Livro encontrado nas Ruínas de São Francisco reúne receitas médicas do século 18

"Formulário Médico" foi encontrado em uma arca da Igreja de São Francisco de Curitiba, atuais Ruínas de São Francisco

Foto: reprodução/Fiocruz

por Aléxia Saraiva

06/02/2018

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Formulário Médico, encontrado em uma arca da Igreja de S. Francisco de Curitiba e atribuído aos jesuítas em 1703″. A inscrição feita à mão abre o livro histórico encontrado no que hoje são as Ruínas de São Francisco, em Curitiba. Rodeadas por um passado que não permitiu que a Igreja de São Francisco de Paula fosse terminada, elas foram a primeira casa que se tem notícia do livro que em 2017 entrou para o Programa Memória do Mundo, da Unesco, ao ser considerado patrimônio documental da humanidade.

Foto: reprodução/Obras Raras Fiocruz

Foto: reprodução/Obras Raras Fiocruz

O livro traz 225 páginas manuscritas com receitas de remédios e emplastros que tratam doenças da época. Cada receita inclui a dosagem certa dos ingredientes, seu modo de preparo, indicações e instruções para uso. O livro está catalogado na Seção de Obras Raras da Biblioteca de Manguinhos, no Rio de Janeiro, desde os primeiros anos da formação do acervo, criado em 1900. A biblioteca integra o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo a responsável pela seção que abriga o livro, Maria Cláudia Santiago, a Fiocruz fez estudos históricos e materiais que comprovaram que a obra data do período entre o final do século 17 e início do 18. O papel e a tinta usados são compatíveis com o período.

Responsável da Seção de Obras Raras da Fiocruz, Maria Cláudia Santiago, com o manuscrito. Foto: Raquel Portugal / Icict / Fiocruz

Responsável da Seção de Obras Raras da Fiocruz, Maria Cláudia Santiago, com o manuscrito. Foto: Raquel Portugal / Icict / Fiocruz

As raízes do “Formulário Médico”

As únicas pistas que se tem do passado do livro estão nele próprio. Além da inscrição indicando seu achado em uma arca, em Curitiba, há apenas uma outra informação: o carimbo de posse de um ex-dono, Oliveira Catramby. Mais conhecido como Joaquim Catrambi, o empresário é famoso por ter ganhado a concessão para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no estado de Rondônia, em 1906. No ano seguinte, no entanto, repassou a concessão ao americano Percival Farquhar por não conseguir levar o empreendimento à frente.

Inauguração de trecho da rodovia Madeira-Marmoré, em Rondônia, no ano de 1912. Foto: reprodução

Inauguração de trecho da rodovia Madeira-Marmoré, em Rondônia, no ano de 1912. Foto: reprodução

Nesta mesma obra, Oswaldo Cruz foi responsável por estudos sanitários na região onde aconteceu a construção da ferrovia. “Acreditamos que o próprio Catramby tenha presenteado Oswaldo Cruz com o livro na ocasião da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mas não temos registro disso”, explica Maria Cláudia.

Já em posse do cientista, o livro teria passado a fazer parte do acervo pessoal de Oswaldo Cruz, que posteriormente deu origem à biblioteca onde a obra se encontra atualmente.

A medicina do século 18

A especialista conta que a obra é um marco histórico importante na história da medicina, já que relata o que era praticado à época no país. E, mesmo que a autoria seja atribuída aos jesuítas, as receitas presentes no “Formulário Médico” misturam hábitos das principais culturas que formaram a população brasileira: a indígena, a africana e a europeia.

Foto: reprodução/Fiocruz

Datado do século 18, livro é inteiramente manuscrito. Foto: reprodução/Fiocruz

“Ele vai retratar como a cultura se enraizou com as palavras e com as práticas que até hoje permanecem. [No livro] você tem visivelmente uma medicina acadêmica concebida nas universidades europeias — já que no Brasil elas ainda não existiam — associada ao próprio conhecimento popular da terra, das pessoas que moravam aqui e observavam a utilização dessas ervas na cura e no tratamento das doenças”, conta Maria Cláudia.

Uma das receitas que mostram essas práticas é a Triaga Brasílica, na época produzida na Escola Jesuítica da Bahia. Muito antiga, ela ganha no receituário ingredientes do território brasileiro. “Ela é como uma panaceia, uma garrafada, e era usada para as mais diversas doenças, como ‘mordedura de cobra'”, explica a pesquisadora.

Segundo informações da biblioteca, o livro contém receitas para doenças como varíola, sífilis e tuberculose. Inclui também tratamentos para outros males comuns no período, como azia, cólicas e dor de dente.

Antigo colégio dos jesuítas, em Salvador, onde era produzida a Triaga Brasilica. Foto: Reprodução/Frond, Benoist

Antigo colégio dos jesuítas, em Salvador, onde era produzida a Triaga Brasílica. Foto: Reprodução/Frond, Benoist

Programa Memória do Mundo

Em 2017, o “Formulário Médico” foi selecionado pela Unesco para ser inscrito no Registro Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo. Com mais nove obras escolhidas no edital, o objetivo do programa é “assegurar a preservação das coleções documentais de importância mundial, por meio de seu registro na lista do patrimônio documental da humanidade, democratizar o seu acesso e criar a consciência sobre a sua importância e a necessidade de preservá- lo”. Com isso, a importância do achado fica preservada.

“Ele é um livro que vai contextualizar e retratar uma parte da história do Brasil de uma forma muito original. Manuscrito, único e não-publicado, é muito importante ele ter sido incluído [no programa]”, conclui Maria Cláudia.

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Foto: reprodução/Raquel Portugal/Fiocruz

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