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Mobilidade urbana de Curitiba ainda é modelo, mas ficará para trás sem novas tecnologias

Inaugurado na década de 1970, sistema de transporte urbano da capital paranaense mantém a fama de ícone mundial, o que não exclui a necessidade de avanços, segundo especialistas

Foto: Aniele Nascimento / Gazeta do Povo

por Sharon Abdalla

09/03/2018

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Apesar dos problemas vivenciados diariamente pela população, como lotação dos ônibus e o envelhecimento da frota, o sistema de transporte público de Curitiba ainda é reconhecido como referência em mobilidade urbana mundo afora. Pelo menos é isto o que aponta a sueca Karin Radström, vice-presidente global de vendas de ônibus da Scania.

Em visita a cidade nesta quinta-feira (8), quando recebeu a reportagem de HAUS com exclusividade, Karin e a equipe de executivos brasileiros da marca destacaram as soluções desenvolvidas em Curitiba a partir dos anos 1970, como as canaletas exclusivas para a circulação dos ônibus, padronização da frota, integração e as estações-tubo, que elevaram o nome da capital paranaense a nível mundial e foram exportadas para mais de 250 cidades.

“Curitiba ainda é considerada uma das cidades com os melhores sistemas de transporte público do mundo. Há, no entanto, o risco de que o sistema perca sua atratividade se ele não tiver continuidade, se não forem pensadas formas de renová-lo”, destaca a vice-presidente.

Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

Este risco é ainda mais evidente quando o atual sistema de transporte da capital é comparado ao de cidades que o copiaram, mas que já promoveram avanços em relação ao modelo. “As estações tubulares, por exemplo, são maravilhosas, mas seguem um padrão [de distância entre as portas do veículo] que não é o seguido pelo restante do mundo e que o enquadra como uma exceção. Isso torna o [ônibus fabricado para Curitiba]  mais caro do que o produzido para outras localidades, pois ele depende de um chassi e de uma carroceria com dimensões específicas. Será que somos tão tradicionalistas que não conseguimos fazer melhorias e baixar o custo do sistema?”, questiona Silvio Munhoz, diretor de vendas de ônibus da Scania para o Brasil.

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Sustentabilidade

Outro desafio apontado pelos executivos para a melhoria do transporte público, não apenas em Curitiba, mas pensando em escala global, é a abertura e o investimento das administrações municipais em soluções voltadas à sustentabilidade do sistema. Isso engloba desde a oferta de veículos e combustíveis (GNV, biometano, etanol, eletricidade e modelos híbridos) à gestão e operação do transporte público.

O primeiro entrave listado por Karin neste sentido é o mito de que o transporte sustentável é uma alternativa cara. “Hoje, não há nada que impeça qualquer cidade do mundo de adotar uma solução sustentável de transporte, pois todos os veículos e combustíveis [estão à disposição do mercado], e isso pode ser feito sem aumento de custo. Mas é preciso que haja disposição e vontade política de fazê-lo”, aponta a vice-presidente de vendas da Scania.

A falta de interdisciplinaridade entre os diferentes setores administrativos das cidades é outro fator que interfere negativamente na adoção de sistemas “verdes” de transporte. “O biogás, por exemplo, é gerado a partir do lixo orgânico, do tratamento do esgoto das cidades. Aqui, você não tem apenas um combustível de baixo custo, como também dá uma solução para o problema do lixo, o que torna o transporte sustentável e verde. Mas, se isto não for visto de forma integrada [pelos diferentes setores da gestão municipal] e se [os gestores públicos] não tiveram paciência para deixar a coisa andar, nunca vamos sair do diesel”, aponta Munhoz.

O terceiro, e talvez mais importante, ponto listado pelos executivos refere-se à participação da população neste processo. Segundo eles, ela se dá não somente pela cultura do uso efetivo do sistema, mas também no sentido de pressionar os gestores públicos a adotarem soluções sustentáveis para o transporte público de suas localidades. “Na Europa, por exemplo, isto está acontecendo muito rápido porque a população tem consciência sobre os prejuízos da poluição e cobra isso de seus governantes. O povo tem tudo nas mãos”, resume Munhoz.

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