarem novas ideias. As cidades dão certo quando arte, cultura e novas possibilidades se combinam para criar um ambiente diverso e vibrante. O projeto do Estádio Al Wakrah, no Qatar, é um exemplo. Desde quando os trabalhos começaram em 2013, as equipes completaram 1,5 milhão de horas trabalhadas sem acidentes de trabalho, com acomodação perto do canteiro e seguindo altos padrões internacionais de saúde, segurança e bem-estar dos operários. O design do Centro Heydar Aliyev, em Baku, quebra com a arquitetura rígida e monumental da época soviética, tão prevalente na cidade, aspirando por expressar a sensibilidade da cultura azeri e do otimismo de uma nova nação.

Como foi desenhar coleções para o universo da moda, como Lacoste e Melissa?

Adoramos nossas colaborações com o mundo fashion. As peças são mais rápidas de executar do que os projetos arquitetônicos e inspiram criatividade. Também permitem que expressemos nossas ideias por meio de diferentes escalas, algo que enxergamos como parte de um processo contínuo de investigação do design. Elas transmitem o sentimento do dia, do momento, como música, literatura e arte, enquanto a arquitetura é um longo processo até o final da obra.

Estação de trem Nordpark, em Innsbruck, na Áustria, inspirada em formações naturais de gelo da região montanhosa em que está localizada.

Estação de trem Nordpark, em Innsbruck, na Áustria, inspirada em formações naturais de gelo da região montanhosa em que está localizada.

Quais são seus os projetos atuais?

Estamos trabalhando com projetos excitantes ao redor do mundo, incluindo as estações de trem em Nápoles e Riad, o Grande Teatro em Rabat, o Instituto Sleuk Rith no Camboja, e projetos residenciais na Austrália, Ásia, Nova York e Miami.

E o projeto no Rio? Qual foi a inspiração?

A Casa Atlântica, no Rio de Janeiro, é um novo empreendimento comercial na Avenida Atlântica, na praia de Copacabana. As formas naturais dos morros do Rio e as praias criam uma qualidade elástica e maleável dentro do tecido urbano da cidade, enquanto o dinamismo de Copacabana, com seu ritmo e energia, é um dos espaços públicos mais importantes. O design da Casa Atlântica prossegue com a composição formal libertadora e a fluidez de espaço inerente dentro da rica tradição modernista brasileira. Nosso projeto trabalha dentro das restrições de altura e distância dos prédios adjacentes. E estabelece uma ordem fluida definida por sua estrutura, que se transforma e se expande em cada nível, criando sacadas, enquanto divide cada andar em unidades residenciais separadas.

Complexo empresarial Galaxy, na área do Soho, em Pequim, inaugurado em 2012: composição panorâmica de cinco volumes separados, mas contínuos e interligados por passarelas alongadas.

Complexo empresarial Galaxy, na área do Soho, em Pequim, inaugurado em 2012: composição panorâmica de cinco volumes separados, mas contínuos e interligados por passarelas alongadas.

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