Das muralhas aos portais modernos: como os marcos urbanos mudaram ao longo do tempo

Ter muralhas implicava em ter portas – que se tornam referenciais urbanos definidores

Óbidos, em Portugal, é uma das cidades europeias que foram definidas também pelas muralhas e portas. Foto: Marialba RG Imaguire/Acervo pessoal

por Key Imaguire Jr.

20/08/2018

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Algumas antigas cidades europeias guardam ainda trechos de suas muralhas defensivas – com orgulho, visto que devem ter custado recursos e empenho de toda a população. Na Antiguidade, um conquistador, ao entrar numa cidade, com frequência mandava demolir suas muralhas – deixando-a indefesa. Nos tempos bíblicos, as muralhas de Jerusalém – e outras urbes importantes da mesma época e região – foram derrubadas e reconstruídas muitas vezes.

Exemplos emblemáticos são Mantova na Itália e Alba Julia na Romênia, onde os esquemas defensivos estão integrados à paisagem urbana e parecem ainda proteger as cidades.

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Ter muralhas implicava em ter portas – que se tornam referenciais urbanos definidores: eram o acesso e a saída, controlados com rigor. Mas eram também o espaço jurídico: aí se reuniam os “homens bons”, notáveis e veneráveis. As decisões tomadas diante deles, eram inquestionáveis – mais que as feitas pela nossa pesada burocracia cartorial. Nas cidades sem muralhas, esse prestígio jurídico poderia ser uma praça, a fonte de água ou a porta da Igreja Matriz.

Óbidos, em Portugal, é uma das cidades europeias que foram definidas também pelas muralhas e portas. Foto: Marialba RG Imaguire/Acervo pessoal

Os “portais” contemporâneos perderam essa conotação, e a segurança de quem estava protegido do lado de dentro e exposto do lado de fora. Eles são, simplesmente, visuais e informativos: procuram dar, aos visitantes, uma noção do que a cidade pretende ser, de como quer ser conhecida. “Você está entrando numa cidade onde se produz principalmente tal coisa”. Como muitas cidades têm nomes de personagens históricos que, vejam só, não são necessariamente nativos do lugar, o portal pode informar algo essencial sobre eles: o porque foram considerados heróis patronos.

Como se percebe, não há como escapar ao kitsch nas composições dos portais construídos. Para um monumento onde a função de porta é apenas simbólica, as configurações vão buscar um imaginário fantasioso, sem conteúdo, ou de conteúdo oficioso.

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Esse tipo de abordagem projetual foi possível a partir da aceitação do pós-modernismo como tendência estética posterior ao Modernismo. O cansaço e o esgotamento da vertente modernista, hiper-racionalista, vigente nos anos sessenta e setenta, abriu a possibilidade de uma estética de referências e historicismos. O futuro a aceitará como a marca do nosso tempo: o fim do século 20 e o início do 21, serão a “Era do Kitsch”.

Uma impostação fantasiosa, talvez divertida, mas meio irresponsável em relação ao conteúdo cultural.

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