92% da população mundial não respira ar limpo; entenda como mudar esse cenário

Veículos automotores e processos industriais são os principais causadores da poluição atmosférica. Poder público, iniciativa privada e sociedade devem se unir para adotar ações que reduzam a emissão de gases poluentes

A qualidade do ar na grandes cidades é um problema urbano e de saúde pública. Foto: Unsplash.

por Jorge Olavo

31/05/2019

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O que você está respirando agora? O ar e as partículas de poluição são elementos que praticamente não percebemos no dia a dia e vão direto para os nossos pulmões. O primeiro, essencial para a vida. O segundo, responsável por minar a nossa saúde. Preocupada com a qualidade do ar que respiramos, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu a poluição atmosférica como tema para o Dia Mundial do Meio Ambiente, que acontece no dia 05 de junho.


A campanha da ONU alerta que as escolhas que fazemos diariamente afetam diretamente a qualidade do ar. A ideia é provocar governos, setor privado, comunidades e indivíduos a explorarem energias renováveis e tecnologias verdes como forma de melhorar o ar que respiramos e ainda controlar o aquecimento do planeta. Afinal, 92% da população mundial não respira ar limpo, um problema que custa US$ 5 trilhões por ano à economia global.

A poluição atmosférica é ocasionada principalmente por gases contaminantes emitidos pelo sistema de transporte e por processos industriais. Não se trata de um problema novo, mas é uma situação que tem colocado a saúde de milhares de pessoas em risco. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 57% das cidades do continente americano e mais de 61% das cidades europeias reduziram a poluição de partículas finas no ar entre 2010 e 2016. Mesmo assim, 7 milhões de pessoas ainda morrem todos os anos devido à poluição do ar. Mais do que uma questão ambiental, esse cenário tornou-se um problema de saúde pública, sendo encarada como um “novo tabaco.”

>>> O mal que vem do ar que respiramos

Qualidade do ar no Brasil

Para o diretor-presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), André Luis Ferreira, a poluição do ar nas grandes cidades brasileiras já foi pior na década de 1990 e começo dos anos 2000 do que é hoje. A melhoria ocorreu em grande parte pela implantação do Programa Nacional de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). “Essa queda parou e a poluição hoje se estabilizou em um nível abaixo do que já foi no passado, mas bem acima do que recomenda a OMS”, diz o especialista em Planejamento de Sistemas Energético.

A poluição veicular é uma das grandes vilãs da qualidade do ar. Foto: Connor Williams / Unsplash

Ferreira defende que a forma mais eficaz para melhorar a qualidade do ar é controlar a emissão de gases veiculares e industriais a partir de mecanismos e políticas reguladores, como licenciamento ambiental e estratégias de mobilidade urbana que privilegiem o transporte público e o transporte ativo em ciclovias e calçadas.

“No Brasil, temos uma limitação muito grande na gestão da qualidade do ar porque não temos uma Política Nacional de Qualidade do Ar com responsabilidades, penalidades, fontes de financiamento definidas. Isso é uma limitação importante porque a gestão da qualidade do ar é feita individualmente pelos estados, tendo como referência resoluções frágeis para enfrentar um problema com essa dimensão”, afirma o diretor do Iema, que tem em suas frentes de atuação a produção e disseminação de informações técnico-científicas em áreas como qualidade do ar e mobilidade urbana.

Benefício em dobro

Diminuir a poluição do ar também significa contribuir com a redução dos impactos climáticos decorrentes do aquecimento global, já que poluentes como o carbono negro, o metano e o ozônio troposférico – que são nocivos à saúde – também contribuem com o efeito estufa. Combater a emissão desses gases, que em sua maioria são poluentes climáticos de vida curta, tem efeitos imediatos, podendo reduzir consideravelmente as chances de chegarmos a colapsos climáticos.

Investimento em purificadores naturais

O contato com a natureza traz benefícios para a saúde e para o bem-estar. Além disso, áreas verdes urbanas contribuem com a qualidade do ar. Um estudo conduzido por pesquisadores do Serviço Florestal dos Estados Unidos e do Instituto Davey aponta que as árvores ajudam a reduzir a poluição atmosférica, retendo partículas poluentes em sua superfície e absorvendo gases a partir de suas folhas. Contudo, o depósito de sujeira nas folhas pode prejudicar o processo de fotossíntese.

As árvores também têm a capacidade de proporcionar equilíbrio térmico em cidades com clima quente, reduzindo a necessidade de gastar energia com ar condicionado e de usar combustíveis fósseis, que poluem ainda mais a atmosfera. Estima-se que a sombra das árvores pode diminuir o uso de ar condicionado de 20% a 30%.

Cidades precisam investir em infraestrutura verde para garantir uma vida com mais qualidade para os habitantes. Foto: Becky Phan / Unsplash

Investir em infraestrutura verde tem sido uma alternativa em várias partes do mundo. No norte da África, por exemplo, desde 2007 está em andamento o movimento Grande Muralha Verde. Plantas estão sendo cultivadas em uma região semi-árida entre Senegal e Djibuti – uma área de 8 mil quilômetros de comprimento e 15 quilômetros de largura. Em uma década, foram executados cerca de 15% do projeto, o que já está garantindo melhor qualidade de vida para quem vive a região.

Na Alemanha, um projeto conduzido pela Green City Solutions alia tecnologia com algumas espécies de musgo, que também auxiliam na purificação do ar. Como esse tipo de planta depende de sombra e umidade para se desenvolver, a organização desenvolveu um sistema automatizado para oferecer essas condições e os nutrientes necessários para o crescimento dos musgos. Por sua vez, a Bulgária é exemplo na forma sustentável com que extrai recursos de suas florestas, mostrando ser possível aliar economia, conservação e qualidade do ar. Mais de 90% da colheita anual de ervas silvestres e cultivadas são exportados como matéria-prima para outros países.

Já Curitiba é uma das principais referências no Brasil por sua arborização pública. São cerca de 320 mil árvores plantadas somente em vias públicas que, somadas ao verde dos parques urbanos, significam cerca de 60 m² de área verde por habitante, resultando em melhor qualidade do ar para quem vive na cidade. Entretanto, especialistas alertam que não é só sair plantando árvores por aí. A arborização urbana deve seguir alguns cuidados, como a escolha das espécies nativas mais apropriadas para a região, o espaçamento entre as mudas e evitar árvores com muito pólen, já que podem desencadear alergias.

Mobilidade ecológica

Os gases emitidos por veículos automotores estão entre os que mais poluem o ar que respiramos. Adotar políticas que estimulem o transporte coletivo e conscientizar a população de que ações individuais também são importantes para melhorar a qualidade do ar tornam-se essenciais.

Foto: Pixabay

Algumas iniciativas têm despertado a atenção do mundo. Em abril de 2019, Londres implantou uma zona se emissões ultrabaixas, confirmando a expansão do projeto para 2021. A China desponta com sua frota elétrica, concentrando metade dos veículos elétricos e 99% de todos os ônibus desse tipo no mundo. Nas rodovias norueguesas, 70% dos carros particulares são movidos por eletricidade. O resultado é consequência de uma política em que somente carros convencionais pagam taxas nas estradas. Além disso, somente veículos elétricos podem usufruir de estacionamento em área pública nas cidades.

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Nessa linha, o Sri Lanka é outro país asiático que tem obtido resultados significativos. Após reduzir taxas sobre veículos elétricos e híbridos, a frota dessa natureza aumentou 10 vezes entre 2013 e 2018. São 150 mil veículos desse tipo nas ruas, o que representa 23% da frota ativa. Quando o tráfego intenso pode representar mais de 50% da poluição do ar em algumas localidades, qualquer ação faz diferença.

Plano de Curitiba

Curitiba começou a construir um plano de governo que visa reduzir a emissão de gases de efeito estufa, alinhado com premissas do Acordo de Paris para que as cidades reduzam emissões veiculares, melhorem a eficiência energética em edifícios, aumentem a geração de energia limpa e modifiquem padrões de consumo. O plano deve ser implementado a partir de 2021. De acordo com a prefeitura, as ações da cidade serão acompanhadas pela rede C40 Cities, por meio do Programa de Planejamento de Ação Climática para a América Latina.

5 números sobre a qualidade do ar

  • 7 milhões de pessoas morrem todos os anos devido à poluição do ar. Destas, 4 milhões concentram-se na Ásia e no Pacífico.
  • 25 medidas políticas e tecnológicas implementadas em diferentes setores da Ásia e do Pacífico poderiam reduzir as emissões globais de gás carbônico em 20% e de metano em 45%.
  • Apenas 13 das 73 regiões metropolitanas do Brasil possuem algum tipo de monitoramento da qualidade do ar.
  • 1/3 do gás carbônico liberado pela queima de combustíveis fósseis no mundo é absorvido pelas florestas.
  • 1 árvore consegue retirar mais de uma tonelada de gás carbônico da atmosfera durante seu tempo de vida.

O que podemos fazer para melhorar a qualidade do ar

Confira pequenas mudanças de atitudes que vão melhorar a sua saúde e ainda contribuir com a qualidade do ar que respira:

  • Deixe o carro na garagem. Escolha alguns deslocamentos da sua rotina semanal para serem feitos a pé ou de bicicleta.
  • Menos carros nas ruas. Reserve um dia da semana para ir ao trabalho usando o transporte público ou praticando a carona solidária.
  • Rotina próxima. Opte por resolver suas tarefas do dia a dia perto de casa ou do trabalho. Assim, você pode ir caminhando até o banco, mercado, farmácia, escola.
  • Consumo consciente. Dê preferência a produtos vendidos diretamente por produtores locais. Desta forma, inibe-se a necessidade de a mercadoria percorrer grandes distâncias até um ponto de venda.

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