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Foto: Jonathan Campos
Foto: Jonathan Campos| Foto:

Ilex domestica, Ilex mate, Ilex sorbilis, Ilex vestita, Ilex mattogrossensis, Ilex theaezans. Esses são alguns dos principais registros sob os quais a erva-mate foi batizada nas mais diversas tentativas de estudar a planta, que hoje é tão presente na cultura e na gastronomia do sul do Brasil.

Foi com a vinda do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire ao país que, em 1820, o arbusto verde de folhas com formato de gota ganhou o nome sob o qual ficou mais conhecido: Ilex paraguariensis. Mas essas não são as únicas nomenclaturas da erva-mate. Ela também é chamada de Ilex curitibensis, e não é à toa. Seu cultivo foi tão importante para a história da cidade, de maneira geral - que há quem defenda que suas folhas deveriam estampar o brasão do município, ao lado do trigo, da parreira e do pinheiro.

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Na verdade, o chamado “ouro verde”, que ajudou a enriquecer tantas famílias a partir da segunda metade do século 19, é ostentado por outra bandeira: a do Estado do Paraná, onde, aí sim, divide espaço com o pinheiro. O motivo é inquestionável: não fosse pela erva-mate, o Paraná talvez nunca tivesse se separado de São Paulo e ganhado o status de província.

Obra de João Leão Pallière, tropa carregada de mate descendo a serra, cerca de 1860. Foto: Pintores da Paisagem Paranaense/Reprodução
Obra de João Leão Pallière, tropa carregada de mate descendo a serra, cerca de 1860. Foto: Pintores da Paisagem Paranaense/Reprodução

A planta, que chegou a responder por 85% da economia paranaense, garantiu uma autonomia financeira que resultou na sua emancipação política, em 1853. O auge do ciclo da erva-mate foi, também, “a receita para que o Paraná desse os primeiros passos rumo à industrialização no século 19, com o beneficiamento e empacotamento da erva visando o mercado interno e externo”, explica o jornalista e pesquisador Diego Antonelli, autor de quatro livros sobre a história do Paraná.

Breve história do cultivo do mate

O hábito de consumir a erva-mate já fazia parte da cultura indígena antes mesmo da chegada dos portugueses e espanhóis à América do Sul, mas foi adotado pelos colonizadores quando estes perceberam os potenciais econômicos da planta. “No século 18, já havia registros da extração da erva para fins econômicos. Foi nessa época que o governo português passou a se interessar por essa atividade. No século seguinte, o chamado ciclo da erva-mate ganhou forças no estado por meio do beneficiamento do mate realizado em engenhos – sobretudo no litoral e em Curitiba”.

O primeiro desses engenhos, de acordo com o pesquisador, foi montado pelo espanhol Francisco Alzagarray, que chegou a Paranaguá em 1820. “A partir daí outras pessoas foram aderindo a essa prática. Para se ter uma ideia, em 1853 havia em Morretes 47 engenhos de erva-mate e em Curitiba, 29”, conta.

Carroça carregada de erva-mate descendo a Serra do Mar. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba
Carroça carregada de erva-mate descendo a Serra do Mar. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba

A conexão entre as regiões de Ponta Grossa, Curitiba e Morretes consolidou o que é chamado pelos historiadores de Rota do Mate. Foi em torno deste trajeto que as famílias que se sustentavam com a produção da Ilex foram construindo suas casas, galpões, engenhos e comércios.

Esse processo contribuiu para que as cidades fossem tomando forma. Em Curitiba, foi dessa maneira que se estabeleceram bairros como Batel, Alto da Glória e Centro Cívico, onde foram construídas as residências de alguns dos grandes produtores desta cultura.

Agostinho Ermelino de Leão Jr. durante o embarque de barricas vazias, que seriam devolvidas para o transporte de erva-mate. Foto: Arquivo Casa da Memória.
Agostinho Ermelino de Leão Jr. durante o embarque de barricas vazias, que seriam devolvidas para o transporte de erva-mate. Foto: Arquivo Casa da Memória.

Os barões da erva-mate

Com a crise de 1929, o chamado "ciclo do mate" terminou no Paraná, mas isso não significa que esta cultura deixou de ser importante para o Estado.

Pelo contrário: embora tenha perdido o monopólio de principal fonte de renda dos paranaenses, ela continuou sendo produzida com força. Em 2018, o Paraná respondia por 87% da produção nacional, segundo um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Folhagem da erva-mate
Folhagem da erva-mate| Jonathan Campos

Além de uma geografia que favorece o crescimento da Ilex, parte do motivo que colocou o Paraná no roteiro da produção e exportação foi a atividade das grandes famílias de ervateiros, que enxergaram o potencial daquele produto - alguns dos quais são lembrados até hoje, como é o caso da família Leão, que empresta o nome à Matte Leão.

Segundo o pesquisador Khae Lhucas Ferreira Pereira, da Fundação Cultural de Curitiba, os Leão contribuíram para a reinvenção do consumo da planta. “Eles não só mantiveram por mais de um século sua produção, como também reelaboraram a cultura do mate reinventando a forma de consumo do chimarrão, como quando apresentaram a erva já tostada, em caixa de flandres, para servir em xícaras, e o chá gelado em copo, que é conhecido nacionalmente”.

A história da família Leão se mistura à própria história da erva-mate no Paraná. Ao adquirir o primeiro grande engenho ervateiro em Curitiba, Francisco Fasce Fontana, casou-se, em 1882, com Maria Dolores de Leão, irmã de Agostinho Ermelino de Leão Jr., o empresário à frente da Matte Leão, responsável por construir o Palacete Leão Jr. - atual Espaço Cultural BRDE. Com Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, Leão Jr. e Francisco Fontana formam a tríade dos grandes barões da erva-mate no final do século 19.

Vista aérea do Palacete dos Leões na década de 30. Tombada como patrimônio histórico, a construção é uma das heranças do período da erva-mate. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba
Vista aérea do Palacete dos Leões na década de 30. Tombada como patrimônio histórico, a construção é uma das heranças do período da erva-mate. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba

Mais do que produtores e exportadores, os ervateiros foram responsáveis, naquele momento, por fomentar o desenvolvimento econômico, industrial, urbano, arquitetônico e cultural da cidade.

Nessa época, foram construídos o Passeio Público, a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e a própria Universidade Federal do Paraná. Os mesmos também abraçavam a responsabilidade de divulgar os produtos aqui fabricados, participando de feiras e exposições nacionais e internacionais e recebendo, em suas casas, visitas ilustres como a da Princesa Isabel e a do presidente Afonso Pena.

Veja no infográfico a seguir as principais heranças do ciclo da erva-mate para Curitiba e o Paraná.

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