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O coronavírus já mudou o mundo: vivemos sob um Estado mais forte, desconfiamos mais das instituições e fomos reduzidos a meros vetores de um patógeno.
O coronavírus já mudou o mundo: vivemos sob um Estado mais forte, desconfiamos mais das instituições e fomos reduzidos a meros vetores de um patógeno.| Foto: Pixabay

Aquela história de “quem você vai ser depois da pandemia” virou passado. A crise do coronavírus já se prolonga há alguns meses e é possível dizer que o mundo é outro completamente diferente do que aquele que recebeu as celebrações de Ano Novo tendo em mente a preocupação com os fogos de artifício que afetariam os bichinhos de estimação.

Claro que ainda é muito cedo para dizer se o coronavírus mudou a forma como as pessoas veem a vida em todos os seus aspectos mais íntimos, como os relacionamentos familiares, a espiritualidade e até a sempre conturbada relação com a morte. Quanto ao indivíduo inserido numa sociedade, contudo, dá para dizer sem muito medo de errar que ele terá de se adaptar à realidade pós-coronavírus.

Até que surja uma cura eficiente ou uma vacina capaz de tranquilizar a população, é bem provável que vivamos num mundo marcado pelo alto controle estatal em todos os níveis, pelo reforço do nacionalismo, pela perda de confiança em instituições até então inabaláveis, pelo abismo entre pobres e ricos que vai muito além das teorias marxistas e, por fim, mas não menos importante, por um brutal processo de despersonificação e até desumanização.

Estado com superpoderes

Será um mundo, em certo sentido, distópico. O termo geralmente é usado para descrever aquele tipo de literatura, muitas vezes subliteratura, na qual o mundo se transforma num pesadelo do qual o homem comum não consegue acordar. Ele é impotente diante das forças do Estado, da religião, de qualquer forma de organização social autoritária. O que não é bem o caso deste nosso mundo pós-coronavírus

O termo “distopia” virou lugar-comum para descrever qualquer situação em que o homem se encontra submisso frente a autocracias de quaisquer tipos. Nessas narrativas, o tecido social geralmente já se rompeu e as pessoas vivem ou numa anarquia à margem da segurança e abundância de uma reduzida classe dominante ou num sistema extremamente rígido no qual a proibição, e não a liberdade, é a regra.

Então, tomadas as devidas precauções conceituais, acho que é possível dizer que vivemos, sim, tempos distópicos. Um simples passeio pela praia, por exemplo, se transformou numa afronta à saúde pública. E o Estado se sente no direito de usar todo o seu monopólio da força para impedir que alguém cometa o grave crime de surfar ou caminhar pela areia.

Ao seu lado, o Estado conta com dois elementos. Primeiro, uma opinião pública guiada pelo medo, quando não pelo pânico, que não entende direito o que é a pandemia (e quem entende?) e que considera o Estado um ente com legitimidade para impor quaisquer medidas necessárias para garantir a sobrevivência dos indivíduos – mesmo que essa garantia seja, a rigor, totalmente infundada.

De outro, o Estado tem um cenário jurídico e político tradicionalmente confuso, cuja confusão é exacerbada justamente pelas informações conflitantes a respeito da Covid-19, sem falar nos interesses conflitantes envolvendo as políticas públicas a serem tomadas para se evitar uma tragédia. Daí porque, de acordo com o desacreditado Supremo Tribunal Federal, a decisão de um prefeito ou governador prevalece sobre a do presidente – gerando bastante insegurança em toda a cadeia produtiva. Afinal, de uma hora para outra, tendo o respaldo apenas de um laudo da Anvisa, um prefeito do interior pode muito bem decidir isolar sua cidade e seus eleitores, sem levar em conta os prejuízos para o entorno.

O coronavírus deu ainda mais poder a um Estado que já vinha acumulando poderes há algumas décadas. No Ceará, por exemplo, o prefeito de Sobral, reduto eleitoral da família Gomes, simplesmente confiscou uma fábrica de lingerie para a confecção de máscaras. A medida, na prática, acaba com o direito à propriedade privada. E, como o medo sempre prevalece sobre a sensatez, não consta que o caso tenha gerado a indignação justa e necessária.

Crise de credibilidade

Outra mudança que já pode ser constatada é a aceleração de um processo que vinha se arrastando pelas últimas três décadas: a crise de credibilidade nas instituições. Veja a Organização Mundial da Saúde, por exemplo. Ela era o braço da ONU ao qual os países recorriam sempre que se viam em apuros sanitários (sem trocadilho). Se a OMS fazia uma recomendação, o país respeitosamente ouvia a voz dos especialistas e acatava.

Hoje a OMS está com a credibilidade em frangalhos por causa da proximidade de seu diretor-geral, dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, com a China, de onde a Covid-19 saiu para ganhar o mundo. Mas não é só este órgão internacional que vê seu poder ameaçado por uma desconfiança generalizada dos povos e também dos Estados-membros.

A própria União Europeia se vê hoje dividida entre a necessidade de ações incisivas e localizadas e o próprio conceito continentalista da organização multilateral. Em meio à pandemia, e a despeito do discurso de união e fortalecimento do bloco, sobretudo depois que o Reino Unido resolveu abandoná-lo, o que se viu foi cada país agindo com independência e autonomia. As fronteiras podem até ter permanecido abertas, mas a realidade foi que cada povo tratou de cuidar de seus doentes a seu modo.

A própria ciência vive, hoje, uma crise de credibilidade. Tanto que o termo “cientificismo” ganhou corpo. Depois de décadas vendo a ciência se debruçar sobre teorias de que a civilização entraria em colapso por causa das mudanças climáticas antropomórficas que talvez pudessem ser revertidas com uma enxurrada de dinheiro, o que se viu foi o quase colapso dessa mesma civilização, mas por um inimigo muito mais próximo e tangível (desde que se use um microscópio eletrônico e pinças de laser): um vírus.

A própria hiperexposição da ciência, com seus prolixos especialistas em tudo e qualquer coisa, com seus gráficos e modelos matemáticos ultracomplexos e ininteligíveis para o cidadão médio e também para muitos cidadãos com PhD, contribuiu para enfraquecer a ideia de que a resposta à pandemia seria dada pela sempre confiável ciência. O especialista perdeu a autoridade do jaleco imaculadamente branco. E agora navegamos mais ou menos às cegas.

Despersonificação e desumanização

Uma das faces mais cruéis da crise do coronavírus é a redução do ser humano a um mero vetor em potencial de um patógeno cuja letalidade ainda é desconhecida. É possível que essa situação mude depois que a pandemia passar, mas, por enquanto, o indivíduo passa por uma enorme crise de identidade em todas as suas áreas de atuação.

A tendência é aumentar a distância e o isolamento que obrigam o indivíduo a reduzir suas interações sociais. Uma vez que o Estado e os interesses coletivos ganharam força, restou ao indivíduo a árdua tarefa de sobreviver e manter algum tipo de sanidade num mundo que, aparentemente, o tem apenas como um número.

A parte mais visível deste fenômeno é o enfraquecimento das relações de trabalho, com a universalização (para quem pode) do trabalho remoto. O indivíduo que em janeiro de 2020 reclamava de ser apenas um crachá sentado numa baia impessoal no meio de uma multidão de “colaboradores” como ele agora não conta nem mesmo com o consolo das conversas no meio do expediente.

Outros serão organizados nas fábricas como se fossem robôs, respeitando sempre uma distância mínima da pessoa ao lado, praticamente presos a uma cela imaginária.

O mesmo serve para a relação entre mestre e aluno, hoje reduzida a uma tela de computador e a um convívio acadêmico que se restringe aos aplicativos de conversa instantânea. No necessário ensino à distância de hoje, o aluno deixou de ver o professor como um ser humano para vê-lo como um rosto numa tela ou, na melhor das hipóteses, como uma microcelebridade que, a seu modo, está contribuindo para a moda das lives.

Isso sem falar nas onipresentes e obrigatórias máscaras, cuja eficácia a ciência não confirma nem nega, muito pelo contrário, mas cujo uso o Estado impõe para passar a impressão de eficiência e algum controle. A máscara é o símbolo máximo da despersonificação causada pela pandemia de coronavírus. Afinal de contas, ela nos tira a possibilidade de sermos um rosto por inteiro e nos reduz a um par de olhos e a um conjunto de expressões limitadas.

Neste cenário, a máscara é o maior símbolo da transformação do indivíduo, antes um ser cujas complexidades não cabiam em quaisquer planilhas, num vetor de Covid-19 e num pontinho em potencial nesses gráficos que mostram os infectados, os sobreviventes e os que padeceram da doença.

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