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No dia 11 de março de 2026, novas autoridades políticas tomarão posse no Chile. Mudarão as pessoas que ocuparão cargos na Presidência da República, no Senado e na Câmara dos Deputados. Como em todo novo ciclo político, abrir-se-ão espaços de negociação para impulsionar reformas há muito discutidas, retomar-se-ão velhos debates e surgirão novos assuntos que marcarão a agenda pública. Para aqueles, entre essas novas autoridades, que se reconhecem cristãs — católicos apostólicos romanos, ortodoxos, protestantes ou evangélicos —, este momento exige recordar uma distinção tão fundamental quanto frequentemente esquecida: a que existe entre bens negociáveis e bens não negociáveis.
A política requer prudência. Os problemas que afetam o nosso próximo exigem não apenas sua detecção e denúncia, mas também a deliberação responsável sobre as distintas alternativas para solucioná-los. A boa política demanda busca, debate e, finalmente, consenso para alcançar, por exemplo, um financiamento adequado da educação, um sistema político robusto ou metas razoáveis de sustentabilidade energética. Nestes âmbitos, o diálogo, o acordo e a transação não só são possíveis, como necessários para atender às múltiplas necessidades das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, pois assim o exige a justiça distributiva.
No entanto, é diferente quando se trata da vida humana, da família fundada na união conjugal entre o homem e a mulher, da educação dos filhos e da liberdade de todo ser humano para prestar culto a Deus. Este âmbito refere-se àquilo que Bento XVI reconheceu com lucidez como "bens não negociáveis". Em virtude deles, sustentava que "os políticos e os legisladores católicos, conscientes de sua grave responsabilidade social, devem sentir-se particularmente interpelados por sua consciência, retamente formada, para apresentar e apoiar leis inspiradas nos valores fundados na natureza humana" (Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Sacramentum Caritatis).
A obrigação de reconhecer a importância desses bens não se esgota em uma confissão particular, mas inclui e transcende as diversas tradições cristãs professadas, felizmente, por muitos dos que integrarão o Congresso Nacional e, com certeza, por parte importante dos colaboradores do novo Presidente da República. Bem o assinalou o teólogo protestante Bradford Littlejohn, quem sustenta que esses valores, bens ou princípios, "embora talvez sejam reconhecíveis à luz da natureza, são particularmente claros em virtude da revelação e (…) devem guiar qualquer cidadão ou representante cristão" (Littlejohn, Nove Prioridades para uma Política Cristã).
A centralidade desses valores repousa em uma visão antropológica do ser humano fundada em sua própria natureza. E aqui se encontra, paradoxalmente, uma de suas maiores forças no momento atual: embora muitas vezes se acuse quem os defende de violar a "laicidade”, esses princípios podem ser compartilhados por pessoas que não professam uma religião. A razão é simples: seu fundamento último não é a fé (a qual certamente ilumina sua compreensão), mas a natureza humana mesma, cognoscível por toda pessoa de boa vontade para reconhecer nesses princípios a proteção de bens insubstituíveis e necessários para toda convivência e existência autenticamente humana.
Uma segunda virtude desses princípios não negociáveis no momento de hoje é que eles se encontram profundamente enraizados na vida cotidiana e social das pessoas. Constituem o tecido básico sobre o qual se desenvolve a maioria das pessoas, manifestando-se em sua dimensão associativa. A família, a fé e as comunidades intermediárias ganham mais força quando são vividas e experimentadas junto a outros. Já o advertia o historiador inglês John Neville Figgis ao assinalar que, ao menos em seu país, “são essas associações menores as que sempre significaram mais na vida dos indivíduos. Sua escola ou faculdade, sua paróquia ou sua região, seu sindicato ou regimento, sua mulher ou sua família são a parte mais vitalmente formativa na vida da maioria dos homens” (Figgis, Igrejas em um Estado Moderno).
Distinguir esses bens daqueles assuntos em que é possível — e necessário — o entendimento e a transação de posições é fundamental para o bom exercício da política. Na vida pública confluem ambos os âmbitos. Tão certo é que a política requer acordos para tentar resolver as necessidades das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, quanto o fato de que uma reta organização social exige o respeito a bens não negociáveis, que em definitivo sustentam seus fundamentos.
O novo período que começa desafiará, como fazem todos os ciclos políticos, as novas autoridades, especialmente aquelas que professam uma fé da qual é impossível e injusto despojar-se ao ostentar uma magistratura na República. Será necessário dialogar e construir consensos, mas será urgente compreender a importância de preservar (e recuperar) aquilo que não lhes pertence negociar. Para todo político que diga ser cristão, será indispensável atuar com prudência e com justiça.
Gustavo Baehr é advogado da área legislativa da Corporação Comunidade e Justiça.



