Retrato histórico do Palacete dos Leões. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba
Retrato histórico do Palacete dos Leões. Foto: Divulgação/ Fundação Cultural de Curitiba| Foto:

Não fosse pela erva-mate, o chamado “ouro verde” que crescia nessas terras, o Paraná nunca teria sido Paraná. Hoje uma unidade federativa independente, a região só se tornou província e, depois, Estado, alcançando sua autonomia em relação a São Paulo, justamente por conta da importância que adquiriu o cultivo, a comercialização e exportação da Ilex paraguariensis.

Mais do que as agora consolidadas linhas fronteiriças paranaenses, a importância desta planta para a história do sul do Brasil está marcada também na arquitetura, por meio dos poucos exemplares remanescentes da época de ouro da erva-mate, o final do século 19 e começo do 20.

Alguns dos edifícios residenciais construídos pelos grandes produtores de erva-mate, em pé até hoje, ostentam o que o arquiteto Key Imaguire batizou de “arquitetura dos ervateiros”. São assim chamados pelos pesquisadores do tema porque são construções marcadas por elementos que têm uma espécie de identidade própria, que ajuda a reconstruir uma imagem do que eram o Estado e sua capital à época.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE| Guilherme Pupo

“O Paraná nunca estudou, nunca fez um trabalho de pesquisa consistente, que eu tenha conhecimento, sobre os galpões da indústria da erva-mate, que devem ter sido muito mais extensos e muito mais complexos do que chegamos a conhecer, com ferramentas e equipamentos há muito superados e que a essa altura já devem ter desaparecido. O que sobrou foram as casas que os ervateiros fizeram, isso foi o grande testemunho que ficou do ciclo da erva-mate”, justifica o arquiteto.

De acordo com ele, construções como o Solar do Barão e o Palacete Leão Jr. – atualmente Espaço Cultural BRDE, ambas da virada do século 19 para o 20, são representativas pela qualidade dos projetos, repletos de referências adquiridas tanto pelos engenheiros e arquitetos envolvidos, quanto pelos próprios moradores - nestes casos, a família Leão e o Barão do Serro Azul, Ildefonso Pereira Correia, respectivamente. “Eram pessoas que já tinham livre instrução, conheciam pelo menos a região importadora da erva-mate, no Rio da Prata, muitos já tinham visitado a Europa, tinham uma noção do que seria uma arquitetura de boa qualidade”.

Solar do Barão, residência de Ildefonso Pereira Correia, é um dos exemplares da chamada arquitetura dos ervateiros. Foto: Antonio More/Arquivo Gazeta do Povo
Solar do Barão, residência de Ildefonso Pereira Correia, é um dos exemplares da chamada arquitetura dos ervateiros. Foto: Antonio More/Arquivo Gazeta do Povo

Tantas influências faziam com que as construções resultassem em grandes mosaicos de elementos advindos das mais diversas assinaturas, consagrando de vez na cidade o período eclético, ainda que esse também adotasse formas variadas de acordo com cada residência. “Na primeira fase, os ervateiros construíram uma arquitetura urbana de tradição mais alemã. O melhor exemplo é o Solar do Rosário, mas há outras no São Francisco. Mais tarde, se transitava para uma arquitetura mais italiana, menos urbana, mais à vontade no terreno”.

Exemplares e características

Mas que elementos, no fim das contas, caracterizam esta arquitetura dos ervateiros de que fala o professor? Dizer que eram casas do período eclético não significa, para Imaguire, que sejam sinônimos. “Não há uma assinatura específica dos ervateiros. Eles viviam num período em que começava a predominar o eclético, com abertura a influências externas, mas a verdadeira marca da identidade destas construções é o alto padrão de qualidade. Eram os barões da erva-mate, que tinham pretensões aristocráticas e precisavam expressar isso nas suas moradias”, reforça Imaguire.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE

Em uma pesquisa realizada nos anos 80 em coautoria com as também arquitetas Elizabeth Amorim de Castro, Marialba Rocha Gaspar Imaguire e Rosina Coeli Alice Parchen, o grupo buscou analisar algumas das construções do período para tentar reconhecer alguns marcadores desta época.

Depois de observar 18 residências, eles cravaram que a mais antiga das construções era a casa de Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, que data de 1885, embora não excluam completamente a possibilidade de que alguma tenha sido finalizada antes disso.

A mais recente seria a casa de Ascânio Miró Filho, finalizada em 1935. Esse intervalo de precisos 50 anos, portanto, é o que concentra o período mais prolífero da arquitetura dos ervateiros, com edificações no Batel, Alto da Glória, Centro, em regiões como a Praça Senador Correia (próximo ao Terminal Guadalupe), a Rua Desembargador Westphalen e a Avenida Marechal Floriano Peixoto.

Compoteira no topo do Palacete dos Leões, um dos exemplares da arquitetura dos ervateiros. Foto: Arnaldo Alves/ Arquivo Gazeta do Povo
Compoteira no topo do Palacete dos Leões, um dos exemplares da arquitetura dos ervateiros. Foto: Arnaldo Alves/ Arquivo Gazeta do Povo

Os autores dos projetos também ajudavam a compreender o prestígio das obras: Cândido de Abreu e Ernesto Guaita, nomes essenciais para a história de Curitiba e do Paraná, assinaram algumas das obras.

Com um único pavimento habitável, a maior parte das casas dos ervateiros é marcada pela existência de um porão, que eleva a altura da construção em geral. "O sótão é usado para compor a volumetria e destacar o volume das torres, acrescendo imponência à casa. A opção pela cobertura em telhas é unânime, sendo provável que algumas tenham utilizado originalmente telhas escamadas, depois substituídas pelas francesas", revela o relatório da pesquisa divulgada pelos arquitetos, ressaltando duas exceções no que diz respeito à cobertura: a casa de José Lima, que tem cobertura plana, e a Vila Odette, que opta pelas placas de ardósia.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE

Os ornamentos trazem o que os arquitetos chamam de um "vocabulário eclético" que remete a um aspecto palaciano: parte das construções opta por vãos em arco pleno, pilastras, balaustradas e platibandas, gradis e guarda-corpos de escadarias em ferro batido.

Embora estas características não estejam presentes em todas as unidades que os arquitetos analisaram na época, em resumo, eles definem a residência modelo dos ervateiros como aquela "situada no centro do terreno ou no alinhamento, de um só pavimento, planta retangular coberta por telhado de quatro águas. Estaria elevada sobre o nível da rua por um porão alto; a circulação acontecendo por um corredor central, distribuindo a área social para a frente, os aposentos íntimos para as laterais e os serviços aos fundos".

Por fim, as casas trazem ainda pelo menos uma escadaria, que em geral ajuda a acentuar a monumentalidade das construções, finalizadas com detalhes de decoração de assinatura essencialmente eclética.

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