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A frase "acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é" é uma tática de guerra política. Não se conhece o autor, mas ela é atribuída ora a Vladimir Lenin, ora a Joseph Goebbels.
Na guerra moderna o uso de palavras-chave é capaz de moldar percepções e ideias. Há décadas, a liderança palestina, a esquerda mundial e seus apologistas adotam uma tática que chamamos de “espelhamento” - acusar seu inimigo de cometer as ações que você comete. Ao acusarem Israel de 'apartheid', “genocídio” e 'colonialismo', eles não estão descrevendo comportamentos do Estado judeu; estão projetando suas próprias políticas, ideologias e fracassos morais. É uma estratégia de inversão, onde o acusador esconde que é ele quem pratica a exclusão sistemática, a limpeza étnica, o genocídio de um povo e o colonialismo teocrático.
Acusar os adversários do que você faz cria uma cortina de fumaça e desvia a atenção, ataca o oponente com as próprias falhas de quem o acusa, uma tática para confundir e enganar o público sobre quem é o verdadeiro culpado de uma ação. É uma forma que o livra de assumir responsabilidades por seus comportamentos.
A melhor maneira de fazer isso é usando “palavras-chave”, fáceis de assimilar e com forte impacto emocional. Três delas são apartheid, genocídio e colonialismo, usadas com constância pelo mundo árabe, pelas esquerdas e pelos antissemitas. Vamos analisá-las.
Apartheid
O uso de apartheid para definir Israel não busca corrigir ou apontar uma política, mas quer rotular Israel como inerentemente criminoso e que portanto, tal como a África do Sul que efetivamente praticou o apartheid, Israel “deve ser desmantelado”. Mas a acusação de apartheid está longe da realidade. Em Israel, os árabes (21% da população) participam de todas as áreas sociais, políticas e econômicas. São donos de empresas e de terras, médicos, advogados, músicos, parlamentares, esportistas, contadores, artistas, juízes (inclusive do Supremo), prefeitos (53 cidades), educadores, policiais e oficiais do exército. Mesquitas e Igrejas estão por toda parte.
Na Cisjordânia vivem hoje cerca de 700.000 judeus, mas nem um único deles em alguma das funções citadas acima. Nenhum mesmo. E vender terras a judeus pode ser punido com prisão perpétua com trabalhos forçados.
Colonialismo
Outra acusação frequente é a de que Israel pratica o colonialismo. Mas os colonialistas tinham e têm um lar para retornar (Londres, Paris, Bruxelas, Lisboa). Os judeus chegaram a Israel como refugiados sem ter para onde ir, voltando à sua terra ancestral. Judeus estão presentes na Terra de Israel desde tempos imemoriais com presença contínua; não ocorreu sequer uma única noite sem judeus em Israel, seja em Jerusalém ou na Galileia. Os árabes chegaram pela primeira vez no ano 636, quando os judeus já a ocupavam a terra havia pelo menos 1800 anos. Usa-se o termo “colonialismo” para obter a simpatia de ativistas ocidentais, principalmente adeptos da cultura woke e esquerdistas.
Os verdadeiros colonialistas são os árabes: invadiram o Egito cristão copta, transformando o país em uma nação árabe islâmica. Fizeram o mesmo com os povos berbères da África (Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos). Foram também para o norte, o Líbano e a Síria outrora cristãos e os islamizaram assim como à Turquia, centro cristão e xamanista. Durante a expansão otomana, o Islã foi imposto na Europa em países como a Bósnia, Albânia, Kosovo, Chechênia, Azerbaijão e Sérvia. Foram eles os colonizadores, impondo sua fé e seu modo de vida.
Genocídio
O terceiro e mais gritante termo é genocídio, definido como “extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso”. Genocídio? Os árabes em Israel após a independência eram 154.000 e hoje são 2.120.000. Na Palestina (Cisjordânia + Gaza) eram 1.040.000; hoje são 5.450.000. Na recente guerra em Gaza, morreram cerca de 70.000 pessoas - 30.000 terroristas e cerca de 18.500 mortes por idade, doenças e violência interna. Há então cerca de 22.000 mortos não envolvidos no conflito. Na Síria houve 750.000 mortes de pessoas não envolvidas, no Sudão 160.000, no Iêmen 377.000 (dos quais 125.000 crianças), no Tigrei os números variam entre 400.000 e 700.000 (dependendo da fonte) e no Iraque 360.000. São todas nações islâmicas! Mas o ocidente se cala e só os 22.000 de Gaza levam manifestantes pelo mundo a acusarem Israel de genocídio.
Estratégia contra Israel
E qual a justificação para o uso das palavras-chave?
O primeiro e mais importante é que palavras-chave são fáceis de viralizar nas redes sociais. Não necessitam de provas ou evidências de intenção.
A segunda é que geram imediata condenação universal, pois genocídio, apartheid e colonialismo são considerados “pecados morais” no Ocidente e quem os pratica, por definição, se torna mau, diabólico, sanguinário. É inaceitável alguém definido como perverso!
E a terceira, não menos importante, é que estas palavras dão aos verdadeiros genocidas e praticantes de apartheid um escudo protetor. O Hamas, em cujos estatutos está a busca da destruição de Israel e a matança de judeus, se encobre de uma cortina de fumaça. Idem com a Autoridade Palestina e seu programa “pagar para matar”, que remunera regiamente qualquer terrorista que conseguir matar judeus. Com a cortina de fumaça criada, o mundo deixa de olhar para os abusos de direitos humanos (assassinatos de gays, perseguições a cristãos, discriminação de mulheres) e tampouco para a corrupção em seus governos.
Palavras-chave usam conceitos não verdadeiros - uma ferramenta de guerra psicológica eficiente para deslegitimar a única verdadeira democracia no Oriente Médio.
Infelizmente a esmagadora maioria de quem as usa jamais buscou saber se elas refletem a realidade — repetem-nas como mantras reais e negam-se a conhecer a verdade.
Marcos L. Susskind se dedica à análise político-militar do Oriente Médio. Escreve para veículos no Brasil, México, Estados Unidos e Israel. É palestrante, formado pela FGV-SP e reside em Israel.







