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Triste histórico

Master, Panamericano, Banestado: os escândalos bancários que abalaram o país

Banco Master
Sede do Banco Master em São Paulo. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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O colapso do Banco Master adicionou mais um capítulo em uma triste e já longa história do mercado financeiro no Brasil. Quando os bancos, que devem zelar pelo dinheiro de seus clientes, e pela economia do país, são engolidos por fraudes, má gestão e episódios de corrupção.  

Neste histórico, o caso do Banco Master já desponta como a maior fraude bancária registrada no país. Um escândalo que revelou um rombo de dezenas de bilhões de reais, abalou a República e, pelo jeito, ainda está longe de terminar.

As investigações indicam que a instituição inflava o próprio patrimônio com operações fictícias. E, para atrair recursos, oferecia rentabilidade muito acima da média. Quando a maquiagem contábil deixou de encobrir a falta de caixa, o esquema ruiu completamente.

Infelizmente, mascarar prejuízos, aproveitar brechas na fiscalização e abusar da confiança do público é um roteiro já conhecido no país. A seguir, a Gazeta do Povo resgata alguns dos principais escândalos envolvendo diretamente bancos ao longo das décadas no Brasil.  

O estouro do Encilhamento 

No fim do século XIX, o Brasil tentava impulsionar sua industrialização. Para isso, o então Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, tomou uma decisão ousada. O apelidado Águia de Haia permitiu que vários bancos emitissem papel-moeda livremente. A ideia era criar crédito fácil, mas o resultado foi um desastre. 

Com muito dinheiro circulando sem controle, o país viveu uma febre de especulação na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Segundo registros históricos, empresários criaram empresas "fantasmas" (pois é, já neste tempo) apenas para captar esse dinheiro fácil investido por pessoas comuns. 

Quando a bolha estourou, o impacto foi devastador. Bancos faliram do dia para a noite, milhares de investidores perderam suas economias e o Brasil mergulhou em uma grave crise de hiperinflação. O colapso financeiro ensinou uma lição dura ao país, forçando o governo a mudar as regras e centralizar a emissão de dinheiro para garantir que o controle da moeda não acabasse na mão de bancos privados. 

Uma ilusão bilionária 

Na metade dos anos 1990, logo após a estabilização da moeda com o Plano Real, o Brasil descobriu que dois gigantes do mercado financeiro escondiam problemas graves. 

O Banco Nacional mantinha mais de 600 contas fictícias, as chamadas "contas rosas", para inventar lucros que não existiam e esconder um rombo de R$ 9 bilhões na época. Por sua vez, o Banco Econômico também era suspeito de fraudes contábeis para disfarçar sua falta de dinheiro. 

Os bancos diziam ser saudáveis, mas estavam quebrados. Foi necessária uma intervenção imediata do Banco Central para evitar um pânico generalizado. Para proteger os clientes e a economia, o governo vendeu as partes saudáveis dessas instituições para outros bancos e criou um programa para reestruturar o sistema. 

Os ex-controladores do Nacional acabaram condenados na Justiça por gestão fraudulenta e o episódio acendeu um alerta sobre a fiscalização dos bancos privados no país. 

A rota dos dólares 

O Brasil assistiu a uma das maiores rotas de fuga de dólares da sua história na década de 1990. E o centro do escândalo foi uma agência do Banco do Estado do Paraná (Banestado), em Foz do Iguaçu. 

Naquela época, existia um tipo de conta bancária especial, chamada de “CC5”, criada para facilitar que estrangeiros enviassem dinheiro legalmente para fora do país.  No entanto, doleiros e fraudadores usaram essa brecha regulatória para enviar fortunas a paraísos fiscais, sem pagar impostos ou justificar a origem do dinheiro. 

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) estimou que cerca de US$ 30 bilhões cruzaram a fronteira de forma irregular. As investigações da Polícia Federal resultaram na condenação de diversos doleiros e inauguraram o uso de delações premiadas. 

Um dos operadores implicados no esquema se chamava Alberto Youssef. Anos depois, o empresário e doleiro londrinense voltaria ao centro das atenções na Operação Lava Jato. 

Um socorro polêmico 

Em 1999, o Brasil mudou sua política econômica e o valor do dólar disparou de forma repentina. Isso causou pânico no Banco Marka e no FonteCindam, que haviam apostado no mercado financeiro que a moeda americana não subiria. 

Com a alta, as duas instituições estavam prestes a quebrar. Foi então que o Banco Central interveio e vendeu dólares a esses bancos por um preço muito mais barato do que o cobrado no mercado. A justificativa oficial era de que a falência dessas instituições causaria um colapso em todo o sistema. 

A ajuda custou cerca de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos e o Ministério Público decidiu investigar o caso sob a suspeita de que os banqueiros tiveram acesso a informações privilegiadas antes da subida do dólar. 

Posteriormente, o ex-presidente do Banco Central e o dono do Marka foram condenados à prisão. O caso gerou indignação popular ao revelar que dinheiro público estava sendo usado para salvar banqueiros durante uma crise. 

Fraude e falência 

Em 2004, o Banco Santos, que era focado em administrar grandes fortunas e atender empresas, teve sua falência decretada. Investigações do Banco Central e do Ministério Público revelaram um esquema perigoso: o Santos exigia que as empresas comprassem títulos financeiros do próprio banco para conseguirem aprovação de seus empréstimos. 

Essa prática ilegal, conhecida como "venda casada", inflava artificialmente a saúde financeira da instituição, mascarando um rombo que ultrapassava os R$ 2 bilhões. Além disso, surgiram à época denúncias graves de lavagem de dinheiro. 

O impacto foi pesado para os clientes, que perderam suas aplicações. O ex-controlador do banco acabou condenado pela Justiça a 21 anos de prisão por crimes financeiros e seus bens luxuosos (como uma enorme coleção de arte) foram leiloados para tentar pagar quem ficou no prejuízo. 

Contagem dupla 

O Banco Panamericano, que na época pertencia ao Grupo Silvio Santos, protagonizou uma das maiores fraudes contábeis recentes no Brasil. Em 2010, o Banco Central descobriu inconsistências de R$ 4,3 bilhões nos balanços da instituição. 

O truque era simples: o banco vendia suas carteiras de empréstimos para outros bancos para fazer dinheiro em caixa, mas não apagava essas dívidas vendidas dos seus próprios registros. Era como se eles vendessem um carro, entregassem a chave, mas continuassem declarando o veículo como parte de sua riqueza. 

Para evitar que os clientes fossem prejudicados, um fundo garantidor do próprio mercado precisou injetar R$ 2,5 bilhões. O banco acabou vendido, e sete ex-diretores foram condenados judicialmente por gestão fraudulenta. 

O apresentador de TV e empresário Silvio Santos colocou suas próprias empresas como garantia da dívida, mas não foi responsabilizado criminalmente. Ao fim das investigações, a conclusão foi que o empresário desconhecia o esquema armado por seus executivos.

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