Conheça o Scandinese, estilo que une inspirações japonesas e escandinavas na decoração

Tendência do design de interiores une simplicidade, cores sóbrias e materiais naturais, mas não é unanimidade entre os profissionais

Base neutra, minimalismo, materiais naturais. Algumas das características do Scandinese, em projeto de Giuliano Marchiorato. Foto: Eduardo Macarios/Divulgação

por Luciane Belin

22/09/2019

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O que a região da Escandinávia, no norte europeu, e o Japão, uma ilha no oriente asiático, poderiam ter em comum? São territórios de continentes diferentes, com culturas distintas e histórias que quase não convergem. E, ainda assim, o “universo Pinterest” da decoração conseguiu encontrar similaridades entre ambos para construir o que agora vem se convencionando chamar de japandi ou scandinesepela junção dos nomes em inglês: scandinavian + japanese.

A designer de interiores australiana Stephanie Powell diz que as principais correspondências entre as culturas que inspiram o Japandi estão no fato de que ambas são “mínimas, simples e muito bem projetadas”. “Vivemos em um mundo onde as pessoas não querem contribuir para muito mais lixo e querem peças de qualidade que sejam feitas para durar, que sejam lindamente criadas para que tragam alegria ao nosso uso diário”.

Preto e branco. O contraste é uma marca desta nova tendência. Projeto residencial da Bloco B arquitetura, assinado por Camilla Sbeghen Ghisleni, Gabriela Fernandes Fávero e Júlia De Fáveri. Foto: Pedro Caetano/Divulgação

A simplicidade e o planejamento são, de acordo com ela, necessidades que contribuem para o reforço de tendências como o scandinese. Luiza Loyola, especialista da WGSN, empresa previsora de tendências, diz que tanto a pegada escandinava quanto a japonesa vêm conquistando terreno no país, assim como a junção dos dois também deve agradar. “Este estilo equilibra uma mistura de culturas japonesas e escandinavas, abraçando a simplicidade, a sutileza e o bem-estar. Ele é simples, limpo e arejado, com construções funcionais e métodos de juntas de madeira que celebram uma estética artesanal”, explica.

Um pé em cada continente

Segundo Luiza, “a principal característica do estilo japonês na decoração é a funcionalidade dos objetos e do espaço com um todo. A simplicidade das formas, a luz natural e a inclusão da natureza no ambiente. O estilo escandinavo, de certa forma, é semelhante ao japonês, pois também é marcado por uma estética que prioriza somente o essencial, livre de excessos – menos é mais”.

Apesar disso, japonês não é sinônimo de minimalismo e é preciso cuidado para não reduzir toda uma cultura nacional a um aspecto que não remete a ela diretamente. Segundo o arquiteto Gabriel Kogan, não existe um único “estilo” japonês. O que muitos arquitetos consideram como uma identidade da arquitetura nipônica atualmente é, provavelmente, uma herança das décadas de 1990 e 2000. “Depende muito de para quem você está olhando e em que período. Talvez os maiores expoentes hoje sejam Toyo Ito e seus discípulos, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, que mudaram muito sua própria arquitetura a cada década”.

Para agregar a sensação de profundidade e aconchego, pontos de luz se encontram com marrom, cinza, preto e tons metalizados. Projeto de Giuliano Marchiorato. Foto: Eduardo Macarios/Divulgação

Na identidade de ambos, predominam, segundo Kogan, superfícies brancas, uma grande abstração de materiais e arquitetura em espaços muito pequenos. “São arquiteturas muito sociológicas, desafiadoras. Eles querem pensar novos modos de vida, contemporâneos, então há continuidade espacial, fluidez espacial, uso do vidro, os espaços sempre parecem contínuos uns aos outros”, destaca.

Na Escandinávia, por sua vez, o clima frio ajudou a moldar a arquitetura, mas não apenas isso. Surgido de países nórdicos como Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia, o que se chama hoje de “estilo escandinavo” começou a aparecer por volta de 1900 na Exposição de Artes e Indústrias de Estocolmo, mas seu auge foi alcançado na década de 1950, conforme explica o arquiteto Giuliano Marchiorato.

Em sua identidade, está uma decoração aconchegante e natural, com linhas sóbrias, acabamentos de alta qualidade, além de cores neutras que transmitem simplicidade e conforto. São, de acordo com Marchiorato, ambientes práticos, sem excessos. “Geralmente, a base de todo o ambiente é branca (ou em tons claros, como bege ou off-white), linhas retas, poucos e bons elementos, sem excessos. As cores claras são um ponto chave desse estilo, cores que refletem luz são importantes para deixar os ambientes claros independentemente da iluminação externa”, detalha.

Profundidade é um dos resultados quando se tem um projeto trabalhado com o branco e detalhes em preto. Projeto residencial da Bloco B arquitetura, assinado por Camilla Sbeghen Ghisleni, Gabriela Fernandes Fávero e Júlia De Fáveri. Foto: Pedro Caetano/Divulgação

Tendência genuína ou fetiche mercadológico?

Assim como outras tendências que ganharam vida nas últimas duas décadas –  o DIY (do it yourself, na tradução literal “faça você mesmo”) é um exemplo –, o scandinese recebeu um nome e conquistou vida no Pinterest. Isso não significa que seja unanimidade. Há um risco de abraçar tendências apontado pelo arquiteto Gabriel Kogan: o de se reduzir o conhecimento a respeito de toda a arquitetura de um país milenar a um único aspecto, de maneira equivocada.

Segundo ele, tanto o Japão quanto os países escandinavos têm “economias e inteligências construtivas ligadas ao saber fazer ancestral. A construção em madeira na Escandinávia data de milhares e milhares de anos. Similar à cultura construtiva em madeira japonesa. Há uma economia de linhas e texturas que está na arquitetura contemporânea e moderna tanto no Japão quanto na Escandinávia. Mas um único “estilo” unindo as duas coisas, isso eu não acredito que exista”.

Cores claras e presença de elementos naturais. Projeto de Giuliano Marchiorato. Foto: Eduardo Macarios/Divulgação

Assim, ao mesmo tempo em que a união de diferentes inspirações pode criar um todo harmonioso e interessante, o resultado também pode ser um grande Frankenstein de culturas, em que é difícil encontrar uma identidade. O que acontece, por exemplo, quando o japandi chegar ao Brasil e ganhar notas da tropicalidade brasileira?

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