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Historicamente – e desde sua fundação – o Brasil sempre foi um destino de missões religiosas. Ao longo dos séculos, esse movimento ajudou a consolidar o país como uma das maiores bases de cristãos em todo o mundo. Como resultado, o rumo agora é outro: o Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos, é a segunda maior origem de missionários no mundo.
O dado faz parte do relatório “Status da Grande Comissão”, do movimento cristão Lausanne. Segundo o documento, de cada 100 cristãos do mundo, 8 estão no Brasil.
A posição privilegiada nesse ranking reflete um dado preocupante para os religiosos: a Europa Ocidental, que por séculos foi o principal ponto de partida das missões, está fora da lista dos dez principais países cristãos pela primeira vez na história moderna.
Brasil lidera crescimento de missionários no Sul Global
O rápido crescimento dos cristãos no Brasil, aponta o relatório, tem relação direta com a expansão das denominações evangélicas e pentecostais. A América Latina e a África Subsaariana são, de acordo com o documento, os centros demográficos do pentecostalismo global.
Os Estados Unidos continuam a ser o centro fiscal e institucional do movimento protestante. No entanto, a população evangélica dos Estados Unidos está em declínio, mostra o relatório.
Ainda assim, são mais de 135 mil os norte-americanos enviados em missão pelo mundo. O estudo estima que o Brasil seja responsável pelo envio de outros 40 mil missionários cristãos.
Maioria dos missionários cristãos vai para locais onde já há acesso ao Evangelho
E para onde vão esses missionários? O relatório mostra que do total global de 450 mil missionários cristãos, cerca de 97% são enviados para povos que já têm acesso ao evangelho. Uma possível explicação é a tentativa de reverter a tendência atual de “envelhecimento do cristianismo” em regiões como a Europa e a América do Norte.
Enquanto o cristianismo no Sul Global é caracterizado pelo vigor da juventude e altas taxas de natalidade, no Norte Global ele enfrenta o desafio de uma base populacional que envelhece e uma geração jovem que se afasta progressivamente das instituições religiosas tradicionais.
O estudo mostra que os jovens nessas regiões não apenas se identificam menos como cristãos, mas também frequentam menos os cultos e oram com menos frequência do que os adultos acima de 40 anos. A seguir nessa tendência, o cristianismo será progressivamente uma religião de idosos na Europa e na América do Norte nas próximas décadas.
Principal foco dos povos "não alcançados" pela Bíblia está no sul da Ásia
Enquanto isso, a maioria dos grupos de povos não alcançados pelo cristianismo no mundo reside no sul da Ásia. O maior desafio está na Índia, onde o governo atual segue o nacionalismo hinduísta, e no Paquistão, país de maioria muçulmana que pune manifestações cristãs como blasfêmia contra o profeta Maomé. Os cristãos que vivem nos centros urbanos também são forçados a trabalhar em empregos mal remunerados, e estão sujeitos a prisões arbitrárias e até a penas de morte.
A Tailândia está entre os 15 países do mundo com maior presença de não alcançados pelo Evangelho. Dados do Vaticano mostram que pouco mais de 1% da população é cristã, com uma maioria esmagadora de mais de 90% de budistas. Não à toa, há no país um senso comum de que “ser tailandês é ser budista”.
Esse sentimento ficou ainda mais presente depois que uma nova Constituição passou a valer no país em 2017. Até então, o documento pregava a harmonia entre os seguidores de todas as fés e incentiva a aplicação dos princípios religiosos “para criar virtudes e desenvolver a qualidade de vida”.
O novo texto impõe ao Estado a promoção do budismo Theravada e a adoção de medidas “para impedir a profanação do Budismo em qualquer forma”. Essa mudança levou a preocupações entre as minorias cristãs, porque há a possibilidade de que um ato de fé em Deus seja interpretado como ameaça ou um desprezo pelo budismo e, portanto, passível de sanções.
Casal de missionários brasileiros leva a palavra de Deus para fiéis na Tailândia
A Tailândia foi o destino escolhido pelos missionários brasileiros Bruno e Ana Cecília Granja Vila Nova. No país há nove anos, o casal coleciona desafios e histórias de superação na Tailândia.
À Gazeta do Povo, Ana lembrou que o idioma foi a primeira barreira a ser superada pelo casal. Totalmente diferente das línguas ocidentais, o tailandês tem características difíceis de serem aprendidas e dominadas. Segundo ela, foram necessárias muitas aulas para que o casal pudesse se comunicar com os locais.
Ela disse que conheceu o marido quando os dois cursaram Teologia. Após a formação, Bruno fez um curso superior na área de Educação Física, pois sabia que o esporte poderia ser uma boa porta de entrada para a palavra de Deus junto aos jovens tailandeses.
A aposta deu certo, e o trabalho com o esporte se tornou um dos grandes meios de atuação do missionário na Tailândia. Ele faz parte do “Sattha Sports Ministry”, um dos ministérios de atuação do grupo missionário mundial OMF. O ministério é um braço de atuação do grupo que usa o futebol como ferramenta para que a igreja cristã local alcance famílias e suas comunidades com o Evangelho.

Ana explica que esse tipo de trabalho é essencial para que os missionários consigam se aproximar da população local que nunca teve acesso à Bíblia. É o que ela chama de “colocar os óculos do povo”.
“O missionário precisa se aprofundar na cultura local, porque há coisas lindas que precisam ser mantidas. Por isso a importância de estudar essa cultura, de tentar enxergar o mundo deles pelas ‘lentes’ deles. Não é só falar a língua, é tentar entender como eles enxergam o mundo, saber o que é valioso para eles e pregar a Palavra sem interferir naquilo que não precisa de interferência”, detalha.
Além das necessidades espirituais, os missionários encontraram naquele país uma população carente também em outros aspectos, como o financeiro. De acordo com Ana, a capital Bangkok concentra a riqueza do país. Em regiões mais afastadas, como a cidade de Udon Thani onde ela e o marido vivem atualmente, é comum encontrar famílias divididas pela necessidade.
Segundo a missionária, as mães costumam deixar os filhos com as avós para irem trabalhar na capital. E uma dessas idosas, disse Ana, foi impactada positivamente pelo trabalho da igreja cristã local.
“Ela era só resistência, mas a igreja era só braços abertos. Com o tempo, ela foi mudando de comportamento e hoje tanto ela quanto o netinho frequentam a igreja. Ela era uma pessoa brava, nervosa, e hoje transborda alegria, então a gente vê que é Deus agindo na vida deles”, comenta a missionária.
As dificuldades na vida da idosa seguem existindo, aponta Ana. Apesar de receber ajuda da igreja na forma de cesta básica e apoio educacional para o neto, a realidade ainda é de vulnerabilidade financeira. Ainda assim, lembra a missionária, houve uma grande mudança para aquela família.
“Nós não temos como tornar ricas essas pessoas extremamente pobres. A mudança não foi essa, mas sim uma mudança espiritual. Os desafios seguem lá, mas parece que o fardo que ela carrega, de alguma forma, se tornou mais leve depois da chegada do Evangelho”, completa.












