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Donald Trump causou alvoroço na política internacional quando, no início de seu segundo mandato, verbalizou o desejo de anexar a Groenlândia (entre outros lugares) ao território americano.
O que parecia ser um interesse estratégico tornou-se praticamente uma obsessão após seu governo capturar o ditador venezuelano Nicolás Maduro.
Independentemente do que pensam apoiadores e opositores de Trump, a compra de territórios aos EUA não é novidade na história do país. Pelo contrário: é uma prática recorrente e que foi fundamental para a consolidação do país como a potência hegemônica no Ocidente. Mais da metade do território americano foi adquirida desta forma.
Para entender a pretensão de Donald Trump, é preciso recapitular alguns dos principais episódios envolvendo anexação de territórios aos EUA após o nascimento da nação.
Luisiana
A Compra da Luisiana, concluída em 1803, é considerada o marco inaugural da expansão territorial americana por via diplomática.
Em uma negociação com a França de Napoleão Bonaparte, os Estados Unidos adquiriram um território de cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados (muito maior que o atual estado da Luisiana), praticamente dobrando sua extensão territorial e redefinindo o futuro político da América do Norte.
O valor pago — US$ 15 milhões — foi modesto mesmo para os padrões da época e tornou-se símbolo de um dos negócios territoriais mais vantajosos da história do país. O montante equivale a algumas centenas de milhões de dólares atualmente
O contexto internacional foi decisivo. A França, enfraquecida por conflitos na Europa e pela revolta na República Dominicana, avaliou que manter a Louisiana era caro e arriscado. Inicialmente interessados apenas no porto de Nova Orleans, os diplomatas americanos acabaram aceitando a proposta de compra de todo o território.
A decisão colocou o presidente Thomas Jefferson diante de um dilema constitucional, já que a Constituição não previa explicitamente aquisições territoriais. Ainda assim, o Congresso ratificou o acordo, consolidando a ideia de poderes implícitos do governo federal e estabelecendo um precedente duradouro para a expansão por compra.
Flórida
A incorporação da Flórida seguiu uma lógica distinta. Formalizada pelo Tratado de Adams-Onís, em 1819, a anexação não envolveu uma compra direta pelo território, mas resultou de uma combinação de instabilidade regional, pressão militar e enfraquecimento da Espanha.
Pouco povoada e mal defendida, a Flórida havia se tornado foco de tensões, e servia de refúgio para indígenas seminoles e escravizados fugitivos.
Uma invasão ao território, conduzida por Andrew Jackson em 1818, evidenciou a disposição americana de agir militarmente, mesmo sem autorização explícita. Sem condições de reagir, a Espanha aceitou negociar.
Pelo tratado, os espanhóis cederam a Flórida aos Estados Unidos, que assumiram indenizações de até US$ 5 milhões e, em contrapartida, renunciaram temporariamente a reivindicações sobre o Texas.
Territórios mexicanos
O capítulo mais conflituoso da expansão territorial dos EUA envolveu territórios que pertenciam ao México.
O processo teve início com a independência do Texas, em 1836, e sua posterior anexação pelos Estados Unidos, em 1845. Essa decisão levou à ruptura diplomática com o governo mexicano.
A disputa sobre a fronteira texana escalou para a Guerra Mexicano-Americana (1846–1848), vencida pelos EUA.
O Tratado de Guadalupe Hidalgo, assinado em 1848, formalizou a chamada Cessão Mexicana. Pelo acordo, o México cedeu cerca de 55% de seu território original, incluindo áreas que hoje correspondem a partes da Califórnia, Nevada, Utah, Novo México, Arizona e Colorado.
Em troca, os Estados Unidos pagaram US$ 15 milhões e assumiram dívidas do governo mexicano com cidadãos americanos. O tratado redefiniu profundamente o mapa do Oeste e acelerou a ocupação dessas regiões.
Em 1853, a Compra Gadsden completou o redesenho da fronteira sul. Por US$ 10 milhões, os EUA adquiriram cerca de 78 mil quilômetros quadrados no sul do Arizona e do Novo México, com o objetivo estratégico de viabilizar uma ferrovia transcontinental.
Juntos, esses episódios consolidaram a fronteira atual entre os dois países e demonstraram como a expansão americana combinou guerra, diplomacia e transações financeiras.
Alasca
A compra do Alasca, em 1867, ampliou a presença dos Estados Unidos para além do continente contínuo.
O território foi adquirido do Império Russo por US$ 7,2 milhões, em um contexto de dificuldades financeiras e estratégicas enfrentadas por São Petersburgo. Temendo perder o Alasca para os britânicos em um conflito futuro, a Rússia optou por vendê-lo aos americanos.
À época, o negócio foi alvo de críticas e ironias; o acordo foi chamado de “loucura de Seward” (então secretário de Estado americano).
Décadas depois, a descoberta de riquezas minerais e a importância estratégica do território no Ártico mudaram essa percepção. O Alasca tornou-se estado em 1959 e passou a ser visto como uma das aquisições mais visionárias da história americana.
Havaí
A anexação do Havaí marcou a transição dos EUA para uma potência com ambições ultramarinas. Em 1893, um grupo de plantadores e comerciantes organizou um golpe de Estado contra a monarquia local, com apoio de representantes diplomáticos e da presença militar americana no arquipélago.
A rainha foi deposta e, para evitar derramamento de sangue, optou por não resistir militarmente, esperando que os Estados Unidos revertessem o golpe — o que não ocorreu.
Isso ocorreu sobretudo porque, durante a Guerra Hispano-Americana, o Havaí passou a ser visto como essencial para operações militares no Pacífico. Apesar da resistência de parte da população nativa, a anexação consolidou a presença americana na região.
O arquipélago tornou-se estado apenas em 1959, encerrando um ciclo iniciado no auge do expansionismo do século XIX.
Groenlândia: um interesse antigo
É à luz desse histórico que se insere o interesse americano pela Groenlândia. Desde o século XIX, logo após a compra do Alasca, autoridades dos EUA cogitaram estender sua influência no Ártico com a aquisição da ilha.
Ao longo do século XX, esse interesse ressurgiu, incluindo uma oferta formal feita em 1946, recusada pela Dinamarca.
A presença militar americana na ilha consolidou-se durante a Segunda Guerra Mundial e foi formalizada no pós-guerra por acordos de defesa.
Nas últimas décadas, porém, fatores como recursos naturais, rotas estratégicas e rivalidade global reacenderam o debate. Recentemente, com Donald Trump, a ideia de adquirir ou controlar a Groenlândia voltou ao centro da política internacional, provocando reações duras de Copenhague e das lideranças locais.
Novo contexto
A recorrência histórica da expansão territorial americana ajuda a compreender por que a ideia de “comprar” a Groenlândia não soa absurda dentro de certos círculos políticos dos Estados Unidos.
Trata-se de uma mentalidade moldada desde o nascimento da nação.
O que mudou não foi a lógica, mas o contexto em que ela se expressa e as resistências que encontra.
No século XXI, anexações não se fazem apenas com tratados e cheques. Elas esbarram em soberanias consolidadas, identidades locais e em uma ordem internacional que, embora frágil, ainda impõe limites à lógica do mais forte.
Por isso, a Groenlândia funciona como um espelho histórico: ao mesmo tempo em que revela a persistência do expansionismo americano, expõe as tensões de um mundo que já não aceita tão facilmente as regras do século XIX.



