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Área verde privativa passa de desejo a imperativo para a compra do novo imóvel
| Foto: Bigstock

"Eu quero uma casa com jardim". Esta simples declaração bem poderia ser uma síntese do que grande parte dos novos compradores de imóveis imagina quando fala da casa dos seus sonhos. Uma casa com jardim: mas pode ser também um apartamento. A ênfase recai mais na palavra “jardim” do que no tipo do imóvel. O que os clientes estão dizendo através de diversas investigações qualitativas que empreendemos é que desejam mais verde; mais natureza, mais espaços abertos e verdejantes em suas moradias. Daí a ascensão das varandas na composição dos imóveis, uma espécie de novo espaço “gourmet”.

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Não é à toa que nos apartamentos novos há uma tipologia que é disputadíssima: o garden, ou aquele antigo apartamento térreo revisitado por um anglicismo. O garden é agora dotado de um terraço privativo em que o morador pode fazer seu jardim, seu paisagismo, sua área de convívio. Tudo em espaço livre à céu aberto, ou se quiserem, o garden seria uma pequena casa com quintal, em um apartamento. Não é sem razão que há muito tempo temos insistido com os desenvolvedores para que os novos projetos se voltem não apenas para a sustentabilidade, mas também para o paisagismo. O verde vende, senhores - e faz bem, uma boa alma acrescentará. E há, também, é claro, os projetos que avançam ainda mais nessa linha, como o paradigmático Bosco Verticale, em Milão, e suas contrafações (alguns bem, outros muito malsucedidos, dê uma olhadinha no Google). E de forma mais ainda associada à natureza, há o aparecimento singular dos projetos filotáticos, isto é, inspirados nas formas das plantas, como as obras de Saleh Masoumi e demais. O estudioso Stefano Mancuso dedicou todo um capítulo do seu incrível "A Revolução das Plantas", ao que chamou de “arquiplantas” – recomendo vivamente a todos, nem que seja para entender como nossa Victoria Amazonica – a Vitória Régia - salvou a Exposição Universal de Londres de 1851 de um fiasco memorável. Foi de um jardineiro e botânico – Joseph Paxton – o projeto que viabilizou a construção de uma estrutura pré-fabricada em ferro fundido e vidro de 90 mil m² em poucos meses, para honra da rainha.  Até então 245 projetos haviam sido descartados quando Paxton inspirou-se na vitória regia. Não falamos mesmo à respeito de uma “planta” arquitetônica, a tal planta baixa?

Bosco Verticale, em Milão
Bosco Verticale, em Milão| Bigstock

Vendedores de casas e de lotes de terreno há muito tempo sabem que o morador da nova casa ou sobrado sonha mesmo em ter um quintal próprio só seu, um “espacinho”, onde possa ficar à vontade, reunir os amigos, olhar o céu. Isso já era verdade antes da pandemia; agora só aumentou esse desejo. Parece que o período de enclausuramento em casa ampliou essa necessidade de espaços verdes, e mesmo, acreditem, para muitos, houve a descoberta da jardinagem, do cultivo das flores e plantas. Não é apenas o pet que requer atenção, como todo criador de flores saberá. É claro que estamos aqui longe de tomar o gardening como essa verdadeira paixão que é, por exemplo, na Inglaterra. Mas, cada vez mais urbanos, temos desejo de maior convívio com os espaços naturais, ainda ou talvez sobretudo, pela cada vez mais sentida presença dos problemas ambientais que vem alarmando o mundo. Uma nostalgia, talvez, do grande maravilhamento que é a natureza do Brasil e que, como sabemos, encontra-se com problemas.

Uma casa com jardim é então a possibilidade de, em qualquer que seja o imóvel da família, que possa existir aquele pequeno canto onde se deixar ficar, livre dos zooms da vida, longe do imperativo celular, para que a casa volte a ser aquilo que sempre deveria ter sido: um refúgio, um abrigo. Como escreveu Bachelard no seu "Poéticas do Espaço": é preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. O jardim é um centro de simplicidade. Cultura vem de cultivo, sempre é bom lembrar.

Construtores e arquitetos afinados com essa ideia já estão de fato caminhando em direção às propostas mais orgânicas de projetos. Nós já podemos ver isso em Curitiba, em alguns novos desenhos arquitetônicos que surgem em nossa paisagem urbana. Vocês devem se lembrar que Voltaire, ao final de seu "Cândido", escreveu que "é preciso cultivar nosso jardim". Melhor ainda se isso for em sua nova casa, é o que nossas famílias estão dizendo, para o bem estar geral de todos e o bom proveito das suas novas aquisições.

* Marcos Kahtalian, é sócio fundador da Brain Inteligência Estratégica.

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