Café em cápsula impacta 14 vezes mais o meio ambiente; solução passa por hábito de consumidores

Porcentuais de reciclagem aumentaram nos últimos anos, mas dependem sobretudo do engajamento de quem compra e consome

Centro de Reciclagem da Nespresso: material vindo dos 100 pontos de coleta da marca é reciclado; índice neste ano é de 23%. Foto: Deividi Correa/Ag News

por Isadora Rupp*

07/10/2019

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Disponível ao toque de um botão, o café em cápsulas se popularizou rapidamente no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o segmento cresceu cerca de 40% nos últimos cinco anos, e 8% dos lares já têm máquina de café, de acordo com a consultoria Euromonitor. Experimentar novos tipos da bebida de maneira rápida e cômoda, no entanto, também trouxe a preocupação com a reciclagem desses resíduos.

De fato, trocar o popular café passado no filtro de papel pela cápsula é 14 vezes mais prejudicial ao meio ambiente. O dado é do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que comparou em um pesquisa o impacto ambiental entre os métodos. “Dá para afirmar que o impacto do papel é menor, tomando como base os aspectos consumo de energia e matéria-prima virgem. Para uma tonelada de papel produzida com madeira de reflorestamento, há geração de 22 kg de resíduos. Já o mesmo montante de alumínio [material usado nas cápsulas] gera 183 kg. Os materiais poliméricos também consomem mais energia, sem mencionar que o primeiro é um recurso renovável, os demais, não” diz a pesquisadora e chefe do Centro de Tecnologias Geoambientais do IPT, Cláudia Teixeira.

O processo de reciclagem

Apesar de as marcas contarem com programas de reciclagem, logística reversa e de coleta de cápsulas, há controvérsias sobre a real capacidade de destinar corretamente esses resíduos.

Fora isso, é necessário contar sobretudo com o engajamento do consumidor, para que ele leve aos pontos de coleta. Mesmo em cidades com programas municipais de coleta seletiva, não há garantia de que elas sejam recicladas. “Na esteira dos recicláveis, na maioria das vezes, só os plásticos rígidos entram, os flexíveis acabam indo para aterros sanitários”, explica Renata Ross, gerente de marketing e relacionamento da Terra Cycle, empresa especializada em reciclagem de materiais de difícil descarte, como esponjas de louça, por exemplo.

Terra Cycle é parceira de marcas como L’or e Melita; consumidor pode enviar material pelos correios. Foto: Divulgação

Já a ABIC é categórica em dizer que as cápsulas são todas recicláveis, seja qual for o material (a maioria das marcas utiliza uma mistura de plástico e alumínio – a Nespresso utiliza apenas alumínio). “As cápsulas são compostas por material não perigoso e similar ao utilizado em diversas embalagens disponíveis no mercado para produtos alimentícios”, frisa a associação.

Segundo Renata Ross, é difícil falar de forma simplista se o processo de reciclagem das cápsulas é mais complexo, pois cada marca utiliza diferentes materiais e formatos. No entanto, um dos fatores que encarece a reciclagem das cápsulas é o manuseio. “Mesmo você tendo uma cápsula de café praticamente toda feita de alumínio, no final do dia é a soma de uma matéria-prima que não é orgânica com uma orgânica.

Mesmo no melhor dos cenários, quando você tem a cápsula de alumínio, ainda sobra a borra do café, que pode ser compostada. São dois materiais interessantes, o problema é fazer essa separação e o custo logístico. Por isso, as cápsulas de café têm sido tão criticadas.”

O papel das empresas

Uma das marcas mais populares no Brasil e no mundo neste segmento, a Nespresso conta com um centro próprio para a reciclagem das cápsulas 100% alumínio, material escolhido pela empresa por preservar melhor o frescor do café e também por ser totalmente reciclável. O espaço fica ao lado do centro de distribuição, na Região Metropolitana de São Paulo, para facilitar a logística com os caminhões que fazem o transporte das mercadorias; são esses mesmos veículos que trazem as cápsulas deixadas pelos consumidores nos 100 pontos de coleta da marca.

No processo de reciclagem é retirado, sem água, o resto do pó do café: as cápsulas são secadas naturalmente e passam por uma máquina que corta o material grosseiramente; depois passa por uma esteira com trepidação que separa o pó do café do alumínio.

Foto: Deividi Correa/Ag News

Para a gerente de criação de valor compartilhado e comunicação corporativa da Nespresso do Brasil, Claudia Leite, o modelo de negócio seguido pela marca (com a venda direta em lojas próprias e não em supermercados) facilita o diálogo sobre a responsabilidade do cliente. Em 2016, a Nespresso reciclou no Brasil 8,6% do que é vendido; neste ano o porcentual é de 23%. “Isso está aquém do que gostaríamos, mas comemoramos o crescimento. O consumidor está entendendo a responsabilidade compartilhada.”

Em nota, a TRES, grupo que engloba a marca de café Três Corações, informa que também são 100 os pontos de coleta distribuídos por capitais, além da coleta em casa – o cliente porém precisa fazer a separação correta dos resíduos, juntar pelo menos 100 cápsulas e verificar a disponibilidade pelo site antes de solicitar o serviço. Recentemente, a empresa incluiu pontos de coleta em Fernando de Noronha (PE) e Jericoacoara (CE). Já a Terra Cycle é parceira das empresas Café Pilão, L’or e Melita. “São provavelmente as únicas em território nacional, pois o é possível enviar para nós por correio de qualquer lugar do Brasil”. A Dolce Gusto tem parceria com a Rede Pão de Açúcar para a coleta das cápsulas – no site da empresa há a lista de lojas, disponível somente em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.

As cápsulas são as únicas vilãs?

Apesar da complexidade no processo de reciclagem e de o produto ser um novo tipo de lixo, não é possível afirmar que ela seja, sozinha, a mais nova vilã ambiental. “Todo tipo de consumo é, se formos pensar no meio ambiente e na forma com a qual nós consumimos hoje. O que precisamos rever é o modelo de consumo como um todo se quisermos frear o problema ambiental”, frisa Renata Ross.

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*especial para Gazeta do Povo

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