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Fundação mística

Como a Cacique Cobra Coral virou “consultora” de governos prometendo controlar o clima

A entidade Cacique Cobra Coral afirma controlar fenômenos climáticos por meio de uma médium e criou, ao longo de décadas, uma rede de relações com governos, políticos e empresas (Foto: Imagem criada com a IA do Google/Gazeta do Povo)

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Um vendaval matou três pessoas no Rio de Janeiro na última quarta-feira (29). Dias depois, a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), entidade que afirma controlar fenômenos climáticos por meio de uma médium, veio a público para fazer um anúncio bizarro: eles poderiam ter evitado a tragédia, mas preferiram não agir.

O motivo? O convênio gratuito que a FCCC mantinha com a prefeitura carioca expirou depois de 25 anos e não foi renovado. Segundo o autointitulado porta-voz da fundação, Osmar Santos, “o povo é que pagou o preço dessa omissão”. “Eles [os políticos] precisam entender que não precisamos deles. Eles que precisam de nós”, disse Santos ao jornal Folha de S. Paulo.

Dias antes, a Cacique Cobra Coral ganhou destaque na imprensa por suspender sua “assistência climática” à Argentina (país, de acordo com o grupo, atendido desde os anos 80). O cancelamento foi uma resposta às críticas duras de Javier Milei ao presidente Lula.

Em 2025, a entidade também anunciou o cancelamento parcial dos serviços prestados aos Estados Unidos, em retaliação às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros. A FCCC afirmou que os americanos ficariam “por sua conta e risco” diante de uma temporada de furacões e tornados.

Mas, afinal, quem está por trás dessa entidade que garante ter poder para interferir nas forças da natureza — e, como se não bastasse, decide quando as pessoas merecem, ou não, sua ajuda?

Alerta sobre o 11 de Setembro

Nos últimos 40 anos, a FCCC reuniu uma curiosa coleção de supostas intervenções: carnavais, réveillons, edições do Rock in Rio, visitas de papas, posses de governantes, eventos da realeza britânica, apagões, crises hídricas, incêndios florestais. A relação inclui até um alerta sobre o 11 de Setembro, enviado por carta ao governo dos EUA.

Mas essa história começou bem antes, de acordo com a narrativa da fundação. Mais especificamente na década de 30, após uma geada destruir a plantação de café do modesto sítio do agricultor Ângelo Scritori, no norte do Paraná. Desesperado com o prejuízo, ele foi consolado pelo espírito do cearense Cícero Romão Batista (1844-1934), conhecido popularmente como Padre Cícero (ou, ainda, Padim Padre Ciço).

O padre católico profetizou que a filha mais nova de Scritori tinha o dom de se comunicar com uma entidade capaz de alterar os fenômenos naturais. Dito e feito: sete anos depois, a pequena Adelaide recebeu as primeiras mensagens de uma entidade espiritual que se identificou como Cacique Cobra Coral.

Índio, Galileu e Abraham Lincoln

Segundo a “cosmologia” (o sistema de crenças, por assim dizer) da FCCC, Cobra Coral foi um índio americano que reencarnou na pele de algumas personalidades ilustres do mundo ocidental. Entre elas, o cientista italiano Galileu Galilei e o presidente americano Abraham Lincoln.

Os poderes do cacique (além da comunicação em língua portuguesa) incluiriam praticamente toda forma de manipulação climática — desviar nuvens de chuva, dissipar frentes frias, atrair precipitações para áreas de seca, alterar a pressão atmosférica, mudar a temperatura local.

Mas Cobra Coral não atende a qualquer pedido. Ele exige o que a fundação chama de “lição de casa”. É uma espécie de lembrete, ou contrapartida: os vivos também devem fazer sua parte, como obras de infraestrutura e preservação ambiental.

Paulo Coelho já foi vice-presidente

De acordo com a versão oficial, a Fundação Cacique Coral foi fundada ainda nos anos 30 pelo próprio Ângelo Scritori. Morto em 2002, aos 104 anos, ele deixou a liderança para Adelaide, que segue como médium.

Aqui vale destacar uma informação curiosa: o escritor e “bruxo” Paulo Coelho já participou do grupo, inclusive exercendo o cargo de vice-presidente.

O responsável pela expansão, no entanto, foi Osmar Tunikito Santos, marido de Adelaide e porta-voz da FCCC. No início da década de 80, ele começou a oferecer intervenções climáticas para políticos brasileiros e estrangeiros, além de sugerir pautas para a imprensa.

Mas Santos é bem mais do que um relações públicas. Ele foi o responsável por criar o modelo de negócios da Cobra Coral. Ou melhor, da Corporação Tunikito, um conglomerado de empresas que vende desde seguros de vida até, literalmente, capas de chuva.

Explica-se: a FCCC afirma não cobrar pelo “trabalho do espírito”. Por isso, os convênios com governos são apresentados como gratuitos, enquanto a receita é gerada por companhias do grupo Tunikito, que lucram com seguros, serviços meteorológicos (desenvolvidos por cientistas contratados) e outros produtos oferecidos à iniciativa privada.

A assistência climática entra apenas como um “brinde”. Assim, a exposição obtida com ministérios, prefeituras e grandes eventos ajuda a atrair clientes para os negócios da holding.

João Doria desmentiu

Mas as histórias da fundação nem sempre casam com os fatos. Em diferentes situações, governos negaram a existência dos convênios anunciados pela FCCC. Foi o caso do Distrito Federal, durante a crise hídrica de 2017; do Ministério de Minas e Energia, em 2021; e da Prefeitura de São Paulo, que desmentiu um suposto acordo anunciado por Santos após uma reunião com o então prefeito João Doria.

Isso não significa que a Cobra Coral nunca tenha mantido relações com o poder público. Documentos oficiais disponíveis no site da entidade citam parcerias e trocas de ofícios com governos estaduais, ministérios e prefeituras desde os anos 80.

O primeiro convênio documentado foi firmado em 1985, com o governo de Santa Catarina, seguido por um acordo com o Ministério de Minas e Energia, em 1986, para monitoramento de reservatórios de hidrelétricas. A relação mais duradoura, porém, foi com a Prefeitura do Rio de Janeiro, iniciada nos anos 90 e renovada em 2010, além de uma parceria formalizada com São Paulo em 2005. Há ainda registros de contatos institucionais com governos do Paraná e do Rio Grande do Sul.

De qualquer forma, o currículo de façanhas espirituais da Cobra Coral só cresce com o tempo. O roteiro costuma ser o mesmo: a fundação anuncia sua atuação para a imprensa e as autoridades confirmam, negam ou permanecem em silêncio. No fim, a narrativa ajuda a fortalecer a aura de influência alimentada pela entidade.

E, quando a realidade desmente a promessa, a explicação também já vem pronta. Nesses casos, o convênio não estava mais em vigor ou o governo descumpriu a “lição de casa”. A justificativa sempre vem acompanhada de um verniz técnico que mistura meteorologia, linguagem institucional e crenças espirituais.

Governos deram selo de aprovação

A questão central aqui não é discutir se a Fundação Cacique Cobra Coral tem, de fato, o poder para interferir no clima. Também não há, nos documentos analisados pela reportagem, evidências de desvio de dinheiro público.

O problema é que, ao longo de décadas, a FCCC construiu uma espécie de autoridade simbólica porque ministérios, governos estaduais e prefeituras a trataram como uma instituição legítima. Com isso, a entidade ganhou espaço em agendas oficiais, registros em Diário Oficial e, acima de tudo, o selo de aprovação que só o poder público consegue dar.

Ao tratar médiuns como consultores técnicos em crises energéticas ou hídricas, o Estado acaba transmitindo a mensagem de que, quando a engenharia falha, o misticismo pode ocupar um espaço que deveria ser do planejamento. Em um país acostumado a trocar prevenção por improviso, é sempre conveniente ter à mão algum tipo de muleta. Mesmo que ela seja invisível.

A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com a Fundação Cacique Cobra Coral para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.

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