Jardins verticais são solução burra, cara e pouco eficiente, aponta arquiteto italiano

O arquiteto italiano Giacomo Pirazzoli é o maior crítico do "mito salvador" dos jardins verticais. Ele vê nas hortas verticais a solução ideal para trazer a natureza e os alimentos para o dia a dia das cidades

Foto: Bigstock

por Luan Galani

29/07/2019

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Cidade inteligente não é só tecnologia. É saber valorizar um dos elementos mais primários das comunidades: a natureza. E trazê-la de volta para as nossas metrópoles, dentro e fora das casas. Mas não apenas considerando aquela velha estética perfeccionista das plantas ornamentais. Precisamos perceber a ‘lindeza’ inerente das hortas. Plantas que alimentam.

É o que defende o arquiteto italiano Giacomo Pirazzoli, 54 anos, da Universidade de Florença e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro, que foi embaixador oficial do governo da Itália para o Brasil no Dia do Design Italiano de 2019, e é conhecido por ser um grande estudioso da arquitetura sustentável nas cidades e da obra da ítalo-brasileira Lina Bo Bardi.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O principal projeto de Pirazzoli é o GreenUP, uma estratégia de design de agricultura urbana para reparar o ambiente natural perdido, transformando fachadas, telhados e brises em micro-hortas privadas ou jardins comunitários. O que acaba por requalificar algumas áreas urbanas, tornando-as mais seguras e inaugurando sistemas de bioprocessamento para reciclar água e mitigar o efeito ilha de calor.

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Foto: Bigstock

O que é o GreenUP?

É antes de tudo uma visão, um jeito de lidar com assuntos contemporâneos que precisam de enfoques multidisciplinares. A palavra significa verde vertical. Então, banalizando, digo que são hortas verticais. Mas não é só isso.

É também uma escolha de como interagir e viver nas cidades?

Exatamente. As hortas são um resumo simbólico dessa visão sistêmica, que significa melhorar a cidade. Se cada família tiver uma horta em uma sacada ou varanda, na grande escala muda tudo. Porque vai diminuir o transporte para o abastecimento de alimentos, que gera poluição e gasto de energia, trazendo um ar mais limpo e um ambiente mais colorido e divertido, com cada família plantando seus alimentos preferidos. Se isso acontece em vários lugares da cidade, idealmente na cidade inteira, vai conectar lugares esquecidos, que chamamos de terceira paisagem, aqueles pedaços, cantinhos onde ninguém faz nada, trazendo a natureza e mais interação dos humanos, mudando ao final o perfil da cidade.

Foto: Bigstock

Como nasceu essa ideia? Quando foi o momento Eureka?

Havíamos montado um laboratório de pesquisa lá em Florença, o Crossing Lab, um grupo de estudo interdisciplinar e multicultural. Fizemos muita troca entre arquitetos e não arquitetos, de todos os lugares do mundo. O projeto cresceu, fizemos aplicações. Primeira apresentação aconteceu em Paris, em 2012, em um congresso de ciências políticas. Gerou retorno consistente e um convite para darmos uma palestra no TEDx Hamburgo, na Alemanha. Em 2017, a Universidade Mackenzie me convidou para desenvolver a pesquisa aqui, pensando em alimentos locais, que se desenvolvam facilmente. Aplicamos em algumas comunidades, onde isso pode virar uma opção para incrementar a renda. Se a pessoa está sem trabalho e tem uma parede livre, vai cultivar e gerar renda.

Como foi esse trabalho aqui em terras brasileiras?

No Brasil, tem um assunto interessante que tem recebido pouca atenção do público geral: as plantas alimentícias não convencionais. Só um grupo do Facebook para discutir o assunto conta com mais de 100 mil seguidores. Tem um mundo por trás. Se tem uma plantinha que você não conhece, posta lá e, depois de 20 minutos, aparece o nome da planta e até receitas para cozinhar com ela. Portanto, existem pessoas com essa visão. Agora temos uma instalação experimental com o Departamento de Ciências da Mackenzie e o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. São cultivos verticais, paralelepípedos de 80x40x160 cm, onde cultivamos as plantas, e podemos coletar e comer.

Foto: Bigstock

Você estudou especificamente plantas brasileiras que são fáceis de cultivar nas cidades. Pode nos dar exemplos?

Uma planta brasileira é a bertalha, um tipo de espinafre bem resistente, com ótimas capacidades nutricionais, que pode ser cozinhada. Uma planta que cresce facilmente. É trepadeira, mas também pode cair de cima, como pendente ou cortina. Tem também o maracujá, as amoras e os tomates que, embora não sejam plantas alimentícias não convencionais, podem conviver bem. Isso é biodiversidade.

Você acha que isso é suficiente para trazer a natureza de volta para o dia a dia?  O que é necessário para voltarmos a encará-la com um olhar urgente sem ser considerado ecochato?

Falo isso com todo respeito. Tem várias experiências bem sucedidas de hortas nas comunidades. Tem uma atenção, uma vontade clara, então não é teórica. Com todas essas experiências práticas, temos que entender que o assunto é muito mais para frente do que podemos acreditar. Encontrei na grande São Paulo Unidades Básicas de Saúde desenvolvendo oficinas de mudas, por exemplo. Agora, saiu há pouco tempo no noticiário que o bairro Paraisópolis tem vontade de colocar teto verde na laje. Fomos lá, conversamos com a liderança e estamos desenvolvendo um projeto de hortas horizontais. A ideia de trabalhar na laje tem um lado prático que não é viável. É precário, não pode colocar terra, mas daria para usar mais as paredes, que são menos precárias. São sinais bem importantes.

Foto: Bigstock

Em uma palestra recente no Ippuc você disse ser contrário aos jardins verticais. Por quê?

Jardim vertical é mais decorativo. Estou sempre do lado da natureza. Essas paredes verticais colocadas em São Paulo, por exemplo, para servir de compensação urbanística, tem um lado bom. Mas, na verdade, são infraestruturas com custo ambiental maior que o benefício que produzem. Dá muito trabalho e demanda muito investimento montar e manter. Plantas alimentícias produzem frutos que a gente come. Jardim não é só o lugar do olhar. Alimentar as pessoas é uma coisa linda. Essa é a diferença. Acho que essa estética é uma herança colonial. As pessoas muito ricas tinham jardins com escravos cuidando deles. Quem era mais pobre tinha a horta para comer. Mas as plantas das hortas não são feias. Tem uma lindeza diferente. Muito mais democrático.

Na Europa, a estética é essa também ou aceita-se mais facilmente a estética das hortas?

Acho que onde isso seja mais avançado é a Alemanha. Tem um clima horrível, difícil para cultivo, mas há muitas hortas, cultivos comunitários e envolvimento das comunidades. No dia que pensarmos seriamente sobre isso, como sociedade, no quanto se gasta de energia, transporte, de água, de trabalho, para plantas ornamentais apenas, tudo vai mudar. Poderíamos imaginar uma grande virada sobre isso. Imagine você indo presentear um amigo com uma plantinha de tomatinhos. É uma provocação necessária.

E como implementar isso nas grandes cidades? Fazendo em pequenos lugares ou necessita de um planejamento maior?

Fazer corredores verdes pode respeitar o que já existe e complementar com materiais verdes alimentícios. Acho que não são mutuamente excludentes. Autonomamente tem comunidades fazendo isso. De baixo para cima. E talvez a administração pública chegue atrasada, mas ela pode fazer mais.

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