Estudo questiona sustentabilidade de patinetes elétricos nas cidades

Pesquisa realizada por Universidade da Carolina do Norte aponta que fabricação e transporte para recarga dos patinetes elétricos são os fatores que mais impactam no meio ambiente

Estudo norte-americano aponta que manutenção dos patinetes elétricos tem impacto ambiental maior que diversos outros modais. Foto: Bigstock

por Gazeta do Povo

03/09/2019

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Os patinetes elétricos chegaram ao Brasil em 2019 com a proposta de tornar mais eficientes os trajetos da chamada last mile — aquele último trecho que falta para chegar em casa, do ponto de ônibus até a sua rua, por exemplo. Eles vêm na leva de alternativas à mobilidade urbana que prometem tornar os deslocamentos mais práticos e sustentáveis. Mas será que são mesmo?

Nem tanto. Isso é o que afirma um estudo realizado pela Universidade da Carolina do Norte publicado em maio pela revista científica “Environmental Letters Research”. O artigo aponta que, na verdade, os veículos de mobilidade pessoal (VMP) causam mais impacto ambiental durante seu ciclo de vida do que outros tipos de transporte como ônibus, bicicletas e carros que tenham rendimento menor do que 11 km/litro de gasolina.

A metodologia da pesquisa investiga a emissão de gases desde a produção do patinete até o seu fim, envolvendo materiais, fabricação, transporte, uso, carregamento e descarte. Dentre uma série de variáveis, os pesquisadores calculam qual o impacto ambiental com base em milha percorrida por passageiro.

Foto: Ride/Reprodução

Os resultados apontam que são dois os principais fatores da emissão de gás carbônico. O primeiro é relativo ao processo de fabricação do patinete. Os principais materiais e componentes dos patinetes analisados incluem alumínio, aço e lítio. Com o mal uso e descuido dos usuários e cidadãos, o tempo de vida útil dos patinetes cai vertiginosamente — o que, além de produzir mais lixo, leva a uma maior produção de patinetes.

O segundo fator vem do processo de recarregar as baterias dos patinetes. Partindo do fato de que os patinetes seriam recolhidos diariamente e depois devolvidos aos seus locais — independentemente se os patinetes estão descarregados ou não — os pesquisadores verificam uma grande emissão de gás carbônico.

Embora o estudo tenha sido realizado com base em dados específicos de Raleigh, Carolina do Norte, a pesquisa afirma que os resultados da pesquisa são válidos para uma ampla variedade de locais, já que a localização da cidade pouco importa no resultado final. “Descobrimos que os impactos ambientais do transporte do patinete do fabricante até o local de uso final são triviais e as possíveis diferenças nas emissões da rede para transportá-lo produzem pequenas alterações nos resultados gerais”, afirma a pesquisa.

Foto: Grin/Divulgação

Como melhorar?

O estudo aponta que abordagens alternativas poderiam reduzir bastante os impactos ambientais observados. Utilizar alumínio reciclado na fabricação de novos patinetes é uma das que mais teria impacto positivo no cálculo.

Outras sugestões são diminuir a distância percorrida pelos veículos que fazem o transporte dos patinetes para o recarregamento das baterias, e limitar essa recarga apenas para veículos que efetivamente estão com bateria fraca, permitindo que os patinetes ficassem nas ruas durante a noite e diminuindo consideravelmente seu transporte para a base.

Além disso, como a vida útil do patinete pode aumentar se o veículo for usado adequadamente, o próprio respeito dos cidadãos pode ajudar a reduzir esse impacto.

Em uma nota enviada à imprensa, a Lime, empresa de aluguel de patinetes que atua em Raleigh e chegou ao Brasil em julho, afirma: “Agradecemos a pesquisa sobre os benefícios ambientais das novas opções de mobilidade; esse estudo, entretanto, se baseia em grande medida em suposições e dados incompletos que produzem uma grande variabilidade nos resultados. Acreditamos que a micromobilidade reduzirá a poluição e mitigará a mudança climática”.

Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

Críticas

A pedido da reportagem, o engenheiro eletricista Julio Omori, que é professor de Engenharia Elétrica na Universidade Positivo (UP) e superintendente de projetos especiais da Copel, analisou a pesquisa. Em sua opinião, o estudo é muito específico, muito particularizado à realidade de uma cidade norte-americana, e não pode ser generalizado para as outras metrópoles do mundo.

“Há vários pontos questionáveis. Outros veículos de grande porte também gastam bastante energia e tem uma cadeia poluente até maior na fabricação de componentes de plástico e ferro, por exemplo. Isso sem avaliar a matriz da energia utilizada nesse processo. E se ela for limpa?”, sugere.

Para o professor da UP, o segundo ponto que causa estranhamento é a questão do deslocamento dos patinetes para recarregar. “Isso depende de cada local. Alguns patinetes são estacionados em lugares próximos dos pontos de carregamento. E quando a oferta desses pontos aumentar, até mesmo com pontos públicos de carregamento, e não exigir mais um deslocamento tão grande?”, frisa Omori.

Ele finaliza lembrando ainda da eficiência cada vez maior das baterias, o que minimizaria toda a discussão. “Me parece que os pesquisadores pegaram uma condição muito específica e jogaram para o mundo. Acho pessimista demais.”

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