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Religião

Como a Igreja da Lagoinha se tornou tão influente

Ana Paula Valadão à frente do grupo Diante do Trono: "ministério musical" foi fundamental para a expansão da Lagoinha
Ana Paula Valadão à frente do grupo Diante do Trono: "ministério musical" foi fundamental para a expansão da Lagoinha (Foto: Divulgação/Diante do Trono/Wikimedia Commons)

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“Bem-vindo ao novo”, diz o grande painel instalado na entrada da Igreja Batista da Lagoinha em Curitiba. Maior ainda é o telão, de alta definição, disposto no fundo do auditório — e que exibe, sem parar, uma programação de frases e imagens coloridas (além de QR Codes para doações via Pix).

A banda, afiada e com pegada roqueira, abriu o culto noturno do último domingo (19) exatamente no horário combinado, às 19h. Depois de quase meia hora de música, o pastor principal subiu ao palco e passou outros 30 minutos apenas dando avisos e pedindo ofertas para a reforma do prédio (que devem chegar a R$ 200 mil).

Membros do staff, munidos de máquinas de cartão e sacolas de pano, circularam pelo lugar recolhendo as contribuições — e só então a pregação em si começou. Às 20h40, o conjunto voltou ao palco e encerrou o encontro com uma última canção.

Mas o que mais chamou a atenção naquela noite foi uma ausência. Ao longo de quase duas horas, não se ouviu sequer uma palavra sobre as controvérsias que colocaram a Igreja Batista Lagoinha no centro da maior crise recente do meio evangélico brasileiro — e que envolvem até o escândalo do Banco Master.

Áreas VIP em cultos

Nos últimos anos, reportagens na imprensa sobre a denominação já destacavam questões polêmicas como áreas VIP em cultos, taxas para batismos, modelos de expansão baseados em franquias e relações pouco transparentes entre lideranças religiosas, empresários e doadores.

No entanto, de uns meses para cá, a Lagoinha entrou de vez no noticiário a partir de matérias que passaram a associá-la a personagens do mercado financeiro — especialmente a Fabiano Zettel, pastor da igreja, advogado e investidor.

Zettel é cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Master. E aparece nas apurações da Polícia Federal como um elo entre a congregação e o círculo empresarial que atua em torno do banco.

Ele foi preso no último dia 14, quando se preparava para embarcar em um voo para Dubai. Liberado poucas horas depois, teve o celular apreendido e está impedido de deixar o Brasil durante as investigações sobre supostas fraudes envolvendo o banco.

Malafaia e Damares

O episódio ganhou uma dimensão política com a instalação da CPMI do INSS, cujos trabalhos passaram a citar instituições e pessoas ligadas ao Master. Quando a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que a comissão atingia “grandes igrejas e líderes evangélicos”, começaram especulações sobre possíveis ligações de religiosos com o banco.

Argumentando que a falta de transparência alimentava boatos sobre todo o segmento evangélico, o pastor Silas Malafaia iniciou uma pressão pela divulgação das figuras e entidades citadas nos requerimentos. A senadora cedeu à cobrança e divulgou uma lista de nomes — que incluía, além de Fabiano Zettel, um dos principais líderes da Lagoinha: o pastor André Valadão.

André é filho e sucessor do pastor Márcio Valadão, responsável por uma guinada estética e de práticas que transformou a denominação a partir das décadas de 70 e 80. Mais do que isso: sob o comando de Márcio, a Lagoinha influenciou decisivamente todo o meio evangélico brasileiro atual.

“Neopentecostalização”

Fundada em 1957, no bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte, a igreja nasceu como mais uma congregação protestante tradicional, alinhada à teologia batista clássica. Os cultos eram sóbrios, com ênfase na pregação bíblica e na estrutura organizacional da comunidade.

A virada começou em 1972, quando Márcio Valadão assumiu o comando e passou a introduzir elementos considerados “carismáticos”: celebrações mais emotivas, música ocupando um espaço central, discursos marcados pela emoção intensa e um foco maior na vivência pessoal da religião.

É o que os pesquisadores chamam de “pentecostalização”, ou “neopentecostalização”, de uma igreja protestante histórica.

Nas décadas seguintes, a Lagoinha se tornaria uma referência nacional em estética e na forma de conduzir os cultos e administrar a igreja — saindo de cerca de 300 membros no início dos anos 70 para dezenas de milhares de fiéis e uma rede com centenas de templos no Brasil e no exterior.

Diante do Trono

Uma parte fundamental desse processo foi o ministério de louvor Diante do Trono, grupo musical encabeçado por Ana Paula Valadão, filha mais velha de Márcio. Criado em 1997, o conjunto rapidamente se tornou um dos maiores projetos de música cristã da América Latina, chegando a produzir álbuns e eventos que furaram a bolha evangélica.

Nos anos mais recentes, porém, a igreja passou a ser mais comentada por suas disputas internas e picuinhas públicas. Principalmente durante o processo de transição de liderança, entre 2022 e 2023, quando Márcio Valadão deixou o comando após cinco décadas.

A ascensão de André Valadão ao topo da hierarquia da Lagoinha veio acompanhada de ressalvas. Especialistas, fiéis e até membros da própria família apontaram uma mudança de direcionamento teológico.

Para os críticos, a fase “emocional”, sedimentada com o sucesso do Diante do Trono, deu lugar a uma nova era, com maior foco num discurso associado à “teologia do domínio” — vertente que defende a ocupação dos cristãos em espaços de poder cultural, econômico e político.

Franquia e coaching

O racha ficou ainda mais explícito com a viralização de um vídeo antigo de Ana Paula Valadão, resgatado após as últimas notícias sobre a Lagoinha. Sem citar nomes, ela critica aqueles que querem “mudar a igreja para fazer negócio maluco”.

“Tem igreja pensando que é um parque de diversões para atrair as famílias e as crianças da sua cidade. Tem pipoca para dar R$ 500 mil por mês para um empresário. Tem franquia fazendo dinheiro”, diz Ana Paula, mencionando ainda o uso de técnicas de coaching e discursos de “reprogramação mental” nos cultos.

A fala foi interpretada como um recado sobre o modelo adotado pela Lagoinha sob a liderança de André Valadão. Mas, para adeptos de outras denominações, serviu para levantar uma reflexão sobre os limites entre fé, poder e mercado no universo evangélico como um todo

Lógica de marca

Para o teólogo, pastor e colunista da Gazeta do Povo Franklin Ferreira, a Lagoinha preserva alguns traços formais da tradição batista (como o batismo por imersão e a linguagem bíblica), porém se afastou significativamente do legado histórico em pontos essenciais.

Segundo ele, o distanciamento fica nítido quando a pregação baseada nas Escrituras deixa de ser o eixo do culto. Mas a ruptura mais profunda, diz Ferreira, está no modelo de administração da denominação.

Na tradição batista clássica, ele explica, a autoridade final é da congregação reunida — são os membros, em assembleia, que tomam as decisões importantes.

“Quando esse modelo é substituído, na prática, por uma estrutura centralizada e personalista, na qual a identidade da igreja passa a ser organizada segundo uma lógica de marca institucional, rompe-se com o padrão batista de governo”, afirma.

Espaço de consumo

Franklin Ferreira também vê problemas no sistema de sucessão familiar. “Quando a liderança passa a ser transmitida por vínculos de sangue, e não pelo discernimento congregacional, abre-se espaço para uma forma de governo que se aproxima mais de dinastia religiosa”, diz.

O teólogo ainda critica práticas como áreas VIP em cultos e cobranças vinculadas a ritos religiosos. Segundo Ferreira, mesmo quando justificadas de forma pragmática, elas produzem efeitos simbólicos perigosos: estabelecem diferenças entre fiéis com base no dinheiro, tratam o sagrado como mercadoria e tendem a transformar a igreja em um espaço de consumo.

Mas o problema, ele afirma, vai além da Lagoinha. Quando uma igreja se torna referência para centenas de outras, o resultado costuma ser a padronização.

O teólogo reconhece que há possíveis ganhos de eficiência, mas também perdas significativas. “O foco se desloca para aquilo que apenas engaja, atrai e produz resultados visíveis”, afirma.

Precisão milimétrica

A padronização e a eficiência mencionadas por Franklin Ferreira ficam evidentes logo na chegada à Lagoinha de Curitiba.

O ambiente é extremamente organizado. A operação funciona com precisão milimétrica. Não à toa, uma contagem regressiva antecede o culto, no já citado telão de fazer inveja em outras igrejas mais modestas.

O templo é uma espécie de parque de experiências, com uma estética que combina centro de eventos corporativos e shopping center. Há hospitalidade, loja, cantina, música e uma comunicação visual pontuada por muitos termos em inglês — kids, store, legacy, rocket, hero, shine.

A proposta, como diria Ferreira, realmente “engaja”. Especialmente o público “jovem adulto”, entre 25 e 45 anos, vestido com roupas descontraídas e confortáveis (camisetas, jeans, bermudas, tênis).

Quando a banda para e as luzes se acendem, os fiéis se dispersam tranquilamente. Talvez mais leves antes de enfrentar outra semana pesada de trabalho — e, com certeza, nem um pouco preocupados com o Banco Master, a CPMI ou as controvérsias da família Valadão.

A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com a matriz da Igreja da Lagoinha e a assessoria de André Valadão por meio de vários canais de comunicação, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto. No último dia 15, a denominação emitiu uma nota oficial para esclarecer o afastamento de Fabiano Zettel e negar qualquer envolvimento com as investigações da Polícia Federal. Todas as sedes da Lagoinha replicaram o texto em suas contas do Instagram.

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