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Narrativas ideológicas

Cinco contradições que a esquerda vai precisar explicar aos eleitores

Pedro Paulo, João Campos, Lula e Haddad: políticos têm de fazer malabarismo ideológico para se justificar
Pedro Paulo, João Campos, Lula e Haddad: políticos têm de fazer malabarismo ideológico para se justificar (Foto: Wikimedia Commons)

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À medida que as eleições se aproximam, ambos os espectros políticos tentam manter suas narrativas ideológicas: as da direita, voltadas ao enfrentamento dos abusos do Supremo Tribunal Federal (STF), à pauta econômica e à insegurança pública; e as da esquerda, pautadas no fim da escala 6x1, no combate às bets e em questões identitárias.

A Gazeta do Povo separou cinco temas que evidenciam contradições no discurso eleitoral da esquerda e que seus candidatos têm de fazer um “malabarismo ideológico” para explicar. Veja:

1) Apoio a Pedro Paulo no RJ

Para a eleição federal, a esquerda lulopetista definiu o enfrentamento à violência contra as mulheres como um mote de campanha. Mas, no Rio de Janeiro, a aliança com a ala de Eduardo Paes (PSD) tem gerado uma dor de cabeça: o apoio ao candidato ao Senado Pedro Paulo (PSD).

Isso porque Pedro Paulo já foi acusado de agredir a ex-mulher, tema que já foi destaque em eleições anteriores. Os relatos vieram a público em 2015, quando a imprensa divulgou dois boletins de ocorrência registrados por ela, referentes a episódios de 2008 e 2010.

No primeiro caso, a ex-mulher relatou que, após uma discussão dentro de um carro e na presença da filha do casal, foi xingada e agredida com chutes e socos no rosto. Ela chegou a realizar exame de corpo de delito, mas não retornou à delegacia para dar prosseguimento ao caso.

Já no caso de 2010, seu relato e o laudo apontam que Pedro Paulo teria desferido socos contra ela, agarrado seu pescoço, jogado-a contra uma parede e dado chutes. A mulher também afirmou que teve um dente quebrado em decorrência das agressões.

Embora hoje ele negue, em 2015, em uma entrevista ao lado da ex-esposa, o candidato reconheceu a existência dos boletins de ocorrência, as agressões e classificou os casos como “coisa de casal”.

“Quem não tem uma briga dentro de casa? Quem nunca exagerou em uma discussão? Quem não perde o controle às vezes? Cometi um erro muito grave, que foi trair a minha mulher e, às vezes, a gente perdia o controle nas discussões”, declarou o candidato na ocasião.

Por mais que a aliança Lula-Paes tente varrer a situação para debaixo do tapete, a candidatura de Pedro Paulo virou uma arma política, sobretudo no campo da esquerda identitária, que tenta emplacar Monica Benício (Psol-RJ) ao Senado.

Em junho deste ano, a poucos meses do início da campanha eleitoral, Benício chegou a compartilhar uma postagem na qual se referiu a Pedro Paulo como “agressor de mulher”, mas teve de excluí-la por determinação da Justiça Eleitoral.

Isso porque, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou um inquérito que investigava as agressões de Pedro Paulo após sua ex-mulher mudar de versão e afirmar que o então marido estava se defendendo de uma agressão dela.

No campo petista, o candidato também enfrenta resistências e chegou a ser recebido com vaias durante o primeiro evento de campanha de Lula no Rio de Janeiro.

Mas, nesse mesmo evento, ele recebeu o endosso do presidente, que chegou a pedir que a esquerda deixasse de “nhenhenhé” e votasse no braço direito de Paes.

Presente no evento em questão, a primeira-dama e também coordenadora do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, Janja Lula da Silva, que costuma mostrar independência para criticar temas como as bets e o Discord, por conveniência eleitoral, parece não ter se incomodado com o apoio a alguém com o histórico de Pedro Paulo.

Agora, a esquerda lulopetista carioca precisa conciliar o discurso retórico de Lula — "agressor de mulher não precisa votar em mim" — com o "nhenhenhé" para defender o voto em um candidato que, segundo laudos, teria agredido a ex-esposa com chutes e socos.

2) O "prefeito das bets"

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) é um dos mais atuantes em Brasília no combate às bets, com propostas que vão desde a proibição total das casas de apostas até regulamentações mais rígidas para a publicidade. A grande questão é que o discurso contrasta com as políticas adotadas pelo presidente da sigla e candidato ao governo de Pernambuco, João Campos.

Durante sua gestão como prefeito do Recife (2021–2026), João tomou uma série de medidas que beneficiaram o setor de apostas. A principal delas foi a redução, em maio do ano passado, da alíquota do Imposto sobre Serviços (ISS) cobrada sobre atividades relacionadas a jogos, loterias e sorteios de 5% para 2% — menor percentual permitido pela legislação federal.

Enviado à Câmara dos Vereadores pelo Executivo municipal em regime de urgência, o projeto foi justificado pelo ex-prefeito da capital pernambucana como uma forma de atrair empresas, “notadamente do segmento de apostas”, diante da “vultosa e recente relevância deste setor no cenário econômico brasileiro”, e recebeu sete votos contrários de vereadores do Republicanos, Novo, PL, PT e Psol.

João Campos, presidente nacional do PSB. (Foto: Cleber Bonatti/Wikimmedia Commons)

Mais tarde, quando o projeto "pegou mal", João adotou um discurso mais brando e afirmou que a medida era necessária para assegurar a arrecadação municipal, uma vez que outras capitais do país já cobravam a alíquota de 2%.

Além do incentivo fiscal, a Prefeitura do Recife, sob gestão do presidente do PSB, utilizou o patrocínio de casas de apostas para financiar eventos locais como o Carnaval, o São João e o Réveillon. Embora não haja ilegalidades, a política vai em desencontro aos discursos de membros importantes do partido, incluindo o irmão de João, Pedro Campos (PSB-PE), deputado federal que apresentou em maio deste ano um projeto de lei que propõe a proibição de anúncios, propagandas e patrocínios de plataformas de apostas esportivas.

Os patrocínios de bets na cidade foram além das festas locais e se espalharam por parques municipais amplamente frequentados por crianças e adolescentes — algo que também virou uma arma nas mãos da oposição de esquerda e direita.

E as críticas foram além do universo político: o Sindicato dos Hospitais Particulares e Filantrópicos de Pernambuco (Sindhospe) também se colocou contra o incentivo fiscal às bets e lembrou que, no Recife, o setor de saúde paga uma alíquota de 4% e reivindica há anos uma redução nunca concedida. Ou seja, na prática, a gestão municipal de João Campos estabeleceu para as casas de apostas um tratamento tributário mais favorável do que o oferecido aos serviços de saúde.

Por essas razões, adversários políticos alcunham João Campos como o "prefeito das bets" e se valem do tema para desgastar sua campanha contra a atual governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD).

Se, por um lado, adversários exploram o tema, por outro, aliados se enrolam para explicar as contradições. A principal é Tabata Amaral, esposa de João Campos, uma das parlamentares "linha de frente" no combate às bets e uma das responsáveis pela iniciativa "Brasil Contra Bets", um movimento nacional de combate às apostas no país.

Em um episódio que viralizou em junho deste ano, Tabata havia criticado o patrocínio da Vai de Bet às festas de São João de São Paulo, apontando que a celebração “não pode ser palco para quem lucra com o desespero das pessoas” e que “é assim que se naturaliza o vício”. Entretanto, ela apagou a publicação após internautas lembrarem que a Esportes da Sorte também havia patrocinado o São João do Recife.

Em meio à campanha eleitoral, João Campos precisa conciliar o discurso do partido com as medidas favoráveis às bets adotadas durante sua gestão, à medida que pesquisas recentes indicam que, no provável segundo turno, o candidato de esquerda está sete pontos percentuais atrás de Raquel Lyra na disputa pelo governo de Pernambuco.

3) Haddad e a "taxa das blusinhas"

Em agosto de 2024 — enquanto Haddad era ministro da Fazenda —, entrou em vigor a “taxa das blusinhas”, uma alíquota de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, antes isentas de cobrança federal. A medida foi sancionada pelo presidente Lula e defendida pela cúpula do PT.

Em meio às críticas nas redes, figuras governistas, incluindo a primeira-dama Janja, se utilizaram de fake news para defender a taxação dos produtos importados; uma delas, dita pela socióloga, era a de que o tributo não atingiria os consumidores, e sim somente as empresas.

Passados mais de dois anos e com a aproximação das eleições, a base governista e seus aliados se movimentaram no xadrez político para derrubar a taxa impopular, medida que foi sancionada pelo presidente há pouco mais de uma semana.

Agora, como estratégia eleitoral, a ala governista tenta se desvincular ao máximo do imposto, mas, ainda assim, certas argumentações carecem de explicações, principalmente por parte de Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo.

Hoje, o ex-ministro diz que a taxa “não tem nada a ver com ele” e pontua que Lula era contrário à medida e pretendia vetá-la caso fosse aprovada pelo Congresso — mesmo o presidente tendo sancionado o tributo. Por outro lado, em tom de arrependimento, Lula já afirmou que Haddad "acreditava realmente que a taxa das blusinhas era uma coisa boa".

Para se eximir da responsabilidade, o ex-prefeito de São Paulo atribui o imposto a um pedido do varejo e culpa governadores de oposição, como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas, e o Congresso por sua aprovação. A lógica é a de que todos têm responsabilidade pelo tributo, menos ele e Lula, mesmo ele tendo defendido a taxa como ministro da Fazenda e Lula tendo-a sancionado.

“A taxa das blusinhas não foi uma criação do governo do presidente Lula, mas dos governadores. Todos os governadores passaram a cobrar a taxa das blusinhas, inclusive aqui de São Paulo [Tarcísio de Freitas, Republicanos-SP]. E a direita não reclama dele. Então, não entendo por que isso ficou marcado como se fosse decisão do Executivo federal”, disse Haddad em entrevista ao ICL Notícias, em abril.

A narrativa governista, entretanto, perdeu força após o atual ministro da Fazenda e sucessor de Haddad, Dario Durigan, ter afirmado que pode propor a volta da taxação.

"A gente tem visto que tem aumentado a importação desses produtos. Como a gente tem todo controle, a qualquer momento que a gente perceber que está fora do padrão e gerando falta de isonomia para a produção nacional, é possível propor ao presidente uma mudança desse cenário", declarou Durigan em agosto deste ano.

Agora, a menos de um mês da eleição, Haddad precisa contornar as contradições em torno da taxa, enquanto tenta reduzir a margem de 17 pontos percentuais de Tarcísio de Freitas, que, segundo as pesquisas, tem chances reais de ser reeleito governador de São Paulo em primeiro turno.

4) A crítica seletiva aos sigilos

“Não haverá sigilo nas contas públicas. Nem de 100 anos, nem de 10 anos, nem de 1 dia. O Portal da Transparência voltará a funcionar, e a Lei de Acesso à Informação (LAI) será cumprida". Esta foi uma promessa de Lula durante a campanha eleitoral passada, em setembro de 2022.

A fala seguia a estratégia eleitoral da esquerda de criticar os “sigilos de 100 anos” que Bolsonaro havia imposto não só ao seu cartão corporativo, como também a outras informações do governo e até mesmo pessoais.

Para além do discurso, durante os últimos anos do mandato do ex-presidente, figuras importantes da oposição questionaram os sigilos judicialmente: Gleisi Hoffmann (PT-PR) foi à Justiça contra o sigilo aplicado ao cartão de vacinação de Bolsonaro; parlamentares do PT e do PSOL apresentaram um projeto de lei propondo mudanças na LAI, com a alegação de que o ex-presidente a havia “desvirtuado”; Marcelo Freixo e Orlando Silva foram à PGR para derrubar o sigilo sobre os encontros de Bolsonaro com pastores ligados ao MEC.

Quatro anos se passaram e o que se vê hoje é o jogo completamente invertido: a atual gestão de Lula não apenas continua mantendo os sigilos, como é recordista em negativas de pedidos de acesso à informação, e os ex-críticos contumazes da última gestão, incluindo os que acionaram a Justiça, adotam o silêncio.

Lula durante cerimônia no Teatro BNDES, centro do Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Uma reportagem da Gazeta do Povo de janeiro deste ano mostrou que, nos três primeiros anos da atual gestão federal petista, a média de negativas por sigilo chegou a 32,2%, quase cinco pontos percentuais acima dos 27,3% registrados no mesmo período do governo Bolsonaro.

Somente em 2025, o governo federal indeferiu 10.824 pedidos de acesso à informação, o maior número registrado desde 2020. Além disso, a eficiência na transparência também foi impactada: o tempo médio de resposta subiu para 13,9 dias, o maior intervalo desde 2018.

Quando questionado, o presidente adota um discurso defensivo, eximindo-se da responsabilidade e atribuindo a culpa a outros setores do próprio governo que comanda.

"Eu acho que deve ser sigilo só para coisa de Estado, coisa de segurança nacional. A primeira coisa que nós tentamos fazer era mudar a lei. Mas não é simples de mudar. [...] Isso nem chega na Presidência. Você tem órgão de governo que apura essas coisas", respondeu Lula, em julho deste ano, durante entrevista ao podcast Inteligência Ltda., apresentado por Rogério Vilela, ao ser lembrado da promessa feita na campanha eleitoral de 2022 de que não haveria sigilo nas contas públicas.

Outro caso que engloba o tema e que chama a atenção é em São Paulo, na figura de Fernando Haddad. O candidato ao governo paulista adotou em sua plataforma eleitoral um discurso crítico a Tarcísio de Freitas, pelo fato de a atual gestão, que comanda o Palácio dos Bandeirantesl, ter posto sigilos em contratos do Estado.

Haddad opina que "é ilegal colocar um contrato em sigilo".

"Você põe sigilo um documento para proteger uma pessoa que não pode ser exposta, um vulnerável, um menor, uma pessoa que tem seus dados protegidos pela LAI".

O que o candidato parece esquecer é que até março deste ano ele integrava o governo federal que mais recorreu ao sigilo para negar pedidos de acesso à informação desde a criação da LAI, em 2012, em casos que vão muito além dos citados pelo ex-ministro da Fazenda.

5) Soberania nacional?

Na figura do slogan "O Brasil é dos brasileiros", o governo Lula e as esquerdas vêm adotando um discurso de defesa da soberania nacional desde o início da crise com o governo americano, no início de 2025, quando foi imposto o tarifaço de 50% sobre importações brasileiras.

Entretanto, a retórica governista contrasta com a realidade de um país no qual o Estado enfrenta dificuldades para combater o crime organizado e exercer a efetiva soberania nacional sobre territórios dominados pelo poder paralelo — e que cada vez mais vêm se expandindo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), facções criminosas atuam em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal, que abrange 60% do território nacional e nove estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão). O número equivale a 45% do total de municípios e representa um aumento de 32% em relação ao último levantamento.

No Rio de Janeiro, um estudo do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF) mostrou que aproximadamente 4 milhões de pessoas vivem em regiões controladas por facções criminosas ou milícias, sem que tenham a totalidade de seus direitos garantida.

Hoje, Lula faz da soberania um mote de sua campanha eleitoral, chegando a citar a palavra mais de 30 vezes em seu plano de governo, onde também se valeu do tema para alfinetar adversários políticos.

Por outro lado, os presidenciáveis da oposição também exploram a soberania nacional (ou a falta dela) para criticar o governo federal.

“A soberania brasileira o PT entregou para o Comando Vermelho e pro PCC. Hoje eles mandam mais no Brasil do que o Estado brasileiro”, disse Ronaldo Caiado (PSD) em entrevista ao TMC 360, mês passado.

Em discursos semelhantes e também críticos à atual política de segurança do governo Lula, Flávio Bolsonaro (PL) vem tentando dar outro sinônimo para o termo em questão, hoje, usado por Lula para confrontar Donald Trump.

"A soberania que a gente defende é a soberania do povo brasileiro, é a soberania das 50 milhões de pessoas que vivem sob o domínio de narcoterroristas."

E outro ponto: a soberania petista pode custar caro. Segundo entidades como as Federações das Indústrias de São Paulo e de Minas Gerais (Fiesp e Fiemg) e a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), eventuais medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos podem aumentar os custos no Brasil.

“Retaliar importações de insumos, máquinas, equipamentos e tecnologias utilizados pela própria indústria brasileira pode aumentar custos de produção, reduzir competitividade e fazer com que o país pague duas vezes pela mesma disputa”, aponta a Fiemg.

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