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Documento histórico

Veja relato original sobre a morte de Abraham Lincoln, assassinado há 161 anos

Lincoln: presidente responsável pelo fim da escravidão foi assassiando em 1866.
Lincoln: presidente responsável pelo fim da escravidão foi assassiando em 1866. (Foto: Acervo/Library of Congress)

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Charles Leale era um cirurgião militar de apenas 23 anos quando ouviu John Wilkes Booth disparar um único tiro fatal contra Abraham Lincoln, no Teatro Ford, em Washington, DC. Era 15 de abril de 1865. Leale estava a poucos metros do presidente, assistindo à peça de comédia “Our American Cousin”. Foi o primeiro profissional de saúde a socorrer o presidente americano.

Inicialmente, o médico desconfiou de uma agressão a faca, porque viu Booth portando uma adaga durante a fuga – ele posteriormente seria baleado, depois de 12 dias em fuga. Mas logo o cirurgião identificou o orifício da bala no crânio e removeu um coágulo, e assim reestabeleceu a respiração da vítima. Percebeu rapidamente que o estado era crítico, e participou da remoção do paciente para uma residência posicionada do outro lado da rua.

Leale acompanhou a vítima até as 7h22 da manhã de 15 de abril, quando Lincoln faleceu. Posteriormente, escreveu um relato detalhado sobre as horas finais da vida do 16º presidente americano. O cirurgião serviu ao Exército até 1866, quando se estabeleceu como médico em Nova York. Faleceria em 1932, aos 90 anos de idade.

Leia o relatório de Charles A. Leale sobre o assassinato de Abraham Lincoln, em tradução livre do inglês

“Tendo sido o primeiro da nossa profissão a chegar para auxiliar o nosso falecido presidente, e tendo sido solicitado pela senhora [Mary Todd] Lincoln a fazer o que pudesse por ele, assumi a responsabilidade até a chegada do cirurgião-geral e do doutor [Robert King] Stone, seu médico de família, o que ocorreu cerca de 20 minutos depois de o termos colocado na cama na casa do senhor [William] Peterson, em frente ao teatro, e como permaneci com ele até a sua morte, submeto humildemente o seguinte breve relato.

Cheguei ao Teatro Ford por volta das 20h15 do dia 14 de abril de 1965 e consegui um lugar no balcão, a cerca de 12 metros do camarote presidencial. A peça estava em andamento e, em poucos minutos, vi o presidente, a senhora Lincoln, o major [Henry Reed] Rathbone e a senhorita [Clara] Harris entrarem; enquanto se dirigiam ao camarote, foram vistos pela plateia, que os aplaudiu, o que foi retribuído pelo presidente e pela senhora Lincoln com um sorriso e uma reverência.

A comitiva foi precedida por um assistente que, após abrir a porta do camarote e fechá-la depois que todos entraram, sentou-se em um assento próximo. O teatro estava lotado e a peça ‘Our American Cousin’ transcorria muito bem até por volta das dez e meia, quando o disparo de uma pistola foi claramente ouvido e, cerca de um minuto depois, um homem de baixa estatura, com cabelos e olhos negros, foi visto saltando para o palco, segurando uma adaga desembainhada.

Ao descer, seu calcanhar se enroscou na bandeira americana, que estava pendurada em frente ao camarote, fazendo-o tropeçar ao atingir o palco, mas com um único salto ele recuperou o movimento dos membros e correu para o lado oposto do palco, brandindo uma adaga desembainhada e desaparecendo atrás da cena.

Quando cheguei ao presidente, ele estava em estado de paralisia geral, seus olhos estavam fechados e ele se encontrava em estado de coma profundo.

Em seguida, ouvi gritos de que o ‘Presidente foi assassinado’, seguidos por outros de ‘Matem o assassino’, ‘Atirem nele’, etc., vindos de diferentes partes da plateia. Corri imediatamente para o camarote presidencial e assim que a porta se abriu, fui admitido e apresentado à senhora Lincoln, que exclamou várias vezes: ‘Ó, doutor, faça o que puder por ele, faça o que puder!’. Eu lhe disse que faríamos tudo o que fosse possível.

Quando entrei no camarote, as senhoras estavam muito agitadas. O senhor Lincoln estava sentado em uma poltrona de encosto alto, com a cabeça inclinada para a direita, apoiado pela senhora Lincoln, que chorava amargamente. A senhorita Harris estava perto dela, à esquerda, e atrás do presidente. Enquanto me aproximava do presidente, enviei um cavalheiro para buscar conhaque e outro para buscar água.

Quando cheguei ao presidente, ele estava em estado de paralisia geral, seus olhos estavam fechados e ele se encontrava em estado de coma profundo, enquanto sua respiração era intermitente e extremamente estertorosa. Coloquei meu dedo em seu pulso radial direito, mas não pude perceber nenhum movimento da artéria. Como dois cavalheiros chegaram, pedi-lhes que me ajudassem a colocá-lo em posição reclinada e, enquanto segurava sua cabeça e ombros, minha mão entrou em contato com um coágulo de sangue perto de seu ombro esquerdo.

Supondo que ele tivesse sido esfaqueado ali, pedi a um cavalheiro que lhe cortasse o casaco e a camisa naquela parte, para que eu pudesse, se possível, verificar a hemorragia que supus ter ocorrido na artéria subclávia ou em algum de seus ramos.

Antes que chegassem ao cotovelo, comecei a examinar sua cabeça (pois não foi encontrada nenhuma ferida perto do ombro) e logo passei meus dedos sobre um grande coágulo firme de sangue situado cerca de um centímetro abaixo da linha curva superior do osso occipital. Removi facilmente o coágulo e passei o dedo mínimo da minha mão esquerda pela abertura perfeitamente lisa feita pela bala, e constatei que ela havia entrado no encéfalo.

Assim que retirei o dedo, houve um leve sangramento e sua respiração tornou-se mais regular e menos estertorosa. O conhaque e a água chegaram então e uma pequena quantidade foi colocada em sua boca, que passou para o estômago, onde foi retida. O doutor [Charles Sabin] Taft e o doutor [Albert] King chegaram e, após uma breve consulta, concordamos em levá-lo para a casa mais próxima, o que fizemos imediatamente, com a ajuda dos mencionados acima e de outros.

Quando chegamos à porta do camarote, o corredor estava densamente lotado de pessoas que se dirigiam para aquela parte do teatro. Gritei duas vezes: ‘Guardas, desobstruam o corredor!’, o que foi feito tão rapidamente que prosseguimos sem demora com o presidente e não fomos interrompidos até que ele fosse colocado na cama na casa do senhor Peterson, em frente ao teatro, em menos de 20 minutos após o assassinato. A rua em frente ao teatro, antes de sairmos, estava repleta da população agitada, muitos dos quais nos seguiram até a casa.

Assim que chegamos ao quarto que nos foi oferecido, colocamos o presidente na cama em posição diagonal; como a cama era muito curta, uma parte do pé foi removida para que pudéssemos colocá-lo em uma posição confortável. As janelas foram abertas e, a meu pedido, um capitão presente fez com que todos saíssem do quarto, exceto os médicos e amigos.

Assim que o colocamos na cama, tiramos suas roupas e o cobrimos com cobertores. Ao cobri-lo, percebi que suas extremidades inferiores estavam muito frias, dos pés até alguns centímetros acima dos joelhos. Então, mandei buscar garrafas de água quente e cobertores quentes, que foram aplicados em suas extremidades inferiores e abdômen.

Vários outros médicos e cirurgiões chegaram por volta dessa hora, entre eles o doutor Stone, que era o médico do presidente desde a chegada de sua família à cidade. Após ser apresentado ao doutor Stone, perguntei-lhe se ele assumiria o caso (informando-lhe na ocasião tudo o que havia sido feito e descrevendo o ferimento). Ele concordou e aprovou o tratamento.

O cirurgião-geral e o cirurgião [Charles] Crane chegaram em poucos minutos e examinaram o ferimento. Quando o presidente foi deitado na cama, notou-se uma leve equimose em sua pálpebra esquerda e a pupila desse olho estava ligeiramente dilatada, enquanto a pupila do olho direito estava contraída. Por volta das 23 horas, o olho direito começou a protuberar, o que foi rapidamente seguido por um aumento da equimose até que esta circundou a órbita, estendendo-se acima da crista supraorbital e abaixo do forame infraorbital.

A ferida foi mantida aberta pelo cirurgião-geral por meio de uma sonda de prata, e enquanto o presidente era colocado diagonalmente na cama, sua cabeça era sustentada nessa posição pelo cirurgião Crane e pelo doutor Taft, que se revezavam.

Por volta das 2 horas da manhã, o administrador do hospital, que havia sido enviado para buscar uma sonda de Nelaton, chegou e foi examinada pelo cirurgião-geral, que a introduziu a uma distância de cerca de 6,35 centímetros, quando entrou em contato com uma substância estranha, que se encontrava transversalmente à trajetória da bala.

Tendo passado facilmente por isso, a sonda foi introduzida vários centímetros mais adiante, quando tocou novamente uma substância dura, que a princípio se supôs ser a bola, mas como a ponta da sonda, ao ser retirada, não indicava a marca de chumbo, geralmente se acreditava que fosse outro fragmento ósseo solto.

Às 7h20, ele exalou seu último suspiro e ‘o espírito partiu para Deus, que o concedeu’.

A sonda foi introduzida uma segunda vez e a bola teria sido claramente sentida pelo cirurgião-geral, pelo cirurgião Crane e pelo doutor Stone. Após essa segunda exploração, nada mais foi feito com a ferida, exceto manter a abertura livre de coágulos, que, se formados e mantidos por um curto período, produziriam sinais de compressão aumentada: a respiração se tornaria profundamente estertorosa e intermitente, e o pulso mais fraco e irregular.

Seu pulso, que foi contado diversas vezes pelo doutor Ford e anotado pelo doutor King, variou até o meio-dia entre 40 e 64 batimentos por minuto, e sua respiração, cerca de 24 por minuto, era ruidosa e estertorosa. À 1 hora da manhã, seu pulso aumentou repentinamente de frequência para 100 por minuto, mas logo diminuiu gradualmente, tornando-se menos fraco até às 2h54, quando estava em 48 e quase imperceptível.

Às 6h40, seu pulso não podia ser contado, pois era muito intermitente, com duas ou três pulsações sendo sentidas e seguidas por uma pausa, durante a qual não se sentia o menor movimento da artéria. As inspirações tornaram-se muito curtas e as expirações muito prolongadas e laboriosas, acompanhadas de um som gutural. Às 6h50, a respiração cessou por algum tempo e todos olharam ansiosamente para seus relógios até que o profundo silêncio foi perturbado por uma inspiração prolongada, que logo foi seguida por uma expiração sonora.

O cirurgião-geral então pressionou o dedo contra a artéria carótida, o coronel Crane segurou sua cabeça, o doutor Stone, que estava sentado na cama, pressionou seu pulso esquerdo, e eu pressionei o pulso direito. Às 7h20, ele exalou seu último suspiro e ‘o espírito partiu para Deus, que o concedeu’ [referência ao trecho bíblico presente em Eclesiastes 12:7].

Durante a noite, o quarto foi visitado por muitos de seus amigos. A senhora Lincoln, acompanhada do senador [James] Dixon, entrou no quarto três ou quatro vezes durante a noite. O filho do presidente, capitão [Robert Todd] Lincoln, permaneceu com o pai durante a maior parte da noite.

Imediatamente após o falecimento, todos nós nos curvamos e o reverendo [Phineas] Gurley suplicou a Deus em favor da família enlutada e de nosso país aflito.”

Fonte: Journal of the Abraham Lincoln Association.

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