Projeto une designers renomados e artesãos da Amazônia na produção sustentável de móveis

Desenvolvido pelo Instituto BV Rio, Madeira & Design Sustentável levou nomes como Carlos Motta e Paulo Alves para o meio da floresta amazônica para oficinas com trabalhadores locais

Projeto Design & Madeira Sustentável levou designers à floresta amazônica para trabalharem juntos em peças exclusivas. Foto: Divulgação/BV Rio

por Luciane Belin*

03/09/2019

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O Instituto BV Rio lançou no último dia 22 durante a feira MADE de design, em São Paulo, um documentário produzido ao longo de 2018, fruto do projeto Design & Madeira Sustentável. Idealizado pela própria organização, o programa conectou duas pontas importantes de um mesmo processo — designers brasileiros de renome e moradores de uma comunidade da floresta amazônica que atuam com o manejo de madeira sustentável.

Com início em abril do ano passado, o projeto levou dez profissionais da área para uma oficina moveleira em uma comunidade em plena floresta amazônica para compartilhar suas técnicas e seu conhecimento na manipulação do material.

“O nosso papel é exatamente fazer essa ponte entre o mercado de alto design e a população ribeirinha, que é, na verdade, a verdadeira dona da floresta, de onde vêm os produtos. Ao conectar estes dois mundos complementares, a gente passa a entender como aquilo chegou na nossa casa, somos mais críticos”, resume Bruno Maier, gerente de desenvolvimento de negócio da BV Rio.

Foto: Divulgação/ BV Rio

O projeto contou com a participação dos designers Carlos Motta, Fernando Mendes, Paulo Alves, Leonardo Lattavo, Claudia Moreira Salles, Guido Guedes, Rodrigo Calixto, Ricardo Graham, Alessandra Delgado, Roberta Rampazzo e Julia Krantz.

Ao longo de 12 meses, todos eles passaram um período em Belterra (PA), na Floresta Nacional do Tapajós, onde a Movelaria Anambé se transformou em verdadeira escola comunitária: ali, os designers ofertaram oficinas de capacitação, trabalharam junto aos artesãos no sentido de desenvolver sua criatividade para pensar novas formas de trabalhar com a madeira excedente, e produziram, juntos, peças assinadas pelos designers e pelos próprios moradores locais.

Banco Marajó em Jatobá, peça assinada por Carlos Motta e produzida durante as oficinas. Foto: Divulgação/BV Rio

Pratos produzidos durante a oficina com Carlos Motta. Foto: Divulgação/BV Rio

Algumas das obras produzidas em conjunto entre os ribeirinhos e os designers saíram da floresta e ganharam as galerias, lojas de decoração e as feiras de design, entre elas a mais importante do mundo, a Semana de Design de Milão, que contou com a exposição de três objetos produzidos durante o projeto Design & Madeira Sustentável.

Para o designer Paulo Alves, a oportunidade de trabalhar com estas pessoas agregou não apenas o valor de se trabalhar em um projeto comunitário, mas também possibilitou aos designers a experiência de manejar a madeira em plena floresta.

Foto: Divulgação/BV Rio

“A gente tem essa tradição que vem desde a época da colonização, de tirar a tora de madeira e levar sei lá pra onde, então quem sai prejudicado é justamente quem está lá onde a árvore cresceu, o verdadeiro dono da madeira. Mas assim pudemos utilizar a madeira dentro da floresta, criar o mobiliário, ali mesmo”, frisou.

O designer explica que, durante sua imersão na moveleira, buscou trabalhar com os artesãos questões de aproveitamento e de descobrir novas possibilidades com material residual. “Nestas moveleiras, sobra uma quantidade enorme de resíduo — metade da madeira é vendida, e o restante é descartado. Então pensamos em utilizar essa matéria-prima que não teria valor comercial nenhum e capacitar as pessoas dali para fazer novos produtos”.

Já a designer Julia Kranz destacou a importância de usar e divulgar a madeira sustentável. “Poder desenvolver um trabalho junto com uma comunidade, junto com pessoas daqui, fazer com que eles também possam crescer, que a gente possa crescer junto, isso pra mim é muito legal”, disse a designer em vídeo divulgado pelo instituto BV Rio.

Segunda fase

Agora, com a primeira fase do projeto já concluída, a próxima etapa já está em planejamento e deve incluir novos designers ou a inserção de outros tipos de conhecimento.

Podemos também capacitar em termos de gestão, logística, embalagem. A gente sente que ainda existe um espaço grande para crescer, porque de fato [os artesãos locais] nunca foram empresários, não têm essa veia com naturalidade, é algo que tem que ser treinado, a naturalidade com que trabalham a madeira não necessariamente é a naturalidade com a qual se faz negócio”, destaca Maier.

Foto: Divulgação/BV Rio

Ele acredita que expandir o Madeira & Design Sustentável pode trazer grandes benefícios para a expansão do uso da madeira legal e o combate à ilegalidade que permeia muitas das trocas comerciais na Amazônia.

“Uma consequência muito positiva é que muitos designers terceirizaram o projeto para eles, então hoje a cooperativa tem clientes de produtos extremamente sofisticados, para galerias de arte, lojas de decoração até mesmo fora do Brasil. São lugares em que eles dificilmente chegariam sem um intermediário”, explica.

Foto: Divulgação/BV Rio

*Especial para Gazeta do Povo.

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