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Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE| Foto:

Em uma caminhada no entorno do Passeio Público, é possível parar na lateral do parque - o primeiro aberto ao público de Curitiba - e reparar nas placas indicativas que se encontram na esquina entre a Rua Luiz Leão e a Avenida Agostinho Leão Júnior.

Seguindo por esta última, em quatro quadras estará na Rua Maria Clara e, em cinco, na Rua Ivo Leão. Virando à esquerda, em alguns minutos se chega à Avenida João Gualberto - esta, por sua vez, perpendicular à Comendador Fontana e paralela à Avenida Cândido de Abreu. Sem esquecer de mencionar também a Travessa Rui Leão, um pouco abaixo.

Estas vias não foram nomeadas desta forma sem sentido, muito pelo contrário. Os ilustres curitibanos que emprestam seus títulos às ruas em questão não apenas foram cidadãos importantes para a história de Curitiba, como também viveram ali mesmo, no perímetro delimitado pelas travessas, ruas e avenidas citadas acima.

Foto: Reprodução/Google Maps
Foto: Reprodução/Google Maps

Neste trecho do bairro Alto da Glória, estão algumas construções seculares que marcam a história do Paraná, algumas inclusive tombadas como Patrimônio Estadual, compondo o que informalmente alguns historiadores e arquitetos chamam de Vila Leão, conforme explica Khae Lhucas Ferreira Pereira, pesquisador da Fundação Cultural de Curitiba.

“A região no entorno do palacete chegou a ser conhecida como Vila Leão, por reunir em um mesmo perímetro várias construções ligadas à família. O próprio Palacete Leão Jr, a Capela da Glória, a casa ao lado que pertencia ao Desembargador Agostinho Ermelino de Leão (pai de Leão Jr.) e a casa da Maria Dolores Leão (frente)”, detalha.

Segundo a socióloga Amélia Siegel Corrêa, co-responsável pela pesquisa “Palacete dos Leões: a história de uma casa”, financiada pelo Fundo Municipal de Cultura da FCC, as famílias ervateiras se instalaram em duas regiões da cidade: o Batel e o Alto da Glória. “No caso do Alto da Glória, à época de construção do Palacete Leão Jr., a região era considerada fora da cidade. O bairro se desenvolveu a partir da instalação das famílias Leão, Veiga e Fontana.”

Foto: Guilherme Pupo/Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/Divulgação BRDE

Conheça a seguir um pouco sobre a história de cada uma destas construções.

Casa do Desembargador Leão

No grande terreno que pertencia à família Leão, a primeira construção foi a que pertenceu ao Desembargador Agostinho Ermelino de Leão, juiz de Curitiba. Na colina, que ainda era situada fora do perímetro urbano, ficava o antigo sobrado do Barão de Holleben, engenheiro alemão que visitou Curitiba por volta de 1870. “O Desembargador adquire esta propriedade para instalar sua família naquela chácara, uma região pouco concorrida, mas que em 1873 é cortada por carroções que tomam por ali o acesso à Estrada da Graciosa para o litoral”, explica Pereira.

 A casa do Desembargador Leão ficava onde hoje se encontra o estacionamento do Palacete dos Leões. Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
A casa do Desembargador Leão ficava onde hoje se encontra o estacionamento do Palacete dos Leões. Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE

Segundo o pesquisador, no convívio familiar, os Leão promoviam tertúlias e teatros. “A esposa do Desembargador, Maria Bárbara, até o final da vida estaria entretendo as crianças como a doce “vovó da chácara”, tocando piano nos saraus. Por conta do patriarca, o juiz que também era dramaturgo, a família preparava a encenação de peças e dispunha de um baú de fantasias, tendo um espaço para apresentações chamado “Theatro da Glória””.

As atrações se estendiam até mesmo aos ilustres visitantes que chegavam à propriedade. “Em 1884, quando esteve em visita à Curitiba, a Princesa Isabel foi conduzida ao Alto da Glória. Na chácara do Desembargador Leão, sua alteza se admirou com o jardim, com mais de mil pés de pêssegos e a enorme variedade de árvores de mate. A princesa ainda galgou o mirante do sobrado e conseguiu uma vista panorâmica da cidade, como ela registrou em seu diário”.

Embora a edificação em si já não exista mais, a memória foi conservada nos documentos históricos, registros de imprensa e nos relatos dos descendentes do desembargador.

Palacete Leão Jr.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE

A construção mais emblemática da Vila Leão, o Palacete Leão Jr. é uma importante edificação, reconhecida em 1979 como Unidade de Interesse de Preservação (UIP) de Curitiba e, em 2003, Patrimônio Cultural do Paraná.

Inaugurado entre 1901 e 1902, o prédio construído em estilo eclético e um dos exemplares mais bem conservados atualmente da arquitetura dos grandes ervateiros curitibanos pertenceu a Agostinho Ermelino de Leão Jr., filho do Desembargador Leão.

A residência foi projetada pelo cunhado Cândido de Abreu, irmão de Maria Clara Abreu de Leão, com todo o requinte digno de um barão da erva-mate. Atualmente, abriga o Espaço Cultural BRDE, recebendo eventos e mostras culturais de artistas das mais diferentes vertentes.

Palacete dos Leões em um dos últimos eventos sociais realizados na fase residencial da mesma. Foto: Acervo Cassiana Lacerda
Palacete dos Leões em um dos últimos eventos sociais realizados na fase residencial da mesma. Foto: Acervo Cassiana Lacerda

A intensa vida do Palacete Leão Jr.

Há 15 anos transformado em Espaço Cultural BRDE, o Palacete dos Leões não estranha a agitação que resulta das exposições culturais, eventos e visitas de alunos de escolas e universidades que acontecem no local. Isso porque, desde sua fundação, a residência foi sempre muito movimentada. “A família, desde quando se estabeleceu naquela colina, mantinha uma vida social intensa e oferecia frequentes recepções a convidados ilustres. No Palacete, em 1906, foi hospedado o Presidente da República Afonso Pena, o que sugere que era o ambiente mais anfitrião que Curitiba dispunha naquele período em que os padrões da Belle Époque começavam a embelezar o cenário residencial”, diz o pesquisador Khae Lhucas Ferreira Pereira.

Presidente Afonso Pena foi um dos visitantes mais ilustres a terem passado pelo Palacete Leão Jr. Foto: Acervo Cassiana Lacerda
Presidente Afonso Pena foi um dos visitantes mais ilustres a terem passado pelo Palacete Leão Jr. Foto: Acervo Cassiana Lacerda

Considera-se que o primeiro ciclo da moradia do Palacete contempla o período desde sua inauguração, entre 1901 e 1902, quando ali nasceu Maria Clara, filha caçula do primeiro casal residente - Maria Clara e Agostinho Ermelino de Leão Jr. Já o segundo ciclo da moradia corresponde ao período posterior ao falecimento destes, entre 1935 e 1979.

Segundo a socióloga Amélia Siegel Corrêa, o número de moradores oscilou durante as primeiras décadas. “Sabemos que a mãe de Maria Clara Abreu de Leão, a Sra. Maria Cândida Guimarães Ferreira de Abreu (Filha do Visconde de Nácar) morou no Palacete até sua morte, em 1926. Em 1918, quando Maria Dolores Leão de Macedo morreu de gripe espanhola, seu marido, Tobias de Macedo Júnior, casou com sua irmã Maria Clara (Tia Caia), que criou juntos os dois filhos da irmã e os seus três filhos, todos no Palacete. É provável que nos momentos de maior lotação, cerca de 15 pessoas ali moravam”.

Evento social realizado no Palacete Leão Jr. Foto: Acervo Cassiana Lacerda
Evento social realizado no Palacete Leão Jr. Foto: Acervo Cassiana Lacerda

O último familiar a residir no Palacete foi Agílio Leão, que, de acordo com a historiadora e professora da Universidade Federal do Paraná Cassiana Lacerda, encerrou o segundo ciclo residencial do local, uma vez que o tamanho e a complexidade de conservação o levaram a colocar o imóvel à venda. Antes disso, no entanto, a família Leão celebrou uma última vez o espaço. “Antes dessa iniciativa [a venda], os familiares fizeram a última festa no Palacete. Esta festa foi chamada de “Remembering” e algumas das descendentes usaram trajes de D. Sinhazinha, como era chamada Maria Clara Leão”, diz Cassiana.

Capela da Glória

Capela da Glória foi construída em 1895. Foto: Albari Rosa
Capela da Glória foi construída em 1895. Foto: Albari Rosa

Um importante atrativo de visitantes e também de moradores para o Alto da Glória, a Capela da Glória foi construída em 1895 para atender a família. Recém restaurada, é uma Unidade de Interesse de Preservação de Curitiba que ostenta uma arquitetura em estilo neoclássico.

“No auge do ciclo da erva-mate, a virada do século 20, a colina foi arrematada pelo torreão da Capela da Glória, chamando um séquito de palacetes que se levantaram ao seu redor. O templo reporta à glorificação da Virgem Maria e ao nome do bairro “Alto da Glória”, título que o Desembargador tomou como recordação daquele primitivo engenho de mate para alcunhar a colina onde assentou sua família”, reflete Khae.

Casas de Dolores Leão

Irmã de Agostinho Ermelino de Leão Jr., Maria Dolores de Leão casou-se com o comendador Francisco Fasce Fontana e viveu parte de sua vida na chamada Mansão das Rosas, residência da família deste importante ervateiro paranaense, responsável pela construção do Passeio Público.

Maria Dolores Leão Fontana, Francisco Fasce Fontana e o filho Francisco Fido Fontana. Foto: Reprodução/ Acervo da família
Maria Dolores Leão Fontana, Francisco Fasce Fontana e o filho Francisco Fido Fontana. Foto: Reprodução/ Acervo da família

A residência foi demolida na década de 1970 e deu lugar a dois edifícios, restando dela apenas o portal, que pode ser visto em frente de onde hoje se situa o Colégio Estadual do Paraná.

Depois do falecimento do comendador, a viúva “casa-se em segundas núpcias com o advogado mineiro Bernardo da Veiga, também ervateiro que constrói duas residências, em 1896 e 1904, nos dois lados da Capela da Glória”, conta o pesquisador Khae Pereira.

Vila Odette

Foto: Washington Takeuchi/Arquivo pessoal
Foto: Washington Takeuchi/Arquivo pessoal

Mais recente das construções da Vila Leão, a Vila Odette é uma construção que existe discretamente escondida, em parte, pelo bosque da propriedade. Foi construída quando o filho de Leão Jr., também Agostinho Ermelino de Leão, assume o comando da Matte Leão e se casa com Odette Pereira de Leão.

Construída entre 1923 e 1928, a edificação, hoje Unidade de Interesse de Preservação de Curitiba, é assinada pelo engenheiro Eduardo Fernando Chaves, o autor do Castelinho do Batel e de outras construções emblemáticas da época. Diferente das demais, especialmente do Palacete Leão Jr., que tem estilo eclético, a Vila Odette ostenta em sua arquitetura as referências à Normandia, com a presença do falso enxaimel em todo seu exterior.

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