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O PT saiu da apuração de domingo com o diagnóstico de que falhou na comunicação e foi buscar orientação com a jovem que construiu a carreira respondendo a Nikolas Ferreira (PL), o único candidato a deputado que teve mais votos do que ela no estado. Na noite da terça-feira, a equipe de comunicação do presidente ficou até as 23h reunida com Ana Elisa Santos, a petista de 21 anos eleita deputada federal por Minas Gerais com 524 mil votos numa campanha feita sobretudo em vídeos curtos de Instagram e TikTok.
A entrada dela na campanha, entretanto, passou rapidamente de um reforço para um problema: usuários da rede social X encontraram publicações em que Ana Elisa ataca as igrejas evangélicas e usa termos discriminatórios.
De Divinópolis ao segundo lugar
Ana Elisa nasceu em Divinópolis, no Centro-Oeste mineiro, filha de uma professora que a criou sozinha. Ela cursa Direito e era estagiária no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais quando entrou na primeira disputa eleitoral da vida. Ganhou público com vídeos em que respondia a falas de Nikolas e do senador Flávio Bolsonaro.
A jovem teve uma passagem pelo PV, sem nunca ter concorrido, e se filiou ao PT em março, ainda com 20 anos. Quando ingressou no partido, Ana Elisa tinha perto de 1 milhão de seguidores no Instagram. No dia da eleição, 1,9 milhão. Depois da apuração, passou dos 2 milhões. No domingo, ela teve 524.216 votos. Foi a maior votação de uma mulher para deputada federal na história de Minas. Ela também se tornou o parlamentar mais jovem já eleito pelo estado.
Até as 23h com a equipe do presidente
Na reunião de terça, contou ela ao Metrópoles, a equipe procurava formatos que levassem Lula às redes sem tirá-lo da zona de conforto. Ana Elisa disse que o maior ativo do partido hoje está no telefone. O nome dela havia chegado à coordenação da campanha na véspera, levado pelo vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), que afirma ter sugerido convidá-la para reforçar a comunicação digital.
Na quarta de manhã, ela participou da plenária de Lula com parlamentares de esquerda eleitos e reeleitos, ao lado de Pedro Rousseff, sobrinho-neto de Dilma Rousseff eleito deputado federal por Minas, e de André Janones (Rede-MG), que em três dias reuniu 1,8 milhão de pessoas num canal de WhatsApp chamado Exército do Lula. Do encontro saiu um vídeo coletivo em selfie em que o presidente e os jovens deputados convocam a juventude a votar.
A ideia da selfie não partiu dela. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que grava nesse formato com frequência, levou a sugestão a Lula depois do primeiro turno. A CNN Brasil relatou que o presidente (que diz não ter celular) resistiu a esse tipo de vídeo durante toda a primeira etapa, apesar dos pedidos da própria campanha, e se dizia desconfortável diante da câmera do celular. Entre domingo e quarta, entraram na conta o resultado das urnas e uma deputada de 21 anos cuja votação servia de prova para o argumento.
"A Janja levanta todo dia…"
Na plenária, Lula explicou a mudança com as próprias palavras. Disse que não usa celular porque tem as mãos para fazer outras coisas e porque gosta de falar só o essencial. Mas, segundo o próprio, “o pessoal me enche o saco”. Contou que a primeira-dama, Janja, “levanta todo dia” e pede “selfies todas as manhãs" e que ele não gosta. "Hoje, eu resolvi fazer", afirmou, aplaudido pela plateia.
A aversão é antiga. Em maio de 2025, num evento com o presidente de Angola no Palácio do Planalto, Lula disse que não tinha telefone e ofereceu aos chefes de Estado o número da primeira-dama ou de assessores para quem quisesse falar com ele sem esperar a burocracia do Itamaraty.
Uma pauta por dia
No domingo da eleição, Ana Elisa disse ao jornal O Tempo que a esquerda perde se não dominar as redes e que ainda há tempo, porque as redes têm memória fraca. A diretriz aprovada na plenária de quarta segue essa aposta: segundo aliados ouvidos pelo jornal mineiro, a campanha vai distribuir uma pauta diária de conteúdo para ser replicada por parlamentares, militantes e "pessoas comuns". Os dois primeiros vídeos de Lula trataram da convocação para a rua e do fim da escala 6x1, cobrando de Flávio uma posição sobre a proposta.
A votação é em 25 de outubro, e a campanha tem até lá para descobrir se o eleitor das grandes cidades mineiras, onde Flávio venceu, assiste aos vídeos que o presidente de 80 anos começou a gravar depois de ouvir uma deputada de Divinópolis que ainda não tomou posse.
Passado problemático
Mas a euforia da Na quinta-feira (8), um dia depois da plenária, perfis passaram a circular capturas de tela de publicações atribuídas a Ana Elisa no X.

A imagem mais compartilhada aparece com data de 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno daquela eleição, quando ela tinha 17 anos: “Lula eu acho mesmo que vc deve fechar as igrejas esses crente só faz m… MEU DEUS DO CÉU”. Nikolas Ferreira compartilhou a imagem e escreveu: “Já virei voto demais com isso aqui”. Outra captura, datada de abril deste ano, pergunta quando o Vaticano vai proibir aos padres o acesso à rede social.
Outros perfis conservadores, entre eles o de Flávio Bolsonaro, entraram no tema e passaram a publicar a mensagem "Lula não feche a minha igreja".
Em um vídeo publicado no Instagram, Ana Elisa negou a autoria das postagens. Ela disse que a imagem sobre as igrejas é uma montagem e afirmou que levaria o caso ao Tribunal Superior Eleitoral, com pedido para suspender a diplomação de Nikolas e de outros que a compartilharam. Na resposta a Nikolas, a deputada eleita resgatou um tuíte de 2014 atribuído a ele, com uma mensagem ofensiva sobre Nossa Senhora, cuja autoria ele também nega.
Na mesma noite, a conta dela no X foi desativada. “A minha equipe desativou a minha conta no Twitter porque nós estávamos recebendo ameaça de morte a cada dois minutos”, ela disse ao Metrópoles. Ana Elisa afirmou que, se algo lhe acontecer, a responsabilidade deverá recair sobre Nikolas e sobre Gleidson Azevedo (Republicanos) e Eduardo Azevedo (PL), a quem atribui a disseminação do material. Os dois são irmãos do governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) e, como ela, fizeram carreira política em Divinópolis.
Ao mesmo tempo, outras publicações do perfil de Ana Elisa no X passaram a circular. Algumas delas foram salvas no site Archive.today, que salva publicações, e atreladas ao usuário @aanaelisast, utilizado pela petista nas redes sociais. Ou seja: não se trata de material forjado.
Entre essas mensagens, está outra referência ao fechamento de igrejas. "Lula para de fazer coisas boas para o Brasil, cadê o kit gay e o fechamento das igrejas?", ela publicou em abril de 2023.
Em junho de 2024, dois dias depois de a Câmara aprovar a urgência do projeto que equipara ao homicídio o aborto feito após a 22ª semana de gestação, inclusive em casos de estupro, publicou: “F…-SE SE É DEPOIS DA 22ª SEMANA F…-SE É DE ESTUPRADOR, O ABORTO É LIVREEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! QUEM DECIDE É A VÍTIMA,P…, QUEIMA ESSA BANCADA EVANGÉLICA, QUEIMA ESSE PL, PQ NEM O CAPETA PODE COM ESSE POVOOOOO!!!!!!”.
Em janeiro de 2025, três dias depois de a Meta anunciar o fim de seu programa de checagem de fatos nos Estados Unidos, escreveu: “pois eu já não vejo a hora do Xandão bloquear, Instagram, Facebook, e WhatsApp, por favor, TORNE REAL!”
Demorou quatro dias para que Ana Elisa passasse de uma esperança para um problema na campanha de Lula.




