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A ladeira que não se sobe de carro

Largo da Memória, em São Paulo, fotografado no ano de 1919.
Largo da Memória, em São Paulo, fotografado no ano de 1919. (Foto: Aurélio Becherini/Acervo do Museu da Cidade de São Paulo)

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Eu sou o único dos três filhos da Alba e do Fernando que não morou em São Paulo, e quando lá estive pela última vez, em agosto de 2022, aproveitei a folga laboral para ir ao centro da cidade e subir a Ladeira da Memória.

A Ladeira da Memória fica no Largo homônimo, centrão de São Paulo, que já não existe senão como topônimo e como ferida, e que José Geraldo Vieira, num romance esquisito de 1950 que o Brasil fez questão de esquecer, transformou na mais exata metáfora do que significa estar vivo e ter perdido alguma coisa que não se pode nomear sem que a voz falhe. A Ladeira da Memória não é um lugar: é uma inclinação da alma, um plano por onde descem, em desordem, os fragmentos daquilo que fomos e que, por covardia ou por excesso de pudor, recusamos integrar ao que somos. Subir a ladeira é o contrário de nostalgiar e um ato de coragem ontológica.

O romance conta a história de Jorge, médico e romancista, que rememora seu amor impossível por Renata, uma mulher casada que o amava através de seus livros, penetrando-lhe a alma pela literatura antes de lhe tocar o corpo, que aliás jamais tocou. O tio de Jorge, num trem noturno, lhe diz com a autoridade serena, sem a avacalhação rodrigueana que define o Brasil, com o pejo dos que já sofreram o bastante para não terem mais pressa: "O romancista salvará o homem." E lhe ordena, como quem prescreve um remédio amargo, que suba a ladeira da memória, que veja a que ficou reduzido o desvão do passado, e que resolva reinserir-se na existência autêntica. A frase é de uma brutalidade compassiva que só um escritor da estirpe de José Geraldo Vieira poderia produzir sem cair no sentimentalismo ou na autoajuda.

Ora, o que é a existência autêntica senão aquilo que Husserl chamava de retorno às coisas mesmas, a suspensão de todos os véus interpretativos que a vida social deposita sobre a experiência bruta do real? A fenomenologia husserliana, antes de ser um método filosófico, é uma disciplina do olhar: é a decisão de não aceitar que o hábito nos roube a estranheza do mundo. Jorge, no romance, está anestesiado pela dor, e a anestesia é justamente o contrário da epoché fenomenológica: é a recusa de perceber. O tio lhe diz, em essência, que ele precisa voltar a perceber, ainda que perceber signifique sofrer, porque só quem percebe pode criar, e só quem cria se salva.

Mário Ferreira dos Santos, que, como Vieira, pertence àquela linhagem de pensadores brasileiros que o Brasil prefere ignorar a ter de enfrentar, escreveu que o homem é o ser que se realiza na proporção em que atualiza suas potências. A formulação é aristotélica em sua raiz: o ato é superior à potência, e a vida plena consiste na passagem do que se pode ser ao que se é de fato. Jorge, no romance, é pura potência paralisada. Ele pode amar, pode escrever, pode viver, mas está estatelado, como o próprio romance diz com uma franqueza cruel. A ladeira da memória é o caminho da potência ao ato, e subi-la exige o que Aristóteles chamaria de coragem, que não é a ausência do medo, mas a decisão de agir apesar dele.

Olavo de Carvalho, que foi um dos poucos a insistir na grandeza de José Geraldo Vieira quando ninguém mais o lia, percebeu que o esquecimento desse autor não era acidental, mas sintomático. Vieira era cosmopolita quando o Brasil exigia regionalismo; era católico quando a intelectualidade marchava para a esquerda; era estilista quando a moda era a prosa magra e sociológica. Seu crime foi ser inclassificável, e o Brasil, que adora classificar para depois arquivar, não soube o que fazer com um romancista que citava Novalis e Rilke mas escrevia sobre o Largo da Memória com a intimidade de quem conhecia cada paralelepípedo. O resultado foi o silêncio, que é a forma brasileira da excomunhão literária.

Mas há algo mais profundo nesse esquecimento, e que diz respeito ao próprio Brasil e ao amor que se tem por ele, esse amor arrombado, envergonhado, triste e quase clandestino que todo brasileiro carrega como quem carrega uma doença da qual não se fala em público.

Amar o Brasil é subir uma ladeira da memória coletiva que inclui tanto a grandeza quanto a vergonha, tanto Aleijadinho quanto a escravidão, tanto Machado de Assis quanto a mediocridade que insiste em não reconhecê-lo. José Geraldo Vieira amava o Brasil à sua maneira, que era a maneira mais difícil: amava-o sem condescendência, sem ufanismo, sem a chantagem sentimental que transforma o patriotismo numa forma de cegueira voluntária, e aí, ele amava o Brasil como Jorge amava Renata: de longe, sem posse, sabendo que o objeto do amor é sempre maior do que a capacidade de amar.

O amor sacrificial de que fala o romance, esse amor que não se consuma no corpo mas que nem por isso é menos real, é talvez a forma mais adequada de amar um país como o Brasil, que nos dá tudo e nos tira tudo, que nos enche de beleza e de horror em proporções que desafiam qualquer tentativa de síntese racional. Renata não deixa o marido, Jorge não insiste, e o amor entre ambos permanece no estado de pura tensão que é, paradoxalmente, sua forma mais elevada, e assim é com o Brasil: nós o amamos não apesar de suas contradições, mas através delas, e a ladeira da memória nacional é feita dessas contradições colocadas umas ao lado das outras como os paralelepípedos de Copacabana.

Subir a ladeira da memória, seja ela pessoal ou nacional, não é um exercício de nostalgia: é um ato de reinserção na existência autêntica, como escreveu Vieira com uma precisão que faria inveja a qualquer fenomenólogo. É olhar para o desvão do passado e decidir que aquilo tudo, o amor perdido, o país imperfeito, a infância que não volta, a ladeira que já não existe senão como nome, tudo isso nos pertence e nos constitui, e que recusar essa herança é recusar a própria vida. O romancista salvará o homem, disse o tio de Jorge. Talvez a memória salve o Brasil, se algum dia tivermos a coragem de subir a ladeira.

*Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem as do MRE.

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