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A economia da regressão: como o Brasil se tornou hostil à prosperidade

Fernando Haddad: legado pífio à frente do Ministério da Fazenda.
Fernando Haddad: legado pífio à frente do Ministério da Fazenda. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O debate sobre a herança econômica recente do Brasil, precipitado pela saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, exige abandonar tanto a retórica superficial quanto o tecnocratismo anestesiante que serviu de álibi intelectual a três anos de demolição fiscal.

O que se observa hoje não é apenas um conjunto de indicadores deteriorados, mas a consolidação de um modelo coerente em sua lógica interna indigente, porém anacrônico, asfixiante e pauperizante em seus efeitos externos, que combina expansão fiscal, hipertrofia tributária, hostilidade progressiva ao ambiente de geração de riqueza e uma recusa ideológica de incorporar ao aparato produtivo do país as ferramentas tecnológicas que estão redesenhando a economia global. Sob a condução de Haddad, esse modelo atingiu sua forma mais explícita e acabada.

A marca distintiva da gestão não é apenas o aumento de gastos, mas a naturalização de sua expansão como princípio organizador da política econômica, com trajetória claramente ascendente, contínua e estrutural, tanto em termos nominais quanto em proporção do PIB.

No início de 2023, a dívida pública registrava 71,7% do PIB, patamar elevado, mas relativamente estabilizado após o período pandêmico e os efeitos iniciais do conflito Rússia-Ucrânia. Ao final de 2023, o indicador havia avançado para 74,3%. Em 2024, superou 76,1%. Em 2025, ultrapassou R$ 10 trilhões, cerca de 79% do PIB, colocando o Brasil entre os países mais endividados do mundo emergente.

Como miséria pouca é bobagem, a projeção oficial do governo para 2026 é de 81,7%, ao passo que o mercado, essa entidade maléfica que opera diuturnamente para desfazer os planos lulopetistas de socialização da pobreza, trabalha com projeções de 84% a 85% do PIB.

Esse problema não é apenas contábil: é um mecanismo silencioso de transferência de riqueza entre gerações. Ao expandir gastos de forma irresponsável e financiar essa expansão via endividamento, o governo consome hoje a renda que ainda nem foi gerada, empurrando a conta para o futuro. Nossos filhos e netos herdarão um Estado mais pesado, mais caro e menos eficiente.

Para estabilizar essa trajetória, não há milagre: ou se pagará com mais impostos, ou com juros estruturalmente mais elevados, ou com inflação corroendo salários e poupança, quando não com a combinação perversa dos três. Em qualquer cenário, o resultado é inequívoco: menos renda disponível, menos oportunidades e menor qualidade de vida para as próximas gerações. O que hoje se apresenta como política econômica é, na realidade, a construção deliberada de uma armadilha fiscal intergeracional, na qual um país que opta por viver sistematicamente acima de suas possibilidades não apenas compromete o presente, mas hipoteca o futuro, principalmente daqueles que hoje ainda não têm voz.

Esse movimento não ocorre no vácuo. Articula-se com uma dinâmica perversa em que o próprio crescimento econômico, ainda que anêmico, passa a depender do combalido impulso estatal: o consumo do governo cresceu 2,1% em 2025, evidenciando o papel central do gasto público na sustentação artificial da atividade econômica.

A consequência é previsível: o Estado deixa de ser instrumento de estabilização e passa a operar como vetor de distorção estrutural, comprimindo o espaço de investimento, elevando o custo de capital e deslocando recursos da economia produtiva para a rolagem da própria dívida. Quando se fala em enxugamento da máquina pública e racionalização de despesas, o silêncio é ensurdecedor, porque a expansão do Estado não é efeito colateral, mas objetivo.

Esse avanço do gasto e da intervenção estatal também se reflete na deterioração acelerada das empresas estatais, historicamente utilizadas como instrumento de política econômica. Após registrarem resultados positivos no governo Jair Bolsonaro, voltaram a acumular prejuízos expressivos. Em 2022, as estatais federais registraram superávit de R$ 4,7 bilhões. Desde então, o quadro se inverteu de forma dramática: em 2024, o déficit atingiu R$ 6,7 bilhões e, em 2025, foi registrado novo rombo de aproximadamente R$ 5,1 bilhões, um dos piores resultados da série histórica.

 O caso dos Correios, que enfrentam crise profunda, com projeções de rombo que chegam a R$ 9,1 bilhões até 2026, além de forte restrição de crédito e risco crescente de inadimplência, é emblemático. Diante do cenário, o governo optou por adiar para 2027 o aporte bilionário estimado entre R$ 5 e R$ 8 bilhões, empurrando deliberadamente a solução do problema para a próxima gestão.

O que antes contribuía para aliviar as contas públicas passa agora a pressioná-las ainda mais, evidenciando o abandono de critérios de eficiência em favor de uma lógica de uso político, expansão estatal e produção de passivos ocultos que, mais cedo ou mais tarde, recairão sobre o contribuinte. A adoção de ferramentas de inteligência artificial para auditoria, gestão de contratos, detecção de fraudes e automação de processos repetitivos poderia economizar bilhões anuais ao erário. Mas isso, naturalmente, exigiria governantes interessados em eficiência, não em patronagem.

Diante da incapacidade de conter o gasto, a resposta tem sido previsível, consistindo exclusivamente no aumento da arrecadação. Se o déficit cresce, tributa-se mais. O problema é que essa estratégia ocorre simultaneamente à deterioração dos fundamentos de crescimento. A taxa de investimento permanece cronicamente baixa, em torno de 16,8% do PIB, patamar insuficiente para sustentar crescimento consistente e muito inferior ao observado em economias emergentes dinâmicas.

Os números do PIB, frequentemente celebrados de forma acrítica pelos áulicos do Planalto, revelam mais fragilidade do que força.

Nessas economias, níveis entre 20% e 22% do PIB permitem crescimento moderado, enquanto países dinâmicos operam na faixa de 25% a 30%. Casos como China (40% a 45%), Índia (30% a 33%), Vietnã (30%) e Indonésia (28% a 32%) ilustram esse patamar mais elevado, ao passo que mesmo vizinhos como Chile (25%) e México (24%) mantêm níveis superiores ao brasileiro.

 O resultado dessa discrepância é estrutural: o Brasil investe menos do que o necessário para expandir sua capacidade produtiva de forma relevante, limitando o aumento de produtividade, restringindo o crescimento potencial e condenando a economia a um equilíbrio de baixa expansão incompatível com qualquer estratégia séria de convergência econômica.

A combinação é tóxica: alta carga tributária, baixo investimento e produtividade estagnada, patamar que não apenas não projeta o país para o futuro, condenando-o a um menor crescimento, mas o ancora persistentemente na mediocridade, ao cristalizar um modelo incapaz de gerar prosperidade.

Os números do PIB, frequentemente celebrados de forma acrítica pelos áulicos do Planalto, revelam mais fragilidade do que força. Em 2025, a economia cresceu 2,3%, desacelerando em relação aos 3,4% de 2024, com virtual estagnação no segundo semestre. Em termos per capita, o avanço modesto de 1,9% ao ano está longe de representar progresso significativo, mascarando vergonhosa estagnação relativa quando comparado a economias emergentes que efetivamente convergem para o mundo desenvolvido, crescendo entre 4% e 6% ao ano. Mesmo dentro da América Latina, o contraste se torna constrangedor: Argentina e Paraguai apresentaram crescimento próximo a 5% e 4%, respectivamente, em 2025.

A diferença, à primeira vista moderada, revela-se devastadora quando projetada no tempo e seus efeitos recaem direta e concretamente sobre a vida diária da população. Em uma década, um país que cresce 5% ao ano eleva sua renda em mais de 60%, enquanto outro, limitado a 1,9%, mal supera os 20%, sendo essa uma das razões pelas quais governos responsáveis precisam, necessariamente, prever o impacto temporal de suas ações.

Essa divergência não é abstrata e se traduz em salários que avançam lentamente, menor geração de empregos qualificados e estagnação do poder de compra. Não por acaso, o Brasil convive com uma renda per capita que gira em torno de US$ 10 a 11 mil, praticamente estagnada há mais de uma década em termos reais, enquanto países mais dinâmicos ampliam rapidamente essa distância.

 A composição desse crescimento reforça a crítica, pois o impulso veio majoritariamente da agropecuária, com expansão de dois dígitos, enquanto indústria (1,4%) e serviços (1,8%) avançaram de forma esquálida, padrão típico de economias reprimarizadas, não de países que lideram a inovação global.

Ao mesmo tempo, a compressão do crescimento limita a arrecadação “virtuosa” e retroalimenta a dependência de impostos mais altos, corroendo ainda mais a renda disponível das famílias. O crédito permanece caro, o investimento é baixo e a mobilidade econômica se estreita. Nesse contexto, a perda de posição relativa no cenário internacional deixa de ser apenas dado estatístico e se manifesta no cotidiano como serviços públicos precários, infraestrutura deficiente e oportunidades cada vez mais escassas.

Foi assim que o Brasil, que já figurou entre as maiores economias globais, passou, após quase vinte longos anos de governos lulopetistas, a ser ultrapassado por países mais dinâmicos, não porque tenha encolhido, mas porque ficou para trás. Em termos concretos, trata-se de um empobrecimento silencioso, porém cumulativo. Nesse contexto, a renda até cresce marginalmente, mas de maneira insuficiente para acompanhar o resto do mundo, condenando o país a um equilíbrio de estagnação estrutural que penaliza, sobretudo, as camadas médias e mais vulneráveis da população.

Neste ponto, a gestão Haddad revela sua dimensão mais destrutiva, porque silenciosamente regressiva. A produtividade do trabalho, variável central para aumentos sustentáveis de renda, cresce menos de 1% ao ano no Brasil, contra múltiplos disso em economias asiáticas. O resultado é um mercado de trabalho marcado por alta informalidade (próxima de 40%), expansão de ocupações de baixa qualidade e dificuldade crônica de ascensão social, sem mencionar os imensos contingentes populacionais mantidos intencionalmente sob dependência de programas assistenciais e de transferência de renda, com evidentes objetivos eleitorais.

Nesse arranjo mefistofélico, a pobreza deixa de ser um problema a ser superado e passa a ser, na prática, um ativo político a ser administrado: em vez de se promover autonomia econômica por meio de produtividade, educação e investimento, perpetua-se um ciclo em que a fragilidade social é continuamente reciclada como instrumento de poder.  O resultado não é apenas estagnação econômica, mas a institucionalização da dependência, na qual a miséria não é erradicada, mas mantida e explorada.

Adicionalmente, a persistência de juros elevados, sintoma direto da fragilidade fiscal e da desancoragem de expectativas, desestimula investimento produtivo, encarece o crédito, comprime o consumo das famílias (que cresceu apenas 1,3%) e amplia o custo da dívida pública. Cria-se, assim, um ambiente de asfixia econômica generalizada, no qual o crescimento depende cada vez mais de estímulos artificiais.

Essa dinâmica interna encontra eco no front externo. O aumento da dívida externa, já próxima de USD 400 bilhões, reduz a margem de segurança do país e amplia sua vulnerabilidade a choques internacionais. Mais uma vez, o padrão se repete: o Brasil consome mais do que produz, investe menos do que deveria e financia essa diferença com endividamento.

No plano microeconômico, os sinais são inequívocos. O avanço recorde de inadimplência, o crescimento acelerado de recuperações extrajudiciais e a deterioração financeira de empresas indicam que a economia real opera sob tensão crescente, em quadro convergente com os dados macro de crédito caro, crescimento baixo, renda pressionada carga tributária elevada. O resultado é um ciclo vicioso de fragilização sistêmica, com menos investimento, mais insolvência, menor capacidade de expansão.

Talvez um dos dados mais simbólicos desse declínio seja o colapso do Brasil no ranking de Liberdade Econômica 2025. O país caiu para a 134ª posição entre 184 países, com pontuação de 49 em 100, classificado como economia "majoritariamente não livre" e perigosamente próximo da categoria de "reprimida".

Mais do que a posição absoluta, o que realmente importa é a trajetória. Em 2019, o Brasil ocupava a 105ª posição; agora, acumula quedas sucessivas, refletindo deterioração em praticamente todos os pilares avaliados: carga tributária elevada, gasto público crescente, piora da saúde fiscal, insegurança jurídica e ambiente regulatório hostil. O dado mais revelador é que essa queda ocorre em termos relativos, ou seja, não se trata apenas de o Brasil piorar, mas de outros países estarem melhorando mais rápido.

 O contraste internacional é eloquente. Enquanto o Brasil recua, a Argentina saltou de 144º para 106º em um único ciclo, refletindo mudanças pró-mercado. Economias do Sudeste Asiático e do Leste Europeu continuam subindo constantemente. Mesmo na América Latina, o Brasil já aparece atrás da maioria dos pares, superando apenas casos extremos como Bolívia e Venezuela.

Rankings de liberdade econômica não são meramente simbólicos, pois capturam variáveis centrais para o crescimento de longo prazo. Quando um país despenca nesse tipo de indicador, o efeito é imediato e cumulativo, com menos investimento estrangeiro, menor formação de capital, fuga de empresas e talentos, crescimento potencial mais baixo e, inevitavelmente, mais atraso relativo.

A conclusão a que se chega é que o Brasil não está apenas mal posicionado, mas em trajetória de deterioração institucional. E, em economia, direção importa mais do que o ponto de partida. Não se deve, todavia, tratar todo esse processo como uma sucessão de equívocos. O que se observa é uma lógica pérfida de funcionamento que privilegia o Estado como agente central, ainda que ao custo da eficiência econômica. A economia cresce pouco, investe pouco e inova pouco, mas o Estado cresce muito.

Trata-se, de fato, de uma engenharia coerente em sua falta de racionalidade: aumentar arrecadação, expandir gasto, sustentar demanda artificialmente e administrar os desequilíbrios via endividamento, o que conduz, inexoravelmente, à estagnação relativa.

É precisamente sobre esse edifício de fragilidades acumuladas que despenca, agora, o choque externo mais severo desde a crise de 2008: o conflito no Golfo Pérsico. Desde 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram a Operação Fúria Épica contra o Irã, o Oriente Médio entrou em espiral de escalada militar cujas repercussões econômicas já são descritas como a maior perturbação no fornecimento mundial de energia desde a crise dos anos 1970.

Para o Brasil, o impacto é duplamente perverso. No curto prazo, a alta dos combustíveis pressiona a inflação num momento em que o Banco Central já opera com juros proibitivos, estreitando ainda mais o espaço de manobra monetária. No médio prazo, a volatilidade global e a aversão ao risco ampliam os prêmios exigidos por investidores para financiar a dívida de economias emergentes fiscalmente fragilizadas, e poucas economias emergentes estão tão fragilizadas quanto a brasileira neste momento.

A alta do petróleo, que em tese poderia beneficiar a Petrobras e as receitas de royalties, será insuficiente para compensar a deterioração das condições financeiras globais, a contração do crédito internacional e a fuga de capitais para ativos de refúgio. Um país com dívida superelevada, taxa de investimento reduzida, produtividade estática e marco regulatório hostil não tem margem para absorver um choque dessa magnitude sem que as fraturas estruturais se agravem exponencialmente.

O legado que se consolida não é apenas o de Haddad ou de um governo, mas o de uma trajetória que remete às chamadas "décadas perdidas". A tragédia não é apenas o que foi feito: é o que foi inviabilizado, pois, ao sufocar os motores da produtividade e transformar o Brasil em um ambiente antagônico à criação de riqueza e à inovação, a política econômica de Haddad não apenas compromete o presente, mas institucionaliza o atraso.

Se nada mudar, o Brasil se tornará cada vez mais irrelevante no cenário global, mais desigual internamente e cada vez mais distante do potencial que insiste em desperdiçar. Um país rico condenado a permanecer pobre. Um gigante que não apenas deixou de crescer, mas que aprendeu a conviver com o próprio atraso. E talvez essa seja a mais perversa das heranças: não apenas o empobrecimento material, mas a normalização da decadência.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX).

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