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Brasil x EUA

E se os Estados Unidos tentassem capturar um presidente brasileiro?

Brasil x EUA
Exército Brasileiro tem poder militar em escala regional, não global (Foto: Divulgação/Exército Brasileiro)

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A captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em solo venezuelano, reacendeu um debate que extrapola o caso específico da Venezuela e alcança toda a geopolítica contemporânea da América Latina. E se os Estados Unidos tentassem fazer o mesmo com outros países da região?  

Que fique claro: não há qualquer sinal de que uma ação militar contra o Brasil esteja no horizonte. O país mantém relações diplomáticas com Washington e participa ativamente de fóruns multilaterais. O presidente americano parece mais interessado na Groenlândia e na Colômbia no momento. 

Ainda assim, o planejamento da defesa nacional passa pela avaliação de cenários hipotéticos. E se o Brasil estivesse na mira dos americanos? E se o presidente americano seja quem for, decidir capturar o presidente brasileiro, seja quem for? 

Os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que o Brasil não dispõe hoje de capacidade militar para impedir uma ação direta de uma superpotência. Há consenso, também, de que operações pontuais e cirúrgicas, baseadas em alta tecnologia, como a empregada na Venezuela, se tornaram viáveis contra praticamente qualquer país.

No entanto, não existe, no momento, um contexto político ou diplomático que torne plausível uma operação desse tipo contra o Brasil. A dimensão continental do território e o elevado custo político e internacional de uma incursão funcionariam como importantes fatores de dissuasão.

O Brasil como uma força militar regional, não global

Apesar das suas fragilidades, o Brasil não é a Venezuela — humilhada pela operação rápida e precisa dos militares americanos, que capturaram Maduro sem perder um soldado sequer.

Segundo o ranking Global Firepower, o Brasil ocupa atualmente a 11ª posição entre 145 países. Está à frente de nações europeias como Alemanha, Itália e Espanha. A Venezuela de Maduro aparece apenas em 50º lugar. Com cerca de 360 mil militares ativos, o país possui a maior força armada da América do Sul. O exército americano, com ampla vantagem sobre os demais, está no topo do levantamento.  

A colocação do Brasil, porém, precisa ser relativizada. Para o especialista Daniel Tavares, o número revela uma força respeitável no plano regional, mas insuficiente diante dos Estados Unidos. “A dissuasão convencional brasileira é estruturalmente limitada frente a uma potência como os EUA, que operam em um patamar muito superior de projeção de poder e tecnologia militar”, afirma Tavares, que é Consultor de Segurança especializado em Inteligência e Planejamento Estratégico e Coronel da reserva e ex-chefe da Divisão de Inteligência do Centro de Inteligência do Exército Brasileiro. 

A assimetria entre Brasil e Estados Unidos é expressiva. Os norte-americanos contam com mais de 13 mil aeronaves militares, enquanto o Brasil dispõe de cerca de 513, das quais apenas parte estaria apta a um cenário de combate de alta intensidade. “Os EUA lideram o ranking não apenas em efetivo, mas em orçamento, logística e capacidade de ataque de longo alcance”, resume Paulo Filho, coronel da reserva do Exército, mestre em Ciências Militares e colunista da Gazeta do Povo.

Dissuasão militar: o que o Brasil consegue impedir 

No campo conceitual, os especialistas são categóricos ao distinguir defesa regional de dissuasão global. Paulo Filho explica que a dissuasão exige não apenas meios militares, mas a percepção clara, por parte do adversário, de que esses meios serão empregados.

“O Brasil dispõe de capacidades suficientes para dissuadir potências médias e agressões regionais, mas não possui meios capazes de dissuadir diretamente a maior potência militar da história”, afirma Filho. Segundo o especialista, apenas países com armamento nuclear conseguem impor algum grau real de dissuasão direta aos EUA.

Se, por um lado, a dissuasão direta é limitada, por outro o território brasileiro impõe obstáculos relevantes a qualquer ação militar prolongada. As dimensões continentais do país oferecem o que os especialistas chamam de profundidade estratégica.

“Um eventual invasor teria de enfrentar deslocamentos longos, múltiplos biomas, climas extremos e áreas de acesso extremamente difícil, como a Amazônia, o Pantanal e a Caatinga”, explica Paulo Filho. Esse cenário encarece a logística, dificulta o comando e controle e favorece ações defensivas.

Outro detalhe facilitou a ação dos americanos contra Maduro: a capital venezuelana está a menos de 20 quilômetros do mar. Já Brasília fica a mais de 1.000 quilômetros da costa.

Daniel Tavares reforça o argumento ao lembrar que o Brasil está geograficamente distante dos Estados Unidos. “O Brasil está de costas para os EUA, voltado para o Atlântico Sul e a África Ocidental, o que dificulta qualquer invasão terrestre clássica”, afirma o especialista. Esse tipo de cenário, segundo Tavares, favoreceria estratégias de desgaste e guerrilha defensiva.

O general Marco Aurélio Costa Vieira recorre à história para ilustrar o ponto. “Nenhuma potência se sustenta por muito tempo em um território continental hostil”, afirma, lembrando fracassos históricos como as invasões da Rússia por Napoleão e Adolf Hitler e destacando o papel do clima, do terreno e da resistência local.

Vulnerabilidades reais 

Apesar das barreiras terrestres, especialistas apontam vulnerabilidades importantes. Daniel Tavares alerta que o maior risco não estaria em uma ocupação territorial, mas em ações indiretas de pressão estratégica.

“O Atlântico Sul e as rotas marítimas brasileiras são vulneráveis a bloqueios navais, algo tecnicamente simples para a Marinha dos EUA”, afirma. Um bloqueio desse tipo, segundo Tavares, poderia ser devastador para a economia e para o abastecimento do país, sem necessidade de ocupação territorial.

O general Marco Aurélio Costa Vieira observa que a operação na Venezuela não foi uma guerra convencional, mas um raid de forças especiais. “Essa é a guerra de hoje: ações pontuais, com apoio aéreo, naval, cibernético e de guerra eletrônica. Ninguém está completamente imune a esse tipo de operação”, afirma, citando ações semelhantes contra líderes da Al-Qaeda, do Hamas e do Irã.

Fronteiras e espaço aéreo 

O Brasil mantém sistemas de monitoramento como o SISFRON, voltado ao controle das fronteiras terrestres, e o SISDABRA, responsável pela defesa aeroespacial. Esses sistemas utilizam radares, sensores, drones e centros de comando distribuídos ao longo do território.

Paulo Filho destaca que o SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) representa um avanço importante no controle de ilícitos e incursões regionais. Já Daniel Tavares aponta. “Esses sistemas são úteis contra ameaças de baixa intensidade, mas não oferecem proteção robusta contra campanhas aéreas de alta tecnologia ou ataques de precisão prolongados”, afirma.

De acordo com Tavares, o SISFRON ainda está longe de ser plenamente implementado e funciona mais como uma “Linha Maginot eletrônica” do que como um sistema moderno de alerta antecipado. A comparação, segundo o analista, ilustra o risco de confiar excessivamente em estruturas estáticas diante de um adversário com sensores globais e armas de quinta geração.

Venezuela não é Brasil 

Os especialistas entrevistados alertam para o risco de comparações simplistas entre Brasil e Venezuela, ou até mesmo com potências como Rússia e China. “Cada país opera em um contexto estratégico próprio, com economias, alianças e riscos completamente distintos”, afirma Paulo Filho.

O Brasil não sofre sanções internacionais especiais, mantém canais diplomáticos ativos e ocupa posição central na América do Sul. Já Venezuela, Rússia e China lidam com disputas abertas, sanções econômicas ou rivalidades estruturais com os Estados Unidos.

O general Marco Aurélio Costa Vieira é taxativo: “Nenhum país do mundo se compara hoje aos Estados Unidos em capacidade de projeção de poder”. Para ele, a operação na Venezuela reforça uma constatação incômoda: a supremacia militar americana vai além de números e inclui experiência real de combate, tecnologia e capacidade de ação global imediata.

O custo político internacional de uma ação no Brasil 

Mesmo diante das vulnerabilidades apontadas, os especialistas concordam que uma ação militar americana em solo brasileiro teria custo político e diplomático altíssimo. O impacto seria imediato em fóruns como ONU, OEA e G20, além de provocar instabilidade em toda a América do Sul.

O consenso é que o maior fator de proteção do Brasil não está em seus meios militares, mas em sua inserção internacional, em suas alianças diplomáticas e no custo global que uma ruptura dessa magnitude imporia. Até mesmo para os Estados Unidos.

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