Opinião: calçadas são fundamentais para as cidades, mas o Brasil não liga para elas

Antes da formação de lugarejos, vilas ou cidades, as calçadas já existiam como caminhos de tropas ou atividades mercantilistas

Em Berlim, o espaço facilita a ocupação nos pavimentos térreos para o comércio .

por *Maria Helena da Rocha

01/05/2019

compartilhe

Minha querida calçada

Elas desenvolveram-se na exata medida em que lugarejos foram se organizando em vilas; estas, em cidades. Fortalecendo hábitos e comportamentos coletivos, foram copiadas e consolidadas pelas culturas locais, adaptando-se a materiais, dimensões e necessidades. Em uma pequena vila, em um longínquo lugarejo, ou em uma grande metrópole, lá está ela: a calçada! Veio para ficar. Uma concepção milenar e necessária a todo e qualquer cidadão, independentemente de idade, gênero, classe social, limitações físicas, atividade profissional.

Mas as calçadas mudaram; não são mais convidativas, não nos dão segurança no caminhar. Carrinhos de bebês, cadeiras de rodas, idosos, salto alto: elas não atendem mais ao pedestre em qualquer uso – a sua função principal. Os hábitos dos cidadãos também mudaram. Crianças não brincam mais em calçadas. Jovens encontram-se com frequência no computador, ou celular, em algum local coberto. Adultos caminham em esteiras nas academias e idosos têm medo de sair e caminhar ao redor de suas casas. Passear, ver vitrines, encontrar pessoas, ir ao cinema, tomar um sorvete, bater papo, são lembranças do passado ou mera recordação de nossas estadias em outras cidades. Não valorizamos mais essa pequena área urbana onde tudo acontece ao nosso redor.

Também em Berlim, a calçada é o elo do cidadão com o seu entorno.

Perdemos o prazer de passear nas calçadas em nossa própria cidade; mas gostamos de fazer isso quando viajamos. Não é assim? Com menos pessoas circulando nas ruas, o comércio e os serviços em nosso entorno também mudam. As cidades crescem, os preços sobem, as moradias e locais de trabalho se espalham por um território maior. Nem todos possuem o privilégio de residir perto de onde trabalha, ou estuda. Mas a calçada é o elo do cidadão com o seu entorno. Importantes ferramentas de gestão pública estimulam (ou desestimulam) usos, garantindo assim a permanência da qualidade e da diversidade dos atrativos nos bairros e nas suas ruas.

Quanto mais dinâmica houver no comércio e serviços locais, mais segurança haverá nas suas calçadas, porque maior circulação de pessoas ali haverá. Um círculo virtuoso se mantém. O termo mobilidade, usado com frequência por muitos, estimula o cidadão a acreditar que algo irá melhorar no seu livre direito de circular. Mas há um equívoco de interpretação: este termo é mais utilizado para referir-se ao tipo de transporte do que com o ato de caminhar do pedestre, como acho que deveria ser.

Calçadas em grandes dimensões pelo centro de Paris.

Soluções para os problemas locais nem sempre devem ser importadas, mas Paris e Berlim nos dão bons exemplos: Paris reduz pistas de automóveis e amplia as dimensões das calçadas. Estimula o cidadão a caminhar, implantando novos equipamentos ou serviços urbanos (bancos, bicicletas, tótens de informações ao cidadão) e a sua arborização. Berlim evita a implantação de shopping centers no seu perímetro urbano e facilita o uso e a ocupação nos pavimentos térreos para comércio e serviços na maioria dos seus bairros, indistintamente.

Em ambos os exemplos acima o cidadão assume a sua corresponsabilidade para o sucesso das ações: precisa respeitar o silêncio após determinado horário e auxiliar a manter as calçadas limpas e seguras. Se fizer barulho, o restaurante, o bar, o cinema, ou a galeria de arte, por exemplo, terá o alvará de funcionamento cassado e é ele, cidadão, que perderá esse serviço. As calçadas e a vida nas ruas merecem ser foco de discussão e preocupação constante entre os principais integrantes da cidade: o cidadão, o gestor público e os empresários, definindo formatos, atendendo aos novos hábitos e interesses coletivos da comunidade, garantindo a segurança e o prazer no ir e vir de cada um. Em cada bairro. E em qualquer época.

Ruas de Paris diminuem o espaço para carros.

Shopping Center não precisa concorrer com o comércio e serviços implantados diretamente nas ruas, mas pode alterar significativamente a dinâmica local. Sabemos que existem inúmeras facilidades neles: encontrar em um único local vários produtos, comparar preços, facilidade de estacionamento. Há cinemas, teatros, restaurantes. Faça chuva ou sol estaremos abrigados e vivenciando uma sensação de segurança. Mas eles podem coexistir com o comércio de rua. Os bairros do Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro, bem ilustram essa questão.

E a segurança? Sim, de extrema importância, tanto quanto a qualidade e a lisura do piso da calçada. Mas não nos esqueçamos de uma coisa: a segurança mais eficiente em uma área urbana é dada justamente pela circulação de pessoas.

São elas e o simples fato de circularem por ali, o ir e vir nas calçadas que garante a segurança desta área. Retirar esses atrativos das ruas significa retirar também parte da função das calçadas e a segurança do pedestre. Um círculo vicioso se instala: o movimento nas ruas e no comércio caem, um ambiente inseguro se instala com uma progressiva subutilização, ou abandono, das edificações ali existentes, pequenos crimes se estabelecem na região.

* Maria Helena da Rocha Paranhos é arquiteta e urbanista, e reside em Curitiba e em Berlim. Email: mhparanhos@gmail.com.

Receba nossas notícias por e-mail

Inscreva-se em nossas newsletters e leia em
seu e-mail os conteúdos de que você mais
gosta. É fácil e grátis.

Quero receber

8 recomendações para você