Quer renovar a casa sem gastar? Reaproveite móveis usados de um jeito criativo

Enxergar valor e potencial estético no que foi descartado é uma atitude sustentável, contemporânea e atende pelo nome de reciclagem criativa. Entre na onda do upcycling e renove seus ambientes

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

por Luan Galani

10/01/2020

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Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A frase famosa do químico francês Antoine Laurent Lavoisier, considerado o pai da química moderna, explica, quem diria, um conceito do design contemporâneo: o upcycling. A reciclagem criativa, termo em português, trata de reutilizar materiais e objetos que seriam descartados, dando uma segunda vida ou função à peça, para evitar a produção de um novo objeto e a eliminação de outro.

Para exercitar isso, HAUS convidou quatro profissionais – os decoradores Lupércio Manoel e Souza e Yara Mendes, o arquiteto Marcelo Vacção e a designer de interiores Isabella Torquato Melendres – para garimparem peças nas lojas de móveis usados da Rua Riachuelo, região central de Curitiba, e dar a elas nova vida em quatro ambientes diferentes.

Em duas semanas, eles, acompanhados da equipe de reportagem, vasculharam a região atrás de peças com potencial para serem reformuladas. Avisada de antemão sobre a proposta, a maioria dos comerciantes das lojas de móveis concordou em participar, negociou muito e deu verdadeiras aulas sobre a história dos móveis.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

A estreia foi de Lupercio Manoel e Souza, que, apesar de ficar tentado a escolher uma penteadeira ou um sofá com curvas e pés palito, típico dos anos 1960, foi fisgado por uma bancada de marceneiro. Isabella Torquato Melendres veio de Santa Catarina para Curitiba só para a matéria e se esmerou na negociação da mesa lateral desejada. Queria pintá-la, mas o dono da loja não deixou. Teve de escolher outra. Marcelo Vacção, por sua vez, quase encheu um caminhão com todas as suas pretensas apostas, mas ateve-se à ideia inicial de criar um ambiente com um toque dos anos 1950 e 1960. E Yara Mendes se mostrou uma inveterada admiradora das lojas de usados: contou curiosidades sobre a região, vasculhou os cantos escondidos e chegou até a namorar um triciclo antigo para dar de presente ao neto. Em sua proposta, o toque final seria dado por um saxofone que estava à venda e acabou sendo disputado por outras três pessoas. A lei da oferta e da procura falou mais alto e outro interessado acabou levando o instrumento.

É mundialmente reconhecido que o termo upcycling foi cunhado oficialmente em 2002 pelo arquiteto norte-americano William McDo­nough e pelo químico alemão Michael Braungart no livro “Do Berço ao Berço – Refazendo a maneira como fazemos as coisas” (Cradle to Cradle – Remaking the way we make things), um manifesto que revolucionou a maneira de enxergar a sustentabilidade na decoração e na arquitetura. Eles perceberam que, há mais de 200 anos, desde a revolução industrial, adotou-se um modelo de produção linear baseado em extrair, fabricar, utilizar e descartar.

“Por isso, upcycling significa estimular um método de produção inteligente e sem desperdícios, em que o fim da vida útil de um determinado produto representa o recomeço e a criação de outro novo e ainda melhor, em que os materiais possam ser recuperados ou reutilizados”, explica Braungart em entrevista exclusiva direto de seu escritório em Hamburgo, na Alemanha. “É desejável que funcionemos em ciclos, como a natureza, que faz isso sem restrições há 3,8 bilhões de anos e sem gerar algo inútil e tóxico como o lixo.”

No cenário internacional, os irmãos Campana são os porta-vozes mundiais da reciclagem criativa, como destaca o empresário João Livoti, da Desmobilia, que também é designer formado em desenho industrial. “Há mais de 20 anos, materiais descartados renascem e são enobrecidos nas mãos do duo de designers, que dão novo significado aos objetos do cotidiano”, pontua o empresário. São poltronas e outras peças compostas por bichos de pelúcia, papelão, fios emaranhados, pedras, madeira, entre outras centenas de materiais. No prefácio do livro “Campanas” (Editora Bookmark, 2003, 445 páginas), a curadora Maria Helena Estrada destaca que “Fernando e Humberto andam pela cidade, são atraídos por vendedores de rua e por lojinhas de bric-à-brac (móveis e objetos usados), tiram do cotidiano popular a inspiração para suas criações, percorrem o mundo e retornam para o campo – Brotas, a cidadezinha onde cresceram. Esse ir e vir constante traz como resultado uma obra de matriz brasileira e expressão universal”.

Direto da fábrica

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Uma bancada de marceneiro com morsas frontais e laterais (instrumentos para segurar ou apertar itens a serem trabalhados), da Nova Prata Móveis Usados e Antigos. O que seria, normalmente, uma das principais ferramentas de trabalho dos marceneiros, virou bancada de um cantinho gourmet para o decorador Lupercio Manoel e Souza, que desistiu de todas as outras peças de que havia gostado ao bater os olhos nela. “A peça é neutra, versátil e elegante. Tudo depende da ousadia do criador. Na proposta, ela foi o norte e nenhuma mudança extra foi necessária”, explica o decorador. A bancada foi ladeada por cadeiras Comeback com pés Sled da Kartell, da Kraft Design. E, em uma extremidade, os pratos de porcelana e as cervejas artesanais. Na outra, a panela de ferro fundido Le Creuset azul caribe 24 cm e o cooktop portátil elétrico em vidro cerâmico da Electrolux. No topo, pendente Spina branco com três lâmpadas, da Novit Light Design. Para completar a ambientação, um quadro de Susana Más, do Depósito Santo Antônio, e a cabeça de rinoceronte em papel machê, da Kraft Design

Mais sustentável

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Na ambientação assinada pelo arquiteto Marcelo Vacção, a sustentabilidade foi exercida em sua plenitude de forma, conteúdo, conceito e modus operandi. A começar pela parede, que foi revestida com vinil plástico vermelho reaproveitado de banners que iriam para o descarte. Nos móveis garimpados na Seculus Antiguidades, a mesinha de canto foi lixada e o tampo pintado com tinta automotiva vermelha, e a banqueta para pés foi lixada, para recuperar os pés em madeira natural, e recebeu um revestimento de grama sintética, uma proposta inusitada para o objeto. “A regra foi não ter regra. Mantive a dignidade e a história das peças, porém consegui dar cara nova e uma segunda vida às peças e aos materiais”, afirma Vacção. Destaque ainda para os chifres de cervo, para o cinzeiro suspenso dos anos 1950 e para os cinzeiros coloridos de Murano”.

Clima de boudoiroir

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Esqueça aquele velho conceito de hall de entrada com aparadores ou espelhos pendurados na parede. A proposta de Yara Mendes ressignificou a penteadeira Art Déco em imbúia e provou que peças como esta não precisam ficar restritas ao boudoir, espaço íntimo de embelezamento. “O hall permite uma composição completamente independente do resto da decoração da casa, por isso escolhi essa peça, que havia sido descartada pelos antigos donos”, diz. O ambiente transita por vários tons de azul por meio do papel de parede da Orlean, da poltrona customizada, ambos do Espaço Goya, e do tapete indiano Lori Blue de lã azul da Persépolis.

Nova chance

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Em sua proposta de cantinho de descanso e leitura, a designer de interiores Isabella Torquato Melendres usou duas peças garimpadas na Riachuelo: uma cadeira Thonart de madeira maciça vergada, na D’Lucca Móveis Usados, e uma mesinha de apoio em estilo provençal, da Alvorada Móveis Usados e Antiguidades. Para começo de conversa, Isabella, que veio de Santa Catarina só para encarar o desafio da revista, decreta: nunca jogue uma cadeira fora. “Dê sempre uma segunda pensada, mude algo ou dê a ela uma função diferente.” Foi o que ela propôs na ambientação, que qualquer um pode fazer com o que tem em casa. Na cadeira, ela fez um bordado em ponto cruz, que dá um toque lúdico ao móvel. “Não precisa fazer isso em todas. Faça apenas em algumas cadeiras do conjunto, o que surpreende quem olha”, sugere a designer. Para a mesinha, ela lixou, pintou três vezes com tinta acrílica acetinada azul e, nos pés, utilizou spray dourado de forma randômica.

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