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Os segredos das dez cidades mais sustentáveis da Europa (e como seguir o exemplo)

Para ganhar o título de “Capital Verde”, instituído pela União Europeia, é preciso ter muito mais que áreas de preservação ambiental

Oslo, capital da Noruega, tem metas ousadas e foi eleita a “Capital Verde da Europa 2019”. Foto: Pixabay

por Célio Martins

26/07/2017

Muito além do discurso e dos estudos teóricos quando o assunto é meio ambiente. Assim podem ser definidas uma série de medidas tomadas por diferentes países europeus nas últimas décadas para garantir condições que permitam garantir cidades sustentáveis.

Uma dessas iniciativas práticas é o prêmio Capital Verde da Europa, criado em 2010 pela Comissão Europeia como forma de reconhecer e estimular os esforços das cidades em busca de melhoria do espaço urbano.

Para ganhar o título de “Capital Verde” uma cidade precisa conseguir resultados em um conjunto de áreas que contribuem, direta ou indiretamente, para a melhoria da qualidade de vida de seus cidadãos. O prêmio é anualmente atribuído a uma cidade que está comprometida com metas ambiciosas no desenvolvimento sustentável e serve de modelo para inspirar outras aglomerações urbanas.

Os avaliadores levam em conta 12 indicadores ambientais: atenuação e adaptação às alterações climáticas; transportes locais; áreas verdes urbanas e uso sustentável da terra; natureza e biodiversidade; qualidade do ar ambiente; qualidade do ambiente acústico; gestão e produção de resíduos; gestão da água para uso público; tratamento de águas residuais urbanas; ecoinovação e emprego sustentável; performance energética; e gestão ambiental integrada.

As cidades vencedoras são escolhidas por um time de alto nível, que incluem representantes da Comissão Europeia, Parlamento Europeu, Comitês Regionais, Agência Europeia do Ambiente, Secretariado Europeu do Ambiente e ICLEI, um comitê voltado para a promoção de políticas em prol da produção de energias renováveis.

O exemplo de Oslo

Oslo, capital da Noruega, tem metas ousadas e foi eleita a "Capital Verde da Europa 2019". Foto: Pixabay

Oslo, capital da Noruega, tem metas ousadas e foi eleita a “Capital Verde da Europa 2019”.
Foto: Pixabay

A vencedora do último concurso foi Oslo, capital da Noruega. Competindo com Lahti (Finlândia), Tallinn (Estónia), Ghent (Bélgica) e Lisboa (Portugal), a maior cidade norueguesa saiu vitoriosa e será a “Capital Verde da Europa 2019” por sua abordagem abrangente para o desenvolvimento sustentável, incluindo biodiversidade, os transportes, a coesão social, saúde pública e envolvimento dos cidadãos.

O título de “Capital Verde da Europa” a Oslo é resultado do esforço das últimas administrações da cidade, especialmente pela gestão atual – formada por uma coalização do Partido Trabalhista, Partido Verde e Partido Socialista –, que colocou em prática um programa rigoroso de combate às alterações climáticas.

Entre as metas da cidade está a redução das emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2020 e 95% até 2030. O programa é apontado como o mais ambicioso do mundo e está alinhado com o Acordo de Paris, que tem como objetivo limitar o aumento de temperatura a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Com pouco mais de 600 mil habitantes, durante um longo período Oslo conseguiu reduzir as emissões de gases de efeito estufa com um sistema de monitoramento abrangente. O sucesso foi obtido graças ao envolvimento da população na busca de uma cidade limpa, devolvendo aos cidadãos a área urbana sequestrada pelos carros.

Atualmente, Oslo tem carros mais elétricos per capita do que qualquer outra cidade no mundo. A capital espelha a realidade do país, que registra mais de 100 mil carros elétricos para uma população de 5,2 milhões de pessoas. Os números do Conselho de Informações de Tráfego Rodoviário da Noruega (OFV) mostram que os carros totalmente elétricos representaram 17,6% dos registros de veículos novos em janeiro e os híbridos, 33,8%. Somando, mais da metade (51,4%) dos veículos novos vendidos no país são “limpos”.

Outro avanço é a mudança do modal de transporte em Oslo. A quota de tráfego de carro na cidade vem diminuindo ano a ano desde 2005 e a de transportes públicos aumentou (de 20% a 30% de participação). Até 2020 a meta é tornar o transporte público gratuito, com veículos movidos a biogás e energia elétrica. Até 2025, a ideia é acabar com os carros novos movidos a gasolina e diesel.

Vencedoras

Veja algumas das iniciativas que deram certo em outras nove cidades que se tornaram “Capital Verde da Europa”

2010 – Estocolmo, Suécia

Estocolmo, Suécia. Foto: Pixabay.

Estocolmo, Suécia. Foto: Pixabay.

Primeira cidade a ganhar o título, foi escolhida por sua “visão holística”, combinando desenvolvimento urbano sustentável com o crescimento. Todo o transporte público é movido com energia renovável. A cidade tem um sistema integrado de resíduos e há amplos espaços verdes que contribuem para uma melhor qualidade do ar, reduzindo o ruído e aumentando biodiversidade.

2011 – Hamburgo, Alemanha

Hamburgo, Alemanha. Foto: Pixabay

Hamburgo, Alemanha. Foto: Pixabay

A redução de emissões de carbono chegou a 15% per capita em relação a 1990. A cidade tem a maior frota do mundo de ônibus por hidrogênio e triplicou o uso de fontes renováveis de energia nos últimos 12 anos.

2012 – Vitoria-Gasteiz, Espanha

Vitoria-Gasteiz, Espanha. Foto: Divulgação

Vitoria-Gasteiz, Espanha. Foto: Divulgação

Se destacou por seu projeto “Cinturão Verde”, uma área de preservação ambiental recuperada de áreas degradadas. A cidade fez grandes progressos na gestão da água urbana através do controle de vazamentos e na conscientização do consumo. Entre 2001 e 2009, o consumo per capita caiu em 20%.

2013 – Nantes, França

Nantes, França. Foto: Divulgação

Nantes, França. Foto: Divulgação

Foi a primeira cidade francesa a colocar em circulação os bondes elétricos modernos (VLTs) e investe forte em outros meios de transporte, como bicicleta. Destaca ainda o esforço do poder público para conseguir a participação dos cidadãos nas questões de sustentabilidade.

2014 – Copenhague, Dinamarca

Copenhague, Dinamarca . Foto: Pixabay

Copenhague, Dinamarca . Foto: Pixabay

A cidade atua em projetos que enfatizam a importância de encontrar soluções compartilhadas para desafios ambientais: empresas, governos, instituições de conhecimento e os cidadãos. É a cidade do mundo com melhores soluções para facilitar dos ciclistas.

2015 – Bristol, Reino Unido

Bristol, Reino Unido. Foto: Pixabay

Bristol, Reino Unido. Foto: Pixabay

Implementou uma estratégia de compras públicas sustentáveis, que contém um conjunto de 11 diretrizes para adquirir produtos e serviços e influenciar o mercado. Criou o “Laboratório para a Mudança”, que desenvolve estratégias de inovação para reduzir as emissões de carbono e servirá de modelo para outras cidades do continente.

2016 – Ljubljana, Slovenia

Ljubljana, Eslovênia. Foto: Divulgação.

Ljubljana, Eslovênia. Foto: Divulgação.

Restringiu seu centro ao uso exclusivo de pedestres – deixando de ser uma cidade voltada para os automóveis. Além disso, a cidade se destacou pelo seu sistema de tratamento das águas residuais e dejetos, pela revitalização dos bairros industriais e pela conversação dos muros do rio Sava.

2017 – Essen, Alemanha

Essen, Alemanha. Foto: Divulgação.

Essen, Alemanha. Foto: Divulgação.

Recuperou áreas degradadas pela indústria do aço e do carvão para se tornar numa cidade mais limpa. Implantou um programa profundo de gestão das águas, que ajuda a absorver a chuva, evitando as cheias e repondo as reservas de águas subterrâneas.

2018 – Nijmegen, Holanda

Nijmegen holanda divulgação

Nijmegen, Holanda. Foto: Divulgação

Criou o Mapa da Participação, que mostra todos os projetos executados em espaços públicos pelos cidadãos, com apoio do governo municipal. Um exemplo foi a construção de turbinas eólicas, que distribuem energia para 10% da cidade.

Esforço vale recompensas

O título de Capital Verde da Europa não prevê um prêmio em dinheiro. As recompensas vêm por meio de outros benefícios. A Comissão Europeia listou alguns dos ganhos obtidos pelas cidades vencedoras.

O desenvolvimento do turismo é um desses benefícios. O número de turistas que visitaram Vitoria-Gasteiz, na Espanha, aumentou 3,3% em relação ao ano anterior à premiação, proporcionando a entrada de recursos ao município de geração de empregos e renda.

As cidades vencedoras também ganham projeção internacional e novas alianças. Estocolmo recebeu 120 delegações internacionais de estudos relacionados ao meio ambiente. A presença de Hamburgo na mídia internacional foi impressionante, principalmente pelo “Trem de ideias” – uma exposição ambiental itinerante. As notícias sobre o evento chegaram a mais de 270 milhões de pessoas em seis meses, incluindo potenciais turistas e investidores. Verificou-se um aumento de 57% no número de empregos no setor das energias renováveis entre 2008 e 2012.

Patrocínio e compromisso para projetos ambientais também deslancharam em muitos casos. Bristol recebeu 7 milhões de libras (cerca de R$ 30 milhões) de financiamento adicional do governo britânico para apoiar projetos da cidade.

Normalmente há apatia da população quando se trata de engajamento em propostas coletivas para o bem das cidades. Com os esforços ambientais, esse desinteresse tem sido revertido, com grande envolvimento dos cidadãos. Em Nantes, 100 mil pessoas participaram de eventos públicos relacionados ao “programa verde” e um projeto cidadão conquistou centenas de voluntários para o monitoramento de resíduos.

Vale ainda ressaltar o Impulso para continuar a melhorar a sustentabilidade ambiental. Cerca de 400 jovens de Hamburgo frequentaram a Jornada Ambiental da Juventude para discutir futuras questões ambientais da cidade, incluindo energia e a proteção do clima, consumo sustentável, conservação de recursos e desenvolvimento urbano.

Toda essa mobilização fez com que cidades finalistas integrassem uma rede criada para compartilhar conhecimentos e experiências.

Cidades brasileiras têm grandes desafios

Problemas com gestão de resíduos, racionalização do uso da água, poluição atmosférica e sonora e atividades econômicas destrutivas ao meio ambiente são alguns dos problemas enfrentados pelas cidades brasileiras. Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que cerca de 90% dos municípios brasileiros, ou mais 5 mil cidades, sofrem algum problema ambiental.

Alguns exemplos, no entanto, se destacam. Em 2015, Curitiba foi apontada como a cidade mais verde do país e da América Latina no relatório Green City Index (Índice Verde de Cidades), realizado pela Siemens com a Economist Intelligence Unit. No estudo, a capital paranaense é destacada pela implementação de soluções como criar áreas de pedestres e fornecer baixo custo de trânsito eficaz, com o BRT, além da criação de áreas verdes, reciclagem e gestão de resíduos.

Mas uma solução razoável ainda está longe de ser atingida. Congestionamentos no trânsito, saturação da capacidade do transporte coletivo e a incapacidade de implantar um sistema de transporte público movido exclusivamente a energia renovável são algumas das barreiras. Levantamento realizado pelo Sindicato Nacional de Arquitetura e Engenharia (Sinaenco) no ano passado mostra que o trânsito e o transporte público são os maiores problemas de Curitiba para 85% dos entrevistados.

Goiânia, que já recebeu o título do Instituto Brasil Américas de “Capital brasileira com melhor qualidade de vida”, tem 94 metros quadrados de áreas verdes para cada cidadão, uma das taxas mais altas do mundo. São Paulo, abominada pela poluição atmosférica e sonora e seus rios e córregos mortos, tenta reverter o quadro de degradação com incentivo ao ciclismo, ampliação do metrô e já tem bairros, como o Parque dos Príncipes, com áreas verdes bem conservadas e que cobrem cerca de 1/3 da área total do bairro.

São milhares as cidades no Brasil com iniciativas para implantar políticas voltadas à criação de espaços urbanos sustentáveis. Mas os projetos esbarram na falta de verba e no pouco empenho dos poderes públicos para garantir a participação dos cidadãos. Com recursos escassos e muitas vezes mal utilizados, a maioria dos programas não saem do papel ou não atingem metas.

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