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Por mais de um século, a Califórnia foi a principal fronteira para os ambiciosos, atraindo quem buscava escapar das restrições do velho mundo em troca de uma promessa de autonomia radical. O Sonho Californiano não foi um produto do acaso; ele foi forjado pela mentalidade da Corrida do Ouro que consagrou a disposição de correr riscos como pré-requisito para o sucesso. Essa aceitação singular do fracasso criou raízes profundas na consciência do estado, alimentando uma cultura de risco que acolhia empreendedores de todo o mundo. Apoiado por uma localização estratégica na costa do Pacífico e por terras férteis, esse ambiente permitiu que inovadores transformassem a Califórnia em uma potência global na agricultura, no entretenimento e na tecnologia.
No entanto, as políticas modernas reverteram essas vantagens históricas, transformando um santuário outrora dinâmico em um estado regulatório restritivo. Hoje, o potencial dos moradores da Califórnia é sufocado pela má gestão crônica de recursos (água, energia, florestas, etc.) e por um conjunto crescente de regras contrárias ao crescimento que desestimulam a própria expansão que fez o estado ser o que é. Ao privilegiar os vetos das partes interessadas em detrimento dos direitos fundamentais de propriedade, a Califórnia passou de uma cultura de progresso para uma de estagnação gerenciada. O sucesso que antes definia a cultura de risco do estado agora é cada vez mais enfrentado por propostas de impostos punitivos e regulamentações trabalhistas hostis à conquista.
A mais recente vítima dessa mudança é a California Forever. Fundado em 2017 por Jan Sramek, o projeto visava enfrentar a crônica escassez habitacional da Califórnia construindo do zero uma cidade caminhável para 400.000 residentes. Apoiado por bilionários do Vale do Silício como Reid Hoffman e Marc Andreessen, ele representa uma tentativa moderna de resgatar o legado construtivo do estado. No entanto, após gastar aproximadamente US$ 1 bilhão, o projeto registrou poucos avanços concretos.
A tentativa dos incorporadores de acelerar o projeto por meio de um referendo foi abandonada em 2024, e a visão residencial original foi substituída pela construção naval. Essa reformulação foi tanto uma referência ao SHIPS Act quanto uma escolha estratégica para seguir um caminho de menor resistência no desenvolvimento. Ao expandir a visão para incluir o Estaleiro de Solano, o projeto foi transformado em uma proposta politicamente mais palatável. O desenvolvimento residencial ainda faz parte do plano, mas será estendido por quatro décadas.
Um crítico culpa o que chama de "labirinto regulatório" da Califórnia pela natureza instável desse projeto. Não há dúvida de que vastos regulamentos de construção, códigos de zoneamento e regulamentações ambientais pesam sobre o desenvolvimento. Certamente, o ambiente regulatório contribuiu para o fracasso do governador Newsom em cumprir sua promessa de campanha de 2017 de construir 3,5 milhões de novas unidades habitacionais. Mas o que motiva e sustenta esse labirinto?
No centro dessa inércia está uma guinada filosófica de um sistema de direitos de propriedade geralmente respeitados para um de desenvolvimento condicionado a permissões. O direito legal de usar a própria terra foi substituído pela exigência de obter consenso universal antes da primeira pá tocar o solo. Sob esse protocolo, cada novo projeto é ilegal até que receba uma série de bênçãos discricionárias de um conjunto de agências governamentais.
Na prática, esse sistema institucionalizou o veto das partes interessadas. Ao contrário das regulamentações tradicionais, que se baseiam em padrões claros, o processo de revisão discricionária da Califórnia concede enorme poder a qualquer interesse organizado — de grupos NIMBYs [sigla para "Não no Meu Quintal"] a concorrentes econômicos — para bloquear um projeto por tempo indefinido. O California Environmental Quality Act (CEQA) tornou-se uma ferramenta jurídica para forçar atrasos. Vemos o absurdo desse poder de veto quando o CEQA é usado para bloquear moradia acessível para veteranos sem-teto ou para atrasar ciclovias por anos. Nesse paradigma de permissões, as considerações ambientais ficam subordinadas à alavancagem política que a lei proporciona.
O que sustenta ainda mais esse labirinto é uma perturbadora animosidade em relação à riqueza. Aos olhos de muitos reguladores e ativistas modernos, um projeto de centenas de bilhões de dólares como a California Forever não é visto como uma solução para a crise habitacional, mas como uma tomada hostil de poder por uma elite. Esse sentimento transforma o processo regulatório em uma forma de penitência política, na qual os incorporadores são obrigados a negociar a viabilidade de seus projetos em troca da permissão para existir. Os responsáveis pela California Forever acreditaram que poderiam se sair bem em um referendo com promessas de empregos, moradias e revitalização urbana. Eles subestimaram uma mentalidade contemporânea que vê sua própria presença como uma ameaça.
Como se quisesse desestimular ainda mais os ricos de investir, ou reinvestir, na Califórnia, o maior sindicato do setor público, o Service Employees International Union (SEIU), agora defende um imposto sobre a riqueza. O imposto único de 5% sobre o patrimônio líquido é direcionado aos bilionários do estado — ou seja, seus residentes mais ricos e bem-sucedidos. Se os californianos querem prosperar, deveriam ser gratos aos bilionários de hoje e receber de braços abertos os futuros bilionários. Onde estaria o estado sem a inovação e o capital que construíram a Apple, o Google e a Microsoft? Partes interessadas invejosas argumentam que a Califórnia enriqueceu essas empresas, mas o inverso é verdadeiro: os inovadores tecnológicos enriqueceram a Califórnia. Este não é o momento de sufocar a capacidade desses inovadores de expressar sua visão produtiva, seja para uma nova empresa ou para uma nova cidade.
E embora reformas recentes de 2025 e 2026 mitiguem algumas das armadilhas regulatórias para projetos de preenchimento urbano e de médio porte, elas oferecem pouco alívio para o crescimento ambicioso e de grande escala que antes definia o estado. Para projetos como a California Forever, o labirinto permanece tão formidável quanto sempre, provando que, na Califórnia moderna, a maior barreira para construir o futuro é uma cultura que aprendeu a sabotar seu próprio progresso.
Por um século, as maiores cidades do mundo — Nova York, Chicago e a própria São Francisco — foram erguidas não por assembleias comunitárias, mas por incorporadores com uma visão. Essas cidades foram construídas em grande parte sem permissão, e certamente sem o teatro paralisante de vetos em assembleias ou revisões ambientais tediosas.
Se a Califórnia quer ser algo mais do que um museu de seu próprio passado, deve parar de tratar a riqueza conquistada com suspeita e começar a vê-la como o combustível para o florescimento humano. Enquanto não restaurarmos o direito fundamental de desenvolver terras legalmente adquiridas sem precisar implorar por uma permissão, o Sonho Californiano continuará sendo um sonho adiado. Enquanto precisarmos de aprovações para desenvolver nossas terras legalmente adquiridas, a Califórnia vai continuar estagnada.
Este artigo foi publicado originalmente no site do California Policy Center.
Mark Moses é um pesquisador sênior no California Policy Center. Ele possui trinta anos de experiência em administração e finanças de governos locais.
Original em inglês: California Forever Stagnating.



