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Em dezembro último, praticamente despercebido pela mídia brasileira, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Intelligence Authorization Act for Fiscal Year 2026 (IAA 2026), sancionado nos primeiros dias de 2026 como parte do arcabouço legal que orienta as atividades da Comunidade de Inteligência norte-americana.
Trata-se de uma authorization bill, isto é, uma lei que não apenas define orçamentos, mas estabelece prioridades estratégicas, áreas de interesse, diretrizes de coleta de informações e coordenação entre agências como CIA, NSA (Agência Nacional de Segurança), DIA (Agência de Inteligência de Defesa) e ODNI (Escritório do Diretor de Inteligência Nacional).
Diferentemente de resoluções políticas ou advertências e comunicados diplomáticos, esse tipo de legislação reflete avaliações consolidadas do establishment de segurança nacional dos EUA sobre ameaças latentes, riscos estruturais, disputas sistêmicas e vulnerabilidades emergentes no sistema internacional.
O Brasil é citado nominalmente na Seção 514 do IAA 2026, que determina ao diretor de Inteligência Nacional, em coordenação com o Departamento de Estado e o Departamento de Agricultura, a produção de um relatório detalhado sobre a extensão e os efeitos da presença chinesa no setor agrícola brasileiro e atividades correlatas. O texto exige que o documento examine, entre outros pontos, o número de empresas chinesas atuando no setor, a natureza dos investimentos, a interação entre autoridades chinesas e atores brasileiros, inclusive políticos, bem como os impactos dessas atividades sobre as cadeias globais de suprimento e a segurança alimentar internacional.
O prazo estabelecido pela lei é igualmente revelador. O relatório deve ser apresentado ao Congresso no prazo de até 180 dias após a promulgação do ato, em versão não classificada, com possibilidade de anexo classificado. Ou seja, não se trata de um estudo aberto e indefinido, mas de uma demanda de inteligência com cronograma claro, voltada a subsidiar decisões políticas concretas no curto prazo. Esse detalhe institucional é crucial: Washington não está “refletindo” sobre o Brasil, mas preparando insumos – o que se chama de Actionable Intelligence – para ação estratégica.
É nesse contexto que a menção explícita ao Brasil adquire significado histórico. O país não figura com frequência em leis de inteligência americanas, muito menos como objeto de escrutínio ligado à rivalidade entre grandes potências. Países tradicionalmente citados são considerados adversários diretos ou regimes hostis, como China, Rússia, Irã, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba, exatamente os mesmos que foram mencionados no IAA 2026.
A inclusão do Brasil nesse instrumento indica uma mudança qualitativa na percepção estratégica global de Washington. Ao figurar ao lado de tão deslustrada companhia, ainda que em seção distinta, Brasília deixa de ser enxergada como região periférica e passa a ser vista como variável relevante na rivalidade sistêmica entre grandes potências. Não como inimigo, mas como elemento funcional de disputa geoeconômica e geopolítica.
Essa reavaliação dos EUA não é casual nem pontual e ocorre em momento de transição histórica, em que a economia política internacional é progressivamente absorvida pela lógica da geopolítica, conforme descrito pela nova Estratégia de Segurança Nacional americana. Alimentos, energia, infraestrutura, tecnologia e indústria tornaram-se instrumentos de poder estratégico.
A segurança alimentar, em especial, emerge como prioridade central após choques globais recentes – pandemia, guerra na Ucrânia, fragmentação das cadeias globais e tensões nas relações sino-americanas e russo-europeias. Controlar fluxos alimentares significa mitigar riscos internos, estabilizar preços, reduzir vulnerabilidades políticas e ampliar capacidade de barganha internacional.
Nesse cenário, o Brasil ocupa posição singular: além de ser o segundo maior exportador global de alimentos, atrás apenas dos Estados Unidos, o país tem potencial para ultrapassar o montante exportado pelos EUA, tanto pela fronteira agrícola ainda em expansão quanto por ganhos de produtividade decorrentes da mitigação de gargalos logísticos e infraestruturais. O Brasil é dotado de território, água, clima e capacidade produtiva incomparáveis. Aos olhos de Washington, entretanto, o agronegócio brasileiro passou a ser compreendido como ativo estratégico da segurança alimentar chinesa, em contexto no qual a China deixou de ser apenas um parceiro comercial do Brasil e passou a atuar como agente estruturante de cadeias críticas – alimentares, logísticas, industriais e políticas – em um país-chave do hemisfério ocidental.
A preocupação americana não se limita ao fato de a China comprar bens do agronegócio brasileiro; ela reside na capacidade chinesa de organizar ecossistemas inteiros de produção, escoamento e processamento, transformando o comércio em dependência estrutural. O Brasil, nessa percepção, não apenas exporta volumes massivos de grãos e proteínas, mas o faz a partir de uma estrutura produtiva cada vez mais integrada a interesses estratégicos chineses. Essa integração do agronegócio brasileiro a esses interesses, e não os elementos subjacentes à competição no mercado internacional de commodities agrícolas, é a principal preocupação norte-americana.
O IAA 2026 reconhece exatamente esse ponto ao tratar o agronegócio brasileiro como questão de inteligência, e não de mercado. Para Washington, o agronegócio brasileiro não é apenas um setor exportador, mas um ativo geoeconômico cuja integração profunda à estratégia chinesa pode alterar equilíbrios globais de poder, razão pela qual a relação Brasília–Pequim não pode mais ser analisada apenas em termos de comércio exterior ou cooperação Sul-Sul, mas passa a ser interpretada como relação de dependência estrutural com implicações geopolíticas profundas.
O foco da investigação não está restrito à compra de soja ou carne, mas à arquitetura que sustenta essa produção: financiamento, logística, armazenamento, infraestrutura energética, processamento industrial e integração com mercados externos. A China se converteu em organizadora funcional de ecossistemas econômicos inteiros, movimento que se estende da agricultura à infraestrutura e à indústria.
Essa realidade decorre de um movimento mais amplo da China de transformar, em diferentes regiões do mundo, suas relações comerciais em presença estratégica duradoura. No caso brasileiro, isso se materializa não apenas através da exportação massiva de produtos agrícolas, mas da presença chinesa em setores que moldam o tecido econômico e político do país.
Empresas chinesas controlam parcelas significativas da geração, transmissão e distribuição de energia elétrica (10%, 12% e 12%, respectivamente), participam de grandes projetos hidráulicos, investem em portos, ferrovias e corredores logísticos diretamente conectados ao escoamento de commodities. Essa expansão se apoia em mecanismos financeiros bilaterais, como o China-Brazil Fund, criado com capital de cerca de US$ 20 bilhões especificamente para financiar infraestrutura e projetos industriais conjuntos. O alcance desses investimentos vai de portos e ferrovias a usinas de energia, reduzindo gargalos históricos, mas também criando mosaicos de dependência funcional.
Paralelamente, consolidam presença crescente na indústria nacional, sobretudo em setores estratégicos como veículos elétricos, baterias, telecomunicações, equipamentos industriais, mineração e manufatura de alta tecnologia. Esse processo espelha uma tendência continental mais ampla: a estratégia da China na América Latina está mudando de grandes empréstimos e infraestrutura pesada para envolvimento mais direcionado em setores estratégicos e tecnológicos.
Essa presença industrial reconfigura cadeias produtivas, pressiona a indústria local, amplia a dependência tecnológica e desloca concorrentes tradicionais, inclusive norte-americanos e europeus. A consequência é uma estrutura produtiva cada vez mais integrada a insumos, capital e tecnologia chineses, com reduzida capacidade de substituição no curto e médio prazo. Trata-se de uma dependência que não se expressa apenas em números de comércio exterior, mas em perda gradual de autonomia estratégica e em atenção indesejada de uma grande potência que avalia ser tal presença chinesa prejudicial também aos seus interesses estratégicos na América do Sul.
A entrada maciça de bens manufaturados chineses no mercado brasileiro também tem acelerado processos de desindustrialização em setores tradicionais. A competitividade de importações com baixo preço e alto volume, financiadas de maneira sistêmica por bancos estatais chineses, desloca indústrias nacionais que não conseguem competir em escala, fenômeno que representa não apenas uma questão econômica, mas uma transformação estrutural na base produtiva brasileira.
O impacto dessa relação transborda a economia e alcança o campo político. A política externa brasileira, sob a capa esburacada da multipolaridade e da autonomia estratégica, passou a adotar posições que, na prática, convergem com interesses chineses em temas sensíveis: desdolarização, relativização de críticas a regimes autoritários, alinhamentos em fóruns multilaterais e retórica de contestação à ordem liberal sem a construção de alternativas institucionais próprias. Esse movimento não decorre necessariamente de coerção direta, mas de incentivos estruturais: setores econômicos dependentes do mercado chinês passam a influenciar o debate político e as escolhas diplomáticas do Estado brasileiro. Uma manifestação mais contundente do ativismo diplomático chinês no Brasil terá ocorrido no governo do Presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), quando a combinação contraproducente de dependência brasileira e influência chinesa em setores estratégicos da economia brasileira conferiu liberdade para que o então embaixador da China em Brasília, Yang Wanming, se engajasse, sem pejo, em um bate-boca virtual com o então Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, Deputado Federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP), comportamento incompatível com a prática diplomática que, não fosse o leverage chinês sobre importantes domínios econômicos e o lobby multifrontal realizado por Pequim junto ao Legislativo brasileiro, teria ensejado advertência do Itamaraty e, à continuidade da prática, até mesmo a declaração do embaixador como persona non grata.
Do ponto de vista americano, esse quadro gera preocupação não por razões ideológicas, mas estratégicas. O temor não é que o Brasil “escolha a China”, mas que a profundidade da dependência econômica limite a capacidade brasileira de agir de forma autônoma em um cenário de rivalidade sistêmica. Infraestrutura crítica sob influência estrangeira, cadeias alimentares concentradas e integração industrial assimétrica transformam decisões domésticas em fatores de interesse direto para a segurança internacional.
É por isso que o IAA 2026 representa uma inflexão na relação Brasil–EUA. Ele sinaliza que Washington passa a observar o Brasil não apenas como ator sub-regional, mas como variável relevante no equilíbrio global de poder, sujeita a monitoramento estratégico. Essa mudança tende a afetar cooperação tecnológica, diálogo em segurança, investimentos e até o grau de tolerância americano à tradicional ambiguidade diplomática brasileira.
O paradoxo central é que, ao buscar afirmar autonomia por meio de um alinhamento cada vez mais profundo com a China, o Brasil pode estar reduzindo exatamente aquilo que pretende preservar: sua liberdade estratégica. Autonomia não se constrói pela substituição de uma dependência por outra, mas pela diversificação real, pelo desenvolvimento da base industrial e tecnológica nacional, pela superação de gargalos logísticos e infraestruturais, pelo controle soberano de ativos críticos, pelo desenvolvimento humano e social e pelo fortalecimento de recursos de poder, inclusive militares, econômicos e diplomáticos, dentre outras expressões e dimensões do poder nacional, tão fragilizadas pelos sucessivos governos lulopetistas.
A inserção do Brasil no IAA 2026 não é um gesto hostil, mas um alerta externo sobre uma vulnerabilidade interna. Em um mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências, países com peso estrutural não são ignorados, mas disputados. A questão central é se o Brasil pretende continuar sendo apenas objeto dessa disputa, ou se será capaz de formular uma estratégia própria, consciente dos riscos, custos e limites de um alinhamento assimétrico que hoje se apresenta como pragmatismo, mas amanhã pode se revelar como constrangimento estratégico.
Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.



